
No sul da província de Tordek se erguia a densa, e em muitos pontos intocada, floresta de Beldurra. Trezentos quilômetros de natureza selvagem separavam a cidade de Tordek das primeiras cadeias de montanhas do reino de Krasnyy e os Reinos Fantasmas de Réphina. John tinha feito uma estimativa e irritou-se ao pensar no quanto estava longe da civilização. Olhou a planície devastada. Uma enorme clareira havia sido aberta em Beldurra relativamente próxima a uma estrada de terra mal cuidada e de aparência abandonada. Não era uma rota comum, mas era uma das muitas estradas abertas por refugiados krasnianos nos últimos anos, coincidentemente após a Segunda Cavalaria de Bahamn ter retornado das Terras Afastadas. No centro da clareira, uma vila foi construída com pedras e madeira em volta de algo que parecia ser uma catacumba piramidal esculpida em rocha. Um muro de pedras sobrepostas circundava toda a pequena cidade e pessoas trabalhavam em plantações de milho e batata nas redondezas. Apesar de todas as pessoas usarem roupas de couro um tanto rudimentares, a prosperidade dali era um contraste gritante com a decadência que John testemunhara na aldeia de Ponte Alva.
As pessoas que vira ali em sua maioria eram ruivos, mas o que mais chamava a atenção eram os indivíduos peculiares. No alto do muro, dois insectais espiavam o movimento das pessoas. Eram roxos e com detalhes em vermelho, semelhantes a vespas de asa fina com lâminas no lugar das mãos e compridas pernas de gafanhoto, agachados, mediam cerca de um metro e meio de altura. Demônios insectais estavam em grande número naquele lugar, o que não era uma surpresa. Aqueles seres não eram propriamente demônios, apesar da classificação. Eles eram subprodutos de um demônio do tipo rainha que os gerava através de ovos e almas humanas. Não possuíam uma alma escura própria, mas um fragmento do demônio original. Isso fazia com que tivessem uma inteligência bem baixa, mas ainda permitia que ele absorvessem almas e as levassem para sua mestra. Seres não inteiramente racionais que estavam mais próximos de monstros do que demônios. Sua forma tinha variações dependendo do tipo de ovo que os gerou e ali eles eram dois tipos: os pequenos e ágeis caçadores; e os enormes e fortes coletores. Sua mente os limitava a ordens simples, que eles pareciam estar executando, como caçar criaturas grandes, as carregar para dentro da cidade e não matar os humanos residentes.
Invisível, John aproximou-se com cautela da entrada da vila e pôs-se a bisbilhotar para dentro do arco de pedra que formava o portão. No lado de fora, dentro de um buraco de três metros de profundidade, alguns homens cavavam ao redor do muro, no que provavelmente seria um fosso futuramente. Um deles estapeou o rosto com raiva.
- Por que insetos adoram a nossa cara? - ele falou, irritado.
- Talvez você só os note quando estão na sua cara - disse outro, ambos sentaram para descansar enquanto os outros tiravam a terra com baldes.
Faz sentido, Stuff comentou na mente de John.
- Quê? - ele sussurrou.
Não estava prestando atenção na conversa, em vez disso, observava uma mulher que saía da vila com um balde cheio de miúdos de animais. Os vigias insectais se eriçaram e moveram as asas enquanto olhavam para a mulher. Ela despejou o balde dentro do fosso e os insectais pularam lá.