No sul da província de Tordek se erguia a densa, e em muitos pontos intocada, floresta de Beldurra. Trezentos quilômetros de natureza selvagem separavam a cidade de Tordek das primeiras cadeias de montanhas do reino de Krasnyy e os Reinos Fantasmas de Réphina. John tinha feito uma estimativa e irritou-se ao pensar no quanto estava longe da civilização. Olhou a planície devastada. Uma enorme clareira havia sido aberta em Beldurra relativamente próxima a uma estrada de terra mal cuidada e de aparência abandonada. Não era uma rota comum, mas era uma das muitas estradas abertas por refugiados krasnianos nos últimos anos, coincidentemente após a Segunda Cavalaria de Bahamn ter retornado das Terras Afastadas. No centro da clareira, uma vila foi construída com pedras e madeira em volta de algo que parecia ser uma catacumba piramidal esculpida em rocha. Um muro de pedras sobrepostas circundava toda a pequena cidade e pessoas trabalhavam em plantações de milho e batata nas redondezas. Apesar de todas as pessoas usarem roupas de couro um tanto rudimentares, a prosperidade dali era um contraste gritante com a decadência que John testemunhara na aldeia de Ponte Alva.
As pessoas que vira ali em sua maioria eram ruivos, mas o que mais chamava a atenção eram os indivíduos peculiares. No alto do muro, dois insectais espiavam o movimento das pessoas. Eram roxos e com detalhes em vermelho, semelhantes a vespas de asa fina com lâminas no lugar das mãos e compridas pernas de gafanhoto, agachados, mediam cerca de um metro e meio de altura. Demônios insectais estavam em grande número naquele lugar, o que não era uma surpresa. Aqueles seres não eram propriamente demônios, apesar da classificação. Eles eram subprodutos de um demônio do tipo rainha que os gerava através de ovos e almas humanas. Não possuíam uma alma escura própria, mas um fragmento do demônio original. Isso fazia com que tivessem uma inteligência bem baixa, mas ainda permitia que ele absorvessem almas e as levassem para sua mestra. Seres não inteiramente racionais que estavam mais próximos de monstros do que demônios. Sua forma tinha variações dependendo do tipo de ovo que os gerou e ali eles eram dois tipos: os pequenos e ágeis caçadores; e os enormes e fortes coletores. Sua mente os limitava a ordens simples, que eles pareciam estar executando, como caçar criaturas grandes, as carregar para dentro da cidade e não matar os humanos residentes.
Invisível, John aproximou-se com cautela da entrada da vila e pôs-se a bisbilhotar para dentro do arco de pedra que formava o portão. No lado de fora, dentro de um buraco de três metros de profundidade, alguns homens cavavam ao redor do muro, no que provavelmente seria um fosso futuramente. Um deles estapeou o rosto com raiva.
- Por que insetos adoram a nossa cara? - ele falou, irritado.
- Talvez você só os note quando estão na sua cara - disse outro, ambos sentaram para descansar enquanto os outros tiravam a terra com baldes.
Faz sentido, Stuff comentou na mente de John.
- Quê? - ele sussurrou.
Não estava prestando atenção na conversa, em vez disso, observava uma mulher que saía da vila com um balde cheio de miúdos de animais. Os vigias insectais se eriçaram e moveram as asas enquanto olhavam para a mulher. Ela despejou o balde dentro do fosso e os insectais pularam lá.
- Ah! - gritou o homem, com raiva - Que nojo! Ô, sua vagabunda! Por que não joga essa merda em outro lugar?!
- Pensei que já tinham acabado - ela se desculpou, em tom inocente.
- Aqui, ó - o homem ergueu a mão com o dedo do meio em riste e chutou um dos insectais que lambia sua pá suja de sangue - Sai! Sai, seu filho da puta!
A mulher entrou novamente na vila e John a seguiu de perto, caminhando de modo que os sons de seus passos fossem abafados pelos dela. Sua invisibilidade era bastante relativa. Como uma magia de nível 1, tinha muitas limitações, uma delas era depender de sombras. John precisava manipular sombras para dobrar sua imagem, o que podia compensar, na ausência das mesmas, por uma magia de conjuração chamada Manto Sombrio. Outra limitação era a de sempre precisar estar próximo a algo como uma parede ou objeto, o que não era realmente um problema, já que o chão também servia. Entretanto, em um campo aberto, John teria de praticamente rastejar para evitar ser visto, uma vez que a funcionalidade da Invisibilidade Primária dependia da pessoa não estranhar sua presença. Desse modo, a invisibilidade era quase perfeita se usasse a sombra de uma pessoa, pois quem a olhasse estaria propensa a aceitar aquela pessoa como uma única existência e tenderia a não procurar por nada de anormal em seu entorno. John só precisou manter-se levemente curvado na altura da mulher enquanto ela andava por entre casas de pedra com telhados de madeira.
A mulher parou de abrupto e John quase esbarrou nela, quando um insectal caçador, menor que os outros e com uma rachadura na cabeça, disparou de uma praça para o beco em que estavam. O corpo de um coelho ensanguentado voou e atingiu o pequeno insectal em cheio.
- Se trouxer mais um coelho eu arranco as tuas antenas! - bradou um demônio do tipo infernal.
O insectal fugiu guinchando com uma das asas torta e a mulher fez que não com a cabeça para o infernal.
- Não maltrate o pobrezinho - disse ela com repúdio.
- Tss - ele fez com o nariz - Eu juro que ele faz de propósito.
Na praça, várias pessoas esfolavam os animais trazidos pelos demônios e curtiam o couro. Mais dois infernais também executavam essa tarefa, enquanto outros dois mais afastados usavam uma forja. O domínio do fogo fazia com que equipamentos não fossem difíceis de se produzir. Um enorme insectal coletor entrou na vila carregando o corpo de uma preguiça gigante. A mulher que John seguia voltou a trabalhar com o infernal e John se esgueirou por entre pilhas de corpos de monstros e animais, chegando a um dos becos que ia até a catacumba. Mais de uma vez, ele cruzou com insectais e pessoas atarefadas, até chegar na entrada do prédio piramidal de 20 metros de altura.
O infernal que John havia interrogado em sua mente não fora de tão grande ajuda. Ele havia dito a localização da vila e falado sobre os humanos que lá viviam. Mas ele pertencia a um grupo que havia chegado recentemente àquele bando e só tinha recebido ordens de vigiar Ponte Alva, sem chegar a conhecer o parceiro de seu chefe infernal. Pelo que ele supunha, seu chefe havia se aliado a alguma rainha e estavam criando um grande número de insectais juntos.
A rainha devia estar protegida dentro da catacumba e, portanto, era o alvo principal de John. Anteriormente, a pirâmide tinha uma escada até o pequeno templo no topo, mas toda a fachada fora destruída e agora havia um grande buraco que descia ao subsolo. Dois insectais coletores trazendo nos ombros grandes sacos com pedras saíram de dentro do lugar e foram pela rua principal para fora da vila. John se aproximou da entrada da mina, passando por trás de uma das pilhas de ferro bruto que dois homens reviravam com suas ferramentas. Um terceiro estava agachado no caminho de John e ele aguardou o homem sair dali. Esse homem pegou um cristal de brilho familiar do meio da pilha e correu para mostrar aos outros. John viu eles debatendo sobre o achado, nada menos que uma grande pedra de Aliir não lapidada, e entrou nas sombras da mina.
Sentiu cheiro de umidade, ferro e morte a medida que descia. Desviou da luz de algumas lamparinas nas paredes enquanto a escuridão e o vento lhe diziam que ainda havia mais a descer. O corredor escavado tornou-se nivelado e mais iluminado, terminando em um grande salão disforme de onde saiam três corredores. O da esquerda dava a uma câmara escura de onde vinha um forte cheiro de podridão, o da direita era bem iluminado e bem acabado e o da frente era grande e movimentado, com dezenas de pessoas batendo nas paredes com picaretas e coletores afastando pedras. John deu uma rápida espiada no aposento escuro de cheiro quase insuportável. Havia silêncio e…
Presenças demais para contar, disse Stuff, sinto no meu sangue.
O lugar era enorme e estava cheio de grandes ovos de carne de coloração roxa nada saudáveis. John havia lido sobre rainhas insectais. Elas precisavam consumir uma alma humana para cada ovo eclodir em um insectal. Cada um daqueles ovos significava um humano que fora devorado. John entrou no lugar para ter uma noção de quantos havia ali, invejando mais do que nunca o fogo dos piromantes. O chão estava escorregadio e pegajoso, como se todo o salão fosse uma massa única de carne. Percebeu que haviam ovos nas paredes e no teto. O lugar fora escavado disformemente e tudo parecia caos. Haviam pelo menos duzentos ovos e John pressionou a boca com a mão, pensativo. Teve um sobressalto quando uma voz masculina soou atrás dele.
- Gostou de nossa coleção?
John se virou com o coração acelerado, olhando para sua mão para garantir que ainda estava invisível, o que lembrou ser inútil, pois ele sabia que ela estava ali. Sacudiu a cabeça e se abaixou, espiando a origem da voz. Dois homens haviam entrado no salão, ambos bem trajados. O mais baixo era ruivo e segurava um pano branco na frente do nariz, enquanto o outro vestia um colete vinho e uma máscara branca como uma caveira de demônio sobre um tecido preto.
- Aterrador - o ruivo disse abafado pelo lenço - Quantos?
- 350 - o mascarado unia as mãos às costas e sua voz era macia como veludo.
- E quanto tempo?
- Do jeito que está... Dois meses.
- Dois meses? - o homem ruivo repetiu, exasperado - O senhor tinha nos prometido…
- A situação se alterou um pouco - o outro explicou, de forma branda - Venha, vou explicar os detalhes.
Os dois se afastaram e John os seguiu. Estava na entrada da câmara quando percebeu algo e estremeceu, mantendo-se dentro do limite do portal. Não era um silêncio, mas sim incontáveis sussurros, como se milhares de pessoas discutissem aos berros atrás de uma grossa parede. A cacofonia deixou John um pouco desorientado e ele fechou os olhos para se recuperar. Quando os abriu novamente, os dois haviam sumido. Ele segurou a boca, sentindo a mandíbula tremer um pouco.
- Isso não é para mim - disse ele - Definitivamente não é pra mim. A Ordem. Temos que chamar a Ordem.
Mestre? Você está tremendo... Mestre, está me ouvindo?
John percebeu que seus olhos lacrimejavam quando já estava no limite da clareira, fora da cidade. Ele sentou na base de uma árvore e limpou os olhos. Uma sensação de tranquilidade o inundou.
Não consegui fazer isso antes porque você estava se borrando de medo. Haha. O que aconteceu aqui?
- O colecionador - John entendeu - Só pode ser! Sempre achei que era uma lenda, mas ele existe!
Colecionador… Stuff sondou as memórias de John. A Guilda possuía uma recompensa secular de dez mil honórios por informações verdadeiras sobre o paradeiro do “Colecionador”. Mais fundo. Um livro que John havia lido sobre almas e nomes. Almas distinguiam animais de monstros. Enquanto nomes distinguiam humanos de animais. Nomes, no caso, não eram as simples palavras usadas para se referir a um ou outro, mas sim conceitos existenciais que os deuses deram aos humanos. Um humano sem uma alma era pouco mais que um ser material pensante. Um humano sem um nome era uma existência pífia e sem livre arbítrio, condenada a seguir a vontade do detentor de seu nome. A alma era a ligação com a magia, mas o nome era a ligação com o mundo, com o ser, com o existir. Demônios usavam a força das almas para se manterem no plano físico, assim como para usar magias. Mas eles também poderiam usar os nomes e assim se ligarem mais fortemente ao plano etéreo. Um corpo sem alma não pode evocar magias, enquanto um corpo sem nome apenas existe.
Complexo. Não sei bem se eu entendi… ou se você entendeu. Colecionador. Segundo as histórias, o último demônio do tipo espectral que não foi banido para Seteria. Ele dobra a vontade dos humanos como você dobra a vontade do vento. Classe 3, olha que interessante. Haha.
John se levantou e deu uma última olhada na vila. Nem se quisesse poderia enfrentar um demônio cuja classe era comparável a de um deus menor. As trevas já quebravam as leis do plano físico. Não queria imaginar o poder de alguém que também manipulava o plano etéreo. John se desculpou mentalmente com as pessoas da vila de Ponte Alva por abandoná-las e rumou para a floresta em direção do norte. Seu avanço inicial foi lento, pois haviam muitos insectais no caminho. Cogitou matar alguns, por descargo de consciência, mas sabia que se eles borrifassem seu veneno nele, outros iriam localizá-lo pelo cheiro. Quando teve certeza de estar afastado da vila, evocou Atrito Nulo e passou a saltar de árvore em árvore com manipulação do vento em direção a Tordek.
***
Poucas cidades no mundo podiam ser comparadas a Tordek. Venêria, nas montanhas da Luz, era bela e organizada. Saldomar, em Bahamn, era próspera de um jeito mais militar. Urvege, a cidade da Guilda do Leste, era movimentada e alegre, mas minúscula em comparação às outras duas. Tordek era um monstro, cobrindo 60 quilômetros de leste a oeste da região ao norte da floresta de Beldurra. A principal via pavimentada que ia da entrada de Venêria até o Castelo do Rochedo cruzava Tordek por mais de 20 quilômetros. Uma fortaleza fora erguida pouco mais de 100 metros acima da cidade havia 5 séculos pelos Moldadores no distrito leste. Um prédio retangular e imponente cujos cantos eram torres circulares de 50 metros de blocos de pedra que pareciam ter sido empilhados, apesar da construção inteira ser uma única rocha moldada. O distrito leste era a cidade original e apresentava milhares de construções menores de fabricação semelhante. Essa era a parte mais rica da cidade, com uma área de 200 quilômetros quadrados, era cercada por muralhas de pedra polida branca com grandes portões abertos por onde pessoas, carroças e carruagens entravam e saiam. A fortaleza possuía mais salões do que o necessário para todos os setores administrativos do governo, assim, todos os restantes eram arrendados para os negócios da Guilda do Comércio.
O restante da cidade de Tordek havia se desenvolvido com 200 anos de diferença, se expandindo conforme a necessidade. O distrito central, onde foram construídas as sedes da Ordem e da Guilda do Leste, era por onde a grande estrada passava e tinha uma área próxima a 600 km². Reunia a população um pouco menos abastada ou com necessidades específicas.
Por fim, o distrito oeste era a periferia. Enquanto no centro ainda haviam prédios e praças em relativa organização e beleza, o distrito oeste era um labirinto apertado com inúmeros becos sem saída e casas mal elaboradas. Nos últimos anos, essa parte da cidade em especial estava abarrotada de refugiados de Krasnyy. Em toda Tordek se viam cabelos ruivos, às vezes trabalhando por mixarias, às vezes pedindo esmolas, às vezes distribuindo olhares cobiçosos a pertences alheios, às vezes apenas sentados em ruelas escuras tentando existir.
- Dizem que o sonho de todo homem é comer uma ruiva - o condutor da carroça de prisioneiros falou para seu companheiro, apontando para um grupo de prostitutas na frente de um prédio mal cuidado.
- Sonho meio fraco - o outro riu.
Eles continuaram tagarelando sobre o que quer que milicianos de Tordek tivessem para tagarelar, enquanto Eddy encostou a testa nas grades da carroça de prisioneiros para olhar a rua. A carroça era puxada por dois cavalos, toda de metal e com espaço para seis pessoas sentarem. Dez pessoas, incluindo ele, se espremiam por um espaço e Eddy não era o único ruivo. O fato de o terem preso com algemas especiais para evocadores atraiu mais do que alguns olhares curiosos durante a viagem. Em determinada hora, um velho morador de rua ruivo, maneta, sem uma das orelhas e repleto de cicatrizes fez a saudação da tribo do dragão para Eddy - a mão em garra sobre o peito - junto de um olhar emocionado. Eddy desviou o olhar, envergonhado pelo veterano tê-lo confundido com um rebelde aprisionado.
Cruzaram o distrito central e rumaram para o prédio da Ordem de Tesluh. O condutor parou a carroça e seu companheiro desceu. Dois milicianos a cavalo que os escoltavam se posicionaram próximos a porta de ferro e o homem abriu-a.
- Piromante, pra fora - ele chamou.
Eddy desceu e encarou a sede da Ordem enquanto o homem trancava a porta da carroça novamente. Estavam na rua da Praça da Harmonia, que media 10 mil metros quadrados. No centro de um grande gramado quadrado havia uma bonita árvore de grandes folhas verdes. No sul da praça ficava a sede da Guilda do Leste e no lado oposto a sede da Ordem, separadas por aquela árvore e incontáveis barracas de vendedores que anunciavam suas bugigangas. O prédio da Ordem era enorme e ladeado por duas ruas, sem vizinhos próximos. Sua arquitetura era requintada e detalhista, bem diferente da fortaleza do distrito leste, passava uma sensação de pureza e dignidade. Para Eddy, era nostálgico. Não havia mentido sobre usar a biblioteca pública dali quando pequeno.
Eddy reconheceu o cavalo amarrado ao palanque ao lado da entrada, em meio aos outros, assim como sua bolsa de viagem que ele carregava. Ele se destacava dos parrudos cavalos dos agentes da Ordem. Não era possível não notar a bela mulher que descia as escadas de pedra na direção dele. Ela cumprimentou o homem que segurava Eddy por um dos ombros.
- Pode tirar as algemas - disse Erika - Eu assumo daqui. Obrigada.
- É um dever ajudar a Ordem - o homem respondeu em tom reverente, assentindo com a cabeça.
Eddy massageou os pulsos e deu um sorriso agradecido a Erika, que fez estalar dos dedos uma pequena faísca de ameaça. Seus olhos demonstravam uma desconfiança irritada e sua expressão era séria. Ela o guiou, segurando-o pelo ombro com a mão direita. Eddy sabia que se tentasse qualquer coisa, ela o faria estatelar no chão babando num piscar de olhos.
Adentraram no edifício até um grande corredor com colunas de madeira lapidadas. A segunda porta à direita Eddy sabia dar na biblioteca. Estava aberta e era possível ver uma das várias estantes de livros. Não havia tanto movimento lá dentro e não era de se estranhar. Pouco menos da metade de Tordek sabia efetivamente ler ou escrever o próprio nome, uma parte menor ainda teria capacidade ou interesse de ler livros como aqueles.
Algumas pessoas cumprimentaram Erika conforme andavam, com sobrancelhas erguidas em interrogação. Ela os respondeu com acenos de cabeça e nada mais. Chegaram a uma janela que dava a um balcão em uma sala no fim do corredor. Uma escada subia e outra descia ao lado, estando a que descia bloqueada por grades de ferro. Um rapaz franzino de cabelos loiros que parecia ter pouco mais de 15 anos fez uma cara de surpresa atrás do balcão, quando eles pararam a sua frente. Apesar de novo, tinha uma pedra de Aliir na luva direita. Colocou o livro que estava lendo de lado e deu um sorriso perplexo.
- E-Erika, não é? Como posso ajudar?
- Olá, Marco - ela respondeu - Preciso de uma cela pra esse aqui.
- Oh! Ok - ele remexeu alguns papéis e pegou um formulário - Hã... Desculpe. Aqui. Preciso do nome e a justificativa… Dele no caso.
- Eduardo, de Lianne - Eddy respondeu, em tom alegre - Tentei salvar a vida dehã... Ah…!
Seu rosto ficou dormente e ele sentiu que sua língua era maior do que o normal, depois que ela apertou seu ombro. Marco olhou para a cena com um sorriso assustado e anotou o nome de Eddy.
- Ele está envolvido na tentativa de assassinato a um membro da Ordem - ela falou - E está escondendo informações sobre o paradeiro de Solomon Seward... provavelmente.
- Ahnhuvava - Eddy tentou dizer, beliscou sua própria bochecha, mas nada sentiu - Ehãh!
- Certo - Marco anotou e usou um pequeno carimbo, alcançando um molho de chaves a Erika - Pode colocá-lo na 1.
- Obrigada.
- Oho er uh irro? - Eddy perguntou a Marco, apontando para o livro dele e tentando gesticular leitura - Uh irro.
- Q-quer um livro? - ele perguntou e Eddy fez um positivo, assentindo com a cabeça - Ah… Tudo bem. Vou te levar algo para ler… Ah - olhou para Erika - Se não tiver problema.
Ela deu de ombros e levou Eddy até as celas, colocando-o na mais próxima da escada. Docilmente, Eddy fez tudo o que foi mandado. Recostou-se na parede da cela de três por quatro e cruzou os braços, olhando para ela e sentindo-se triste e abandonado. Ela olhou para ele e desviou o olhar. Então ela o encarou com firmeza.
- Eddy - ela falou, fazendo uma longa pausa, como se pensasse nas palavras - O que aconteceu lá?
- A-le-crim - Eddy testou, massageando o queixo - Eu mesmo não sei direito. Nós exploramos cavernas e eles levam aqueles cristais para algum lugar no sul. Não deixamos que ninguém saiba o que fazemos e não faço ideia de porquê Charles queria… fazer o que queria fazer.
- E John? - ela franziu o cenho.
- Solomon? - ele deu de ombros - Me diga você. Nosso chefe, Lore, mandou eu vir com você e descobrir o que você tinha visto - ele suspirou - Minha hipótese é que haviam dois demônios, talvez um ceifeiro caído, a julgar pelos ferimentos do leviathan... Não? - ele fez ao ver Erika negar com a cabeça, de olhar perdido.
- Foi ele - ela disse, baixinho - eu vi. E depois me deixou lá…
Ela olhou para Eddy, que franzia o cenho com incredulidade.
- Erika… - ele disse, mas ela se virou e subiu as escadas.
Eddy suspirou e sentou na cama de metal com colchão de molas. Fazia anos que não tinha uma cama tão confortável. Havia até uma patente de pedra bem entalhada.
- Acho que chamam isso de “subir na vida” - ele riu.
***
A perna de John resbalou ao aterrissar em um galho depois de um salto e ele caiu 5 metros até o chão. Ele rolou, de modo a reduzir o impacto e não se machucou. Havia avançado pouco mais de 80 quilômetros em direção ao norte. Quando saltava acima das copas das árvores, podia ver uma linha que parecia ser Tordek e as montanhas da Luz no horizonte. Isso e um mar verde. Ele se levantou e sentiu o estômago roncar de leve. Apertou a barriga e olhou em volta. Ao redor da árvore que o fizera cair estavam incontáveis frutinhas roxas que provavelmente haviam lambuzado aquele galho. Pedaços de ruínas de pedra, cobertas de limo e trepadeiras, se espalhavam por entre as altas árvores. Não eram visões incomuns em Beldurra. Resquícios de um tempo tão antigo quanto a floresta ou os deuses. John caminhou até um bloco que poderia ter sido uma escada algum dia e sentou. Ele não lembrava se aquelas frutas eram comestíveis, mas se encontrasse cogumelos ou algum animal pequeno facilmente, passaria a noite ali.
Mestre, Stuff chamou em sua mente.
- O que foi? - ele perguntou, sentindo a barriga roncar outra vez.
Lembra quando matamos aqueles demônios na vila? Não… Aquelas vibrações eram fracas. Isso se parece mais com quando matamos o leviathan.
- Do que está falando? - John franziu o cenho quando seu estômago roncou novamente.
Parece estar cada vez mais perto, vindo direto para nós. Stuff fez a mão esquerda de John apontar na direção de que vieram. É como se um leviathan morresse a cada 200 metros.
John se levantou de sobressalto. Aquilo que sentia em sua barriga era como a reverberação de um som muito alto, mas não havia nenhum som anormal na floresta. Que diabos era aquilo?
- O que isso significa?
Desculpe, mas eu também não sei. Deve nos alcançar em 5 minutos. 20 se continuarmos correndo.
John pressionou a boca, sentindo a barba por fazer cravar a palma de sua mão. Estaria sendo seguido pelo Colecionador? Ele tinha certeza de que não havia sido visto… As pessoas que ele salvou em Ponte Alva poderiam ter contado sobre John. Mas os demônios iriam saber para onde estava indo? Tinha lido alguma coisa sobre demônios do tipo espectral. Nenhuma habilidade que explicasse aquilo, ainda mais as vibrações de demônios morrendo. John foi até a base de uma árvore e escondeu-se, apenas a cabeça visível da direção que Stuff apontara. Eram por volta das 3 horas da tarde e a luz do sol ainda penetrava através dos espaços entre as copas das árvores e por entre suas folhas. A árvore fornecia uma boa sombra, que o pouparia de ter de usar o Manto Sombrio. Assim, evocou sua invisibilidade.
- Acha que eu consigo lutar? Com algo como o leviathan?
Creio que sim. Vou ajudar como puder, Mestre. Ainda temos energia de sobra. Você só precisa lembrar das coisas que eu disse sobre o sangue escuro.
Stuff havia dito a John sobre o tempo que passou testando sua habilidade. Sentia-se confiante nas propriedades de cura e maleabilidade do sangue seteriano. Cortes superficiais seriam fechados em poucos segundos. Feridas profundas não eram um problema também. Ossos que eram complicados, seriam apenas remendados. Enquanto Stuff usaria uma pequena quantidade de sangue para manter as feridas fechadas, o custo para manter ossos quebrados no lugar era alto, em energia, sangue e tempo. O sangue seteriano acelerava e otimizava a recuperação, mas mesmo as feridas simples poderiam reabrir caso o sangue alocado para elas fosse retirado antes do tempo. Stuff dissera que havia amputado um dedo de John, para ver se conseguiria reimplantá-lo. Segundo ele, teoricamente, conseguiria consertar qualquer coisa, desde que houvesse sangue, energia e tempo suficiente. Também salientou que era um processo delicado, não viável em uma situação de batalha. Portanto, Stuff aconselhou John a não ser decapitado, pois poderiam haver sequelas irrecuperáveis, e ele agradeceu pelo conselho.
Outro detalhe era o sangue normal de John, que se perdia naturalmente quando uma ferida era aberta. Esse sangue seria reposto pelo metabolismo de John, mas se ele perdesse sangue demais as coisas ficariam complicadas. Stuff havia tentado irrigar os órgãos de John usando o sangue seteriano com sucesso. Mas disse que era um desperdício usá-lo para esse fim, como uma espada que alguém decidisse servir melhor para escorar a porta.
Trezentos metros, Stuff avisou. As vibrações que soavam com intervalos curtos de dez segundos no máximo cessaram e cerca de um minuto se passou. John engoliu em seco, encarando a floresta. As sombras sussurravam enquanto ele procurava qualquer ameaça.
Foi então que ele a viu. Agachada em cima do mesmo galho em que ele se desequilibrou uma pessoa observava o chão. Vestia uma roupa totalmente preta e justa no corpo. Usava uma touca com apenas uma fenda para os olhos e o volume em seu peito sugeria ser uma mulher. O galho em que estava era grosso, mas seu inabalável equilíbrio era invejável. Em uma das mãos ela segurava uma machete curva, do tipo usado pela milícia de Tordek em Beldurra. O fato é que ela não estava trajada como tal, aliado ao fato de que ela sondava a floresta do alto, ela estava mais para uma assassina. Isso podia ser bom, ou ruim.
De tempos em tempos a Irmandade mandava algum assassino atrás de John. Assassino, na verdade, era uma palavra muito forte. Apesar de ter caído em maus lençóis ao revelar segredos da Irmandade, John ainda era uma boa propaganda, de modo que tê-lo morto não teria nenhuma utilidade. Assim, ilusiomantes em treinamento ou interessados em magias mais avançadas eram enviados em espécies de desafios, como entrar em determinado lugar ou roubar determinado item de alguém. No caso de John, o que eles sempre miravam era uma de suas armas e o objetivo era furtá-la sem serem descobertos. Não era uma prática muito especial, mas sim um tratamento padrão para membros expulsos, os que foram autorizados de forma não oficial a permanecerem vivos. A arma de John não era exatamente algo a se orgulhar, mas por John ser uma espécie de celebridade em Statera, o foco acabava tendendo a ele. Era improvável, mas John torcia que aquela fosse uma integrante da Irmandade.
Ela observou a floresta por 5 minutos, até que decidiu descer. Pousou com o movimento desacelerado por uma ventania, o que lhe informou se tratar de uma aeromante. Ela então analisou o chão e John percebeu que aquele ponto havia sido revolvido por sua queda anterior. Ficou nervoso enquanto ela seguia seus rastros com o olhar até o lugar onde estava, mas se manteve quieto e concentrado em manter sua ilusão.
Ela é bem bonita, Stuff comentou, Os olhos. Oh, assustadora. No momento em que ele dissera aquilo, ela pareceu olhar diretamente para John. Ele se espremeu contra a árvore, torcendo para que ela não estivesse vendo através de suas sombras. A mulher fez um arco com o braço e John viu a machete ser arremessada no ar, com o giro no sentido contrário à lâmina, sem o intuito de acertar alguma coisa. John a seguiu com os olhos, passaria um metro acima e a direita de sua cabeça, sem o tocar. Foi então que John teve um espasmo de tensão ao ver a machete ser pega no ar por ninguém menos do que a mulher de antes. Pasmo demais para perceber a vibração em seu estômago ou simplesmente fazer alguma coisa, a mulher golpeou de cima a baixo acertando sua garganta.
Ela olhou a figura de John se formar enquanto ele se engasgava e segurava o próprio pescoço. Ela pegou o cordão do amuleto em seu peito e, como que num espasmo de velocidade que a pegou desprevenida, John agarrou o seu pulso. Ele sentiu seu braço por um instante, mas sua mão se fechou no nada e a mulher estava alguns metros a frente. Alimentado pela dor, o ódio de Stuff era palatável e John resistiu ao ímpeto animalesco de tentar estraçalhar aquela pessoa. Não sabia se o que ela fizera era uma ilusão e era perigoso atacar sem descobrir qual fora o truque usado. Assim, com a mão esquerda trêmula pela raiva reprimida, John juntou a machete do chão e se levantou, apontando a arma para a mulher.
- Isso não foi nada educado, moça - ele disse entredentes, com a voz meio rouca - Alguém podia ter se machucado.
John cuspiu um espesso borrão vermelho e deu uma olhada na palma de sua mão direita, coberta de sangue que evidenciava a gravidade da ferida já fechada. A dor diminuíra e agora era um latejar surdo, assim como a agressividade de Stuff. A mulher também já não se mostrava em guarda e massageava o pulso lhe dando um olhar avaliativo.
- Você o controla - ela constatou, sua voz era firme e demonstrava segurança, como se ele não representasse real ameaça - Não. Você o contém. Como consegue isso?
- O que é esse amuleto? - John hesitou, mas baixou a machete - Se estava atrás dele, sabe o que é.
Ela continuou o encarando, sem responder. Seus olhos o fitaram de cima a baixo e pareciam ponderar se ele valeria mais vivo ou morto.
- Se quer respostas, me encontre no Passo Torto, no distrito oeste de Tordek - ela falou finalmente - E não perca isso - disse a última parte quase em tom de ameaça.
Então sua imagem pareceu se curvar para seu centro e John estava sozinho na floresta. Ele olhou em volta sem se mover, desconfiado. Mas o vento e as sombras lhe diziam que não havia mais ninguém ali.
- Que diabos acabou de acontecer?
A vibração dessa vez foi diferente, quase não pude sentir.
John sentou, se sentindo exausto. Esfregou a boca sentindo o cheiro de ferro. Ainda tinha três horas de sol. Tinha de aproveitá-las para se limpar e evitar ser visitado à noite por criaturas da floresta que apreciassem aquele cheiro.
***
Charles acordou, sentindo-se grogue. O cheiro de química lhe dizia que estava em algum tipo de hospital. Tentou abrir os olhos e um deles estava coberto por ataduras. Estava vestindo um avental fino típico de pacientes internados e seu braço esquerdo estava amarrado por correias de couro. Num reflexo, tentou desatá-lo com a outra mão, mas, quando a ergueu, notou um coto enfaixado. Ele não teve qualquer reação além de tentar lembrar o que acontecera. Estava encarando o membro amputado quando percebeu a presença ao seu lado. Por estar em um pequeno quarto escuro, ele não havia notado antes a mulher de preto que o observava.
- Não tenho como tirá-lo daqui - ela disse, com a voz baixa - Apenas informe.
Charles tentou endireitar-se, mas todo seu lado direito estava dormente. Sua voz saiu um pouco enrolada.
- O garoto que mandamos não passou no teste de Lore - Charles deu um sorriso torto - Foi criativo e acabou me pegando quando tentei interceptar a testemunha antes que ela chegasse em Tordek.
- Não parece irritado por isso - a mulher deu um olhar gélido que fez Charles se encolher um pouco.
- Peço perdão, milady. Lore havia dito que o garoto não serviria e eu acho que me apeguei demais. O erro foi meu.
- Agradeça ao garoto - ela fez que não com a cabeça, irritada - Você não tinha ordens para matar ninguém. Teríamos problemas muito maiores se você tivesse conseguido.
Charles engoliu em seco, sem conseguir encarar aquela mulher.
- O que o garoto sabe? - ela quis saber.
- Pensa que temos ajudado Krasnyy - ele respondeu - Acha que Lore é um mercenário contratado para encontrar os fragmentos para o rei rebelde, mas não sabe o que são os cristais.
- Certo, fico feliz em não ter que me arriscar invadindo a sede da Ordem. Descobriram o que a garota viu?
- Eddy me deu um envelope com algo codificado, mas não sabia o que relatava.
- Sim, estava nas coisas que confiscaram de você.
Ela sacou o envelope e encarou uma a uma das páginas, depois o deixou de lado.
- Algo mais? - ela perguntou e ele negou com a cabeça - Então me dê - ela encarou os olhos dele e ele fez o mesmo.
- Sim - ele respondeu e seus olhos fecharam lentamente.
Eles se abriram novamente ao sentir um deslocamento de ar.
Charles se viu em um escuro quarto com cheiro de ervas. Ele piscou, confuso e olhando em volta. Sentiu o braço esquerdo imobilizado e viu amarras o segurando a cama. Ele forçou e por reflexo tentou se desamarrar com o braço livre. Foi então que notou sua mão direita faltando. Ele escancarou seu único olho destapado com terror e soltou um urro de pavor. Desesperado começou a se debater e gritar por ajuda. Um enfermeiro entrou no quarto para ver o que acontecia, acompanhado de um miliciano de olhar intimidador. Charles choramingou, berrou e suplicou enquanto outros enfermeiros entraram para ajudar a segurá-lo. Várias feridas se abriram com o esforço e os lençóis se mancharam de sangue. Ele se acalmou depois de um sedativo ser aplicado e finalmente voltou a dormir. Algumas das pessoas olharam o homem com pena, outros comentaram que aquilo era merecido pelo que ele tentara fazer. Ninguém percebeu o envelope em meio as ataduras usadas, dentro de um balde, que seria descartado não muito tempo depois.
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