sexta-feira, 31 de março de 2017

Capítulo 10 - Choque de Realidade

A supervisora geral da sede da Ordem em Tordek chamava-se Fiona Galen. Uma mulher de beleza madura de 47 anos, 20 destes ocupando o cargo atual. Comandava mais de trezentas pessoas ligadas a Ordem espalhadas por todo o continente de Statera, apesar de sua jurisdição ser apenas a província de Tordek. Praticamente todos os assuntos relativos à Ordem, ocorrendo fora das 9 Cidades da Luz, acabavam por ser de sua conta e diversas dores de cabeça se originavam desse fato. Seu cabelo era loiro escuro e seus olhos azuis, sua expressão era agravada por rugas nos cantos da boca fina, que a faziam parecer estar sempre descontente com algo, o que não era de todo falso. Apesar disso, era uma pessoa extrovertida e bastante enérgica na maior parte do tempo.
Todos os caçadores sob sua autoridade lhe deviam relatórios sobre suas peripécias e façanhas. Sua atual irritação se dirigia a três desses relatórios, todos da mesma caçadora. O primeiro deles não era de todo ruim, se tratando de um dossiê encomendado que, apesar do enorme atraso, estava satisfatoriamente completo. Fiona ainda não se conformava com a petulante garota que ousou protestar contra a missão dada pelo próprio Gran Mestre da Ordem e teve de gastar um pouco de paciência para convencer Erika a cumprir o que lhe foi ordenado. Erika havia solicitado duas vezes informações sobre o paradeiro de Solomon Seward, que a levaram a pistas frias. Quando se preparava para desistir e pedir uma terceira direção, encontrou quase por acaso o renegado nos arredores de Hamaria. Mesmo assim, aquele relatório ultrapassou o prazo de entrega em dois meses, o que fez Fiona temer dar a impressão ao Gran Mestre de que sua missão fora tratada com descaso por seu pessoal.
O segundo relatório se referia à última aventura que Erika e Solomon tiveram e a supervisora não conseguia decidir qual parte dele era pior do que a outra. Um leviathan fora do oceano não só era extremamente raro, como um classe 2 não era documentado haviam centenas de anos. A mera menção de um classe 2 em um relatório obrigava Fiona a cumprir o protocolo de enviar uma equipe completa, para simplesmente examinar o corpo e arredores. Vinte anos atrás isso seria fácil de se arranjar, mas se mesmo montar uma equipe reduzida já era um inferno burocrático, mobilizar o pessoal de uma equipe que um classe 2 exigia era quase impraticável. Metade de Tordek estava infestada por moscas, os pequenos demônios devoradores de sonhos atraídos por sentimentos negativos, o que estava mantendo seus luminomantes bastante ocupados.
Erika se negou a modificar a classe do demônio que encontrou e jurou pelo seu nome o absurdo de que Solomon, possuído por alguma entidade, havia derrotado o leviathan com as próprias mãos nuas. Após isso, o renegado ainda a havia curado de um ferimento letal, fugindo do local enquanto ela estava inconsciente.
O terceiro relatório falava sobre uma suposta tentativa de assassinato que resultou em Erika usando sua autoridade como representante de Tesluh para levar duas pessoas sob custódia. Disso, curiosamente, Fiona já havia sido informada antes da caçadora sequer chegar na cidade, pois os boatos correram como fogo no pasto seco. O pior não era isso. A história se modificara de tal forma que as pessoas estavam contando sobre um complexo esquema para um atentado contra a Ordem que foi impedido pela eficiênte milícia de Tordek. Com a cidade apilhada de refugiados, a criminalidade, a violência e o descontentamento da população crescendo a cada dia, o governo estava se agarrando a qualquer migalha para mostrar serviço. Fiona não sabia o quanto o governador Patrick e seus assessores estavam envolvidos com esses boatos, mas sabia que ele havia arranjado alguns nomes de milicianos para condecorar em uma cerimônia que seria organizada no distrito leste em breve. Sabia disso por um dos secretários de Patrick, que estava zanzando desde o dia anterior pelo hall de entrada da sede, implorando a presença de qualquer membro da Ordem no evento, nem que fosse apenas para apertar a mão do governador no palco ou acenar para o público.
Dois dias haviam se passado desde que Erika apresentou seus relatórios e, na manhã do terceiro dia, Fiona entrou no salão com passos rápidos e cara de poucos amigos. Potter, o secretário enviado para importuná-la, estava gesticulando ao conversar com uma dupla de caçadores que ali esperavam. Um deles sorria com uma expressão de desculpas, enquanto o outro batia o pé ritmadamente. Esses dois eram os únicos que Fiona podia dispor imediatamente e estariam aguardando pelos próximos dias o resto do pessoal se reunir para a equipe que iria a Carpa de Pedra. Suas roupas eram um conjunto de couro tingido de branco unidos por tiras e tecidos em tons cinzentos e o símbolo das quatro asas de Tesluh nas costas. Esta roupagem era típica dos cavaleiros da Ordem por serem cedidas pelo arsenal, apesar de alguns preferirem estilos de trajes próprios.
- Bom dia, senhora Galen! - Potter chamou ao enxergá-la, igualando seu passo em direção a escadaria - Sobre o que conversamos…
- Discutimos isso ontem, senhor Potter - ela o interrompeu, fazendo sinal para um dos seguranças que estava ao lado da escada - Se me dá licença.
O homem trajado da mesma forma que os caçadores de antes sorriu com diversão ao se pôr no caminho do secretário e a supervisora subiu os degraus de dois em dois. Ela não precisava da autorização de ninguém para enviar um membro para uma cerimônia, mesmo assim, redigiu duas cartas no dia anterior na frente do secretário, uma para o conselho da Ordem e outra para o conselho de Statera, não querendo para si a responsabilidade daquela decisão. Ela imaginava o resultado. O conselho da Ordem não iria aprovar a participação de seus membros em algo sem base verídica, enquanto era improvável um sim do conselho de Statera, pela crescente inimizade das cadeiras da Ordem e de Tordek, por causa da questão da cadeira de Krasnyy. Governador Patrick também devia saber disso, portanto aquele secretário insistiria o quanto precisasse.
Estressada, Fiona percorreu o salão de espera do segundo andar sem dar atenção a ninguém além de sua secretária, que abriu a porta de seu escritório para a supervisora passar. Parou um passo antes da porta para olhar o homem que aguardava ali perto. Ele tinha cabelos pretos cortados muito curtos, olhos negros e pele muito clara. Seu rosto era fino e sua expressão era séria e serena. Sua postura era bem ereta e suas roupas eram em tons de cinza sob um colete de couro escuro com um broche dourado com quatro asas. Sua luva tinha uma pedra de Aliir verde. Ele esperava no salão, como os outros que aguardavam a chegada da supervisora, mas ao contrário dos demais, não havia sentado, como que sabendo que teria prioridade. Fiona conhecia Nathan, o secretário chefe da inteligência da Ordem, o departamento alocado no terceiro andar do prédio.
- Senhora Galen - ele cumprimentou-a, assentindo com a cabeça de forma respeitosa - Solicito um pouco de seu tempo.
- Claro, entre - ela disse rapidamente enquanto entrava - Sente-se.
Ela indicou a cadeira a frente de sua enorme mesa de madeira e se sentou na poltrona de costas para a grande janela. Estava tensa, mas por pouco tempo. O que Nathan tinha a dizer fez Fiona fazer força para não sorrir, inclusive livrando-a de algumas rugas.


***


Erika não podia evitar de se sentir nervosa ao entrar na sala da supervisora Galen. Dentro do escritório, o caçador chamado Lucke estava escorado ao lado da porta e deu um aceno para Erika, sorrindo. Ela cumprimentou o amigo de longa data e se pôs de frente para Galen, que assinava alguns papéis sem olhar para ela. Em todas as suas visitas anteriores, quando a supervisora havia discutido o conteúdo de seus relatórios, tinha irritação e descontentamento muito claros no rosto de sua superior, mas agora, Galen parecia alegre. A caçadora engoliu em seco, imaginando o que aqueles papéis podiam significar.
Galen uniu os formulários com outras páginas, que Erika reconheceu como serem seus dois últimos relatórios, e os juntou em uma pasta de papel, empurrando esta por sobre a mesa na direção de Erika. A caçadora piscou, esperando instruções e Galen sorriu.
- Minha querida - a supervisora começou - sei que está curiosa com o porque te chamei aqui hoje.
- Sim, senhora Galen - Erika respondeu com timidez - Se for sobre a equipe... Como eu disse, estou a disposição…
- Não, não, não. Escute - Galen a interrompeu - Esqueça sobre isso. Tesluh olhou por mim e as OD decidiram tirar esse peso dos meus ombros - ela soltou um suspiro de alívio e escorou-se para trás, unindo as mãos e sorrindo novamente - Lucke irá acompanhá-la até o terceiro andar e eles irão decidir o que fazer com o seu caso. Meu pessoal não será mais envolvido. Não é maravilhoso?
- O… terceiro andar? - ela perguntou, espantada.
Na sede da Ordem, uma pesada porta de mogno escuro separava o salão do segundo andar das escadas para o terceiro andar. Essa porta era vigiada e mantida fechada, com quase ninguém autorizado a passar. O Departamento de Operações Discretas da Ordem de Tesluh sabidamente situava-se lá em cima, abreviados para OD. Um departamento um tanto misterioso, cujos chefe e integrantes eram deveras reclusos. De alguma forma, os membros das OD conseguiram permanecer no anonimato quase completo, já que nem Erika nem qualquer funcionário da sede conseguiria apontar um com absoluta certeza. Ela sempre supôs que havia outro acesso ao andar, já que a porta para lá apenas era usada por visitantes acompanhados.
- Estão esperando por você - Galen cutucou a pasta com documentos na mesa - Pegue isso e siga Lucke. Agora.
Erika pegou os papéis e fez como ela disse. Eles passaram pelas pessoas que aguardavam na sala e Lucke abriu a porta para as escadas com naturalidade.
- Venha - ele disse e ela obedeceu.
Subiram as escadas e Erika tentou controlar suas emoções, entre ansiedade e pavor. Após dois lances de escadas, chegaram a uma pequena ante-sala, bem menor do que o salão de espera lá de baixo. Haviam 4 poltronas de couro, duas em cada lado da parede, com mesinhas aonde era possível apoiar xícaras e documentos. Lamparinas signomáticas iluminavam o ambiente sem janelas, emitindo um ruído baixo característico.
Lucke guiou Erika por uma porta e eles seguiram por um salão parecido com o do andar de baixo. Haviam portas para salas abarrotadas de papéis e pessoas anotando e lendo. Uma porta não tinha maçaneta e haviam mesas com mais pessoas debruçadas sobre livros por todo o salão. Erika viu alguns rostos levemente familiares. A porta no final do salão estava aberta e eles entraram em um enorme escritório de teto alto cujas paredes estavam cobertas por estantes de livros, sem janelas visíveis. Uma mesa foi posta no centro como a da supervisora Galen, além de outras duas lotadas de livros e anotações. O lugar tinha cheiro de madeira e tinta, parecendo muito limpo apesar da bagunça.
Atrás da mesa principal, estava um homem de óculos lendo um pergaminho. Usava uma camisa de botões branca de manga comprida e uma luva com uma pedra de Aliir dourada. Seu rosto tinha marcas da idade, tendo por volta dos 60 anos, mas tinha linhas firmes e ainda podia ser considerado atraente. Seu cabelo era branco puro, cortado de forma prática e os olhos castanhos voltaram-se para Erika por cima dos óculos quando ela entrou na sala. Sua expressão era pacífica e simpática e o rosto que parecia feito para estar de bom humor fez ela pensar em seu avô. De pé, com as mãos às costas, ao lado deste senhor, estava Nathan, o único que todos conseguiam relacionar ao terceiro andar.
- Essa é Erika Grasslake - Lucke a apresentou - Este é Erin Lodestar, supervisor geral das Operações Discretas.
Erin a cumprimentou, levantando de sua cadeira para apertar a mão de Erika com ambas as mãos, tornando a sentar e indicando a cadeira a frente de sua mesa para ela. Erika tomou o assento e lembrou dos arquivos que segurava, entregando-os a Erin. Ele aceitou, colocando-os de lado e escorou-se com os cotovelos na mesa, unindo os dedos abaixo do queixo para fitar a caçadora.
- Olá, senhorita Erika - ele falou -Nunca havia vindo até aqui, certo?
- Sim - ela respondeu, nervosa.
- Diga, o que pensa que nosso departamento faz?
- Hã… - ela deu uma olhada rápida para o secretário chefe, que a observava com um rosto insondavelmente calmo - A inteligência organiza as missões de campo. Decidem os caçadores que melhor se adequam a cada uma… Investigam as denúncias de atividade demoníaca…? - essa última parte ela tornou numa pergunta.
- Isso seria uma utopia - Erin sorriu - Passou perto. De forma simples, nós tentamos saber de tudo o que acontece, usando nosso próprio pessoal para intervir aqui ou ali. Usando contatos até mesmo em outros departamentos.
Ele indicou Lucke, que aguardava próximo a porta. Erika o olhou impressionada, a boca formando um “o”. Conhecia Lucke desde que entraram juntos na Ordem de Tesluh, ainda em Venêria, e ela nunca imaginaria ele como um agente das OD.
- Lucke… trabalha pra você? - ela voltou-se a Erin.
- Ah, sim - Erin continuou - Nosso trabalho exige que mesmo nossos aliados desconheçam certas coisas. Peço que não leve para o lado pessoal.
- Não… Eu só achei… legal - ela foi baixando a voz.
- Eu ouvi “legal”? - Erin gargalhou, fazendo Erika enrubescer - Ora, fico feliz em saber que temos uma imagem tão positiva. Você consideraria uma carreira conosco atraente?
- Ah, sim! - Erika confirmou com a cabeça - Eu adoraria… Quer dizer… Quem não iria querer?
- Vamos voltar a esse ponto mais tarde. Aqui - ele pegou uma folha que já estava separada, uma cópia do relatório sobre o leviathan - Façamos um pequeno exercício agora. Você foi bastante detalhista em algumas descrições neste texto. Em específico como você tentou evidenciar que Solo não havia lhe causado mal algum depois de derrotar o leviathan.
Erin virou a página por sobre a mesa de forma que ela conseguisse ler. Erika sentiu seu peito pesar um pouco.
- Quero que você leia isso - ele continuou - e substitua mentalmente as partes que dizem “John” por “Indivíduo A”. A ideia é abstrair e desconsiderar que este é um relatório falando sobre seu amigo, consegue fazer isso?
- Desculpe, senhor - ela disse baixinho, sem conseguir tirar os olhos do papel - Eu... não sei se consigo fazer isso.
- Não? - ele deu um risinho, divertido - Imaginei que não. Sabe que outra pessoa também não vai conseguir fazer isso? Por motivos diferentes, imagino.
Ela olhou para ele, sem entender.
- Que tal uma dica? - ele pegou algumas páginas e as folheou, pegando uma e a depositando na mesa, ao lado da primeira - Alguém cujo cargo começa com Gran e termina com Mestre.
Erika franziu abriu bem os olhos ao perceber que a folha era de seu dossiê sobre John, o original, ao invés de uma cópia como a anterior.
- Isso deveria já ter sido enviado… Ah, o que isso tem a ver com o leviathan? - ela perguntou.
- Você pode pensar que as acusações sobre Solo são infundadas, mas… - Erin a olhou com pesar - Ele alguma vez contou o porquê de ter sido expulso dos Seguidores?
- E-expulso… - Erika disse com a voz fraca - Sim, sim. Veh não quis que um de seus seguidores fosse um adepto de Helort. Ele a ofendeu e as… as coisas pioraram.
Erin a olhou como um pai que pensava numa forma de contar ao filho que o cachorro foi devorado por um monstro. Ele tamborilou os dedos na pedra de Aliir em sua luva de maneira distraída. Por fim inspirou.
- Poucas pessoas sabem a verdade, querida - fez uma pausa - Um dos motivos disso é Veh e o conselho da Ordem aceitaram minha opinião de manter tudo em sigilo - outra pausa - Mas na época, havíamos encontrado provas concretas de que Solo estava trabalhando para um infernal de classe 2.
Erika riu, com nervosismo crescente.
- Impossível - ela disse, meneando a cabeça - John não… Não tem como ele...
- Ele tinha seus motivos - Erin a interrompeu com delicadeza - Lucy Seward, irmã mais nova de Solo, havia sido capturada durante aquele incidente em Deuce e mantida como refém para que ele seguisse as ordens que lhe fossem dadas.
- Mas os Sewards foram mortos por vingança - ela afirmou, franzindo o cenho.
- Solo foi capturado bem antes de se tornar famoso - Erin pensou um momento - Se não me engano, foi pouco depois que uma equipe da qual Solo fazia parte foi emboscada e todos os seus integrantes mortos. Ele voltou a Tordek, alegando ter sobrevivido ao ataque. Investigamos o local e algo na disposição dos corpos havia me inquietado, mas nada que me levasse a suspeitar de Solo.
- Eu tinha ouvido falar disso... - Erika olhava as próprias mãos, ainda pensando sobre o ataque à cidade natal de John - Sobre a destruição de Deuce.
- Todos ouviram - Erin olhava para as páginas que dispusera de frente para Erika - Eu comecei a desconfiar de Solo quando ele se tornou bastante efetivo em destruir lares de infernais. Ele havia se juntado à Ordem e se tornado um caçador errante, mas provavelmente estava recebendo ajuda do classe 2 para eliminar os inimigos da própria espécie - ele sorriu para ela - É claro que eu não sabia disso na época. Nas reuniões em Venêria, Veh falava com orgulho de Solo enquanto o conselho estava feliz com seu desempenho. Eu? Eu ganhava mais e mais rugas por causa do garoto que estava matando um a um dos meus melhores informantes, sem poder reclamar de nada.
Desta vez, Erika o encarou com incredulidade. A boca parecendo querer formular uma pergunta. Manter relações mesmo que diplomáticas com demônios podia ser enquadrado pelo crime de associação demoníaca. Erin sorriu fazendo cara de culpado e dando de ombros.
- Solo não é o único com técnicas revolucionárias para conseguir informações - ele se defendeu - Se eles tem uma mente racional, é possível conversar. A maioria dos seterianos são algo como a maldade encarnada, mas outros só querem viver em paz, entende?
- Acho que sim - ela ainda o encarava - E por que está me contando essas coisas?
- Ah, Erika - ele inclinou-se para frente - Eu quero que entenda. Algumas coisas funcionam melhor escondidas.
- C-como assim? - ela engoliu em seco.
- Depois de ouvir o que ouviu, o que você acha… - Erin tocou ambas as páginas com os indicadores - ...que o Gran Mestre fará ao somar estas duas informações?
- Isso…! - ela ergueu o tom - Isso não… A Ordem não faria mal a John, não é? - ela olhou rapidamente para todos na sala, como que esperando uma confirmação - O que ele fez está no passado... Ele já foi punido. O que aconteceu agora…
- Não tem relação? - Erin sugeriu, em tom sério - Será? Você conhece a Duquesa Vermelha?
- O quê? - ela piscou, confusa - O que isso tem a ver?
- Desde que entrou na Guilda do Leste, Solo tem aceitado diversos contratos que fazem o Gran Mestre questionar a índole do caçador das sombras. Entre eles está o “adestramento”, e peço o perdão da palavra, da infernal atualmente conhecida como Duquesa Vermelha em Bahamn - Erin escorou-se na cadeira - Também temos registros de pagamentos que Solo recebeu de comerciantes de escravos especializados em succubus. Estas que foram vendidas para prostíbulos da fronteira. Registros que se mantêm constantes até não muito tempo atrás - ele ergueu o sobrolho ante a garota que parecia tentar formular uma defesa - Você já sabia disso?
- Não! - ela disse rapidamente - É que… Bem… Isso realmente parece algo que ele faria, mas… Q-quer dizer…
Erin deu uma gargalhada divertida. Balançou a cabeça enquanto reorganizava as folhas de sua mesa.
- Vocês tem uma amizade curiosa, para dizer o mínimo - disse ele, entregando os papéis a Nathan para que os pusesse em outra mesa. Depois ele uniu as mãos e olhou para Erika, pensativo - Escute, minha jovem. Eu quero ajudar seu amigo. Fiona não acreditou em nada de seu relatório, mas eu sim. Há alguns dias, um boato sobre um demônio em pele humana começou a se espalhar por Tordek. Esse demônio, por acaso, usou o nome de Solomon Seward.
Erika arregalou os olhos ouvindo aquilo, sentindo-se ansiosa.
- A história perdeu um pouco de força por causa do que aconteceu com você - Erin lhe deu um olhar significativo - Provavelmente porque o governador Patrick preferiu um boato que não envolvesse a derrota de membros da milícia. Acontece... que o demônio em pele humana também tinha um amuleto no pescoço, o que bate com a sua descrição.
- Vocês o encontraram? - ela perguntou, esperançosa.
- Não. Mas a milícia não está nem um pouco contente e estão se esforçando em manter isso em segredo. Ouvi Patrick dizer que vai colocar Midori atrás de Solo se ele for comprovado culpado.
- Verdan Midori? - Erika fez uma careta ante o nome do evocador que talvez fosse o mais habilidoso de toda Statera - E o que John fez, exatamente?
- Pelo que eu li no relatório da milícia - Erin deu de ombros - Parece que ele manteve uma família de agricultores em cativeiro e fugiu depois de confrontar dois milicianos, deixando-os feridos. Eu ainda quero obter mais detalhes dessa história, mas tenha certeza de que Solo será preso no instante em que pisar em Tordek.
Erika ficou um tempo calada, olhando o tampo da mesa.
- O que eu posso fazer pra ajudar John? - ela quis saber.
- Entre todas as pessoas, você não só está mais interada com os acontecimentos, como é a que mais conhece Solo - Erin respondeu, com um sorriso simpático - Por isso, quero que você entre para o nosso departamento. Que faça parte das OD.


***


A prisão da sede da Ordem fora construída pouco abaixo da terra, de modo que as pequenas janelas gradeadas das celas da direita ficavam na altura da canela de um andarilho no lado de fora, mas a cerca de 3 metros de altura para quem ali fosse mantido. Eddy estava na cela número 1 havia dois dias e ninguém além de Marco, o garoto que lhe trazia livros, tornou a lhe visitar. Nem mesmo Erika, que pareceu ter sua ácida desconfiança diminuída ao coletar o testemunho de Eddy para seu relatório.
O piromante estava escorado na parede, de pé, aproveitando a luz da janela por onde só podia enxergar a copa de uma árvore e o céu azul. Lia um dos três livros que tinha a disposição.
O primeiro livro era uma coletânea de histórias dos deuses. Outro era algo como uma biografia de Galiar. Mas o que mais chamou a atenção dele foi o que contava sobre a história de Krasnyy, mais precisamente o período da queda do primeiro Rei Dragão. Eddy e a maioria dos krasnianos conheciam bem a história, mas haviam pequenos detalhes que variavam dependendo de quem a estivesse contando. O consenso era de um sábio rei que uniu as tribos de Krasnyy em seu governo de quase 500 anos. Esse era o Rei Dragão, que, por acaso, era literalmente um dragão vermelho chamado Uzhasnyy. Dessa, vinha a principal diferença do que sua mãe lhe contava. Em Krasnyy, o Rei Dragão era um ser adorado por seus feitos, abençoado por Derea e destinado a governar os Filhos do Fogo. Aquele livro tratava o Rei Dragão como mais um demônio sob a corte da deusa do fogo, além de colocar o império de Bahamn libertadores do povo da opressão. O fato era que o Rei Dragão propôs decidir o destino de Krasnyy por meio de um duelo, em que um campeão eleito por Bahamn o enfrentaria. Seu desafiante não foi ninguém menos que o próprio Galiar, o que corroborava com a ideia de um demônio tirano.
Imperiais contariam do triunfo de Bahamn, enquanto krasnianos sabiam que o Rei Dragão não planejava vencer o duelo, se sacrificando para que seu povo não sangrasse em uma guerra contra a potência do leste. Aquele livro não contava que Galiar havia cessado suas aventuras depois de matar o Rei Dragão, como era contado na biografia e em algumas histórias, e Eddy irritou-se, sem saber qual dos historiadores estava errado. Fechou o livro num suspiro e jogou o objeto em cima da cama, para junto dos outros.
Passou alguns momentos observando as folhas da árvore no lado de fora balançarem com o vento, até ouvir a porta de ferro antes da escada ser aberta. Ele esperou e ouviu passos leves descerem os degraus de forma apressada. Uma garotinha de não mais que 10 anos correu pelo corredor, parando sobre um dos pés ao frear na frente da cela de Eddy. Era uma Filha da Terra de pele escura e cabelos pretos crespos amarrados para trás em um coque armado. Usava um vestido simples verde claro e calções brancos até a canela. Ela endireitou-se, juntando os pés e de mãos nas costas, encarando Eddy com bonitos olhos cor violeta. Olhos estes que indicavam sua origem como a de uma família baixa da nobreza de Bahamn, provavelmente da fronteira com Tordek. Ela apertou os olhos para o piromante que se limitou a sorrir, ainda escorado na parede do fundo da cela de braços cruzados.
- Você é do mal? - a garotinha quis saber, tinha um dente faltando.
- Acho que sim - ele deu de ombros - Já que fui preso.
Ela riu, dando um passo à frente e pressionando o rosto entre as grades, apertando as bochechas.
- E não quer sair? - ela continuou, curiosa.
- Não - ele riu - É bastante confortável. Adoraria morar aqui.
- Você não acha isso - ela afirmou, divertida.
Um homem desceu as escadas e se pôs na frente da cela oposta, um pouco atrás da garota, olhando Eddy com o rosto impassível e sem dizer palavra. Tinha cabelos pretos curtos e um broche com as asas de Tesluh. O piromante ergueu um sobrolho, nervoso, sem saber o que aquilo significava. Alheia a isso, a garotinha espiou os livros em cima da cama da cela.
- Você é de Krasnyy? - ela perguntou.
- Sim - ele respondeu, com a garganta um pouco seca.
- É um lugar bonito?
- Ah, sim - a pergunta o pegou um pouco de surpresa - E bastante frio.
- Você gosta de lá? - ela sorriu - Não quer voltar?
- Eu… vivo em Tordek há anos. Não me importo mais com isso.
- Hm - ela se afastou das grades dando dois passos para trás e pondo as mãos na cintura, parecendo um pouco decepcionada - Por que veio pra cá?
- A cela? - Eddy sorriu quando ela negou com a cabeça - Tordek… Eu morei um tempo com minha tia em Lianne. Ela me mandou para Tordek um ano antes da guerra, acho que eu tinha 14.
- Sozinho? - ela se impressionou - E o que você veio fazer?
- Eu vivia de favor trabalhando em um restaurante no distrito oeste - ele coçou a nuca, lembrando - Quando o lugar foi fechado o dono me deu a pedra de Aliir que eu usava na cozinha. Eu não tinha dinheiro pra pagar a entrada na Guilda e a milícia não me quis, então eu virei mercenário.
- Por que não voltou pra sua tia? - ela perguntou em tom cauteloso.
- Ela já tinha parado de responder minhas cartas quando eu ainda estava no restaurante - ele falou, distraído - Provavelmente foi morta… Ah - ele olhou para a garota e para o homem atrás, envergonhado - Desculpe, não devia ter dito isso.
- Tudo bem - ela assentiu para ele, falando em tom reconfortante - Eu entendo seu sentimento. Também perdi pessoas importantes pra mim.
Eddy deu um sorriso amarelo, o coração apertando entre raiva e compaixão por aquela pequena filha do império. Não podia culpá-la pelo sangue derramado em Krasnyy e por isso reprimiu a primeira parte. Ela pareceu perceber e fez uma expressão tristonha, como se não conseguisse pensar em algo que pudesse aliviar a o clima que se formou entre eles. Ele escorou-se na parede próximo às grades.
- E o que é tudo isso? - ele quis saber, seu tom saindo mais rude do que tinha planejado, então ele voltou-se para o homem que nada havia dito até agora.
O homem trocou olhares com a garota e deu um passo à frente, se pondo ao lado dela.
- Eu me chamo Nathan, secretário chefe das Operações Discretas - ele indicou a garota - Esta é a senhorita Ameenah, a oráculo a serviço de Mestre Erin.
- Amy! - ela avisou, com um sorriso animado - Me chame de Amy!
- Oráculo… - Eddy repetiu, encarando Amy com assombro - É-é sério? Uma escolhida de Aliir?
- Senhorita Amy havia solicitado conversar com você sem interferência - Nathan continuou - por isso peço perdão por não ter me apresentado antes.
- Ok - Eddy se forçou a desviar o olhar da garota - Isso foi… um interrogatório?
- Como oráculo - ele continuou - ela pode saber se alguém está mentindo.
- Entre outras coisas! - Amy adiantou.
- O senhor prestou um grande serviço para a Ordem ao proteger a senhorita Erika - Nathan explicou - e não pretendíamos mantê-lo sob custódia por muito mais tempo, entretanto…
- Entretanto? - Eddy incentivou, ansioso por causa da pausa.
- Seu amigo, Charles - Amy se adiantou - Eu falei com ele hoje, mas ele não lembra de ter planejado qualquer coisa contra Erika. Na verdade, ele não lembra de você ou da luta que vocês tiveram.
- Como… - Eddy se aproximou das grades, segurando em uma delas - Como assim? Espere… Foi por causa do que eu fiz? D-da explosão? - Amy deu de ombros, com cara de desculpas, e Eddy olhou para Nathan - Não, olha. Ele ainda estava são e tentou me atacar depois de perder a mão… Erika pode confirmar isso.
- Não se preocupe - Nathan disse em seu tom firme - Isso consta no relatório que ela apresentou. No entanto, você se tornou a única fonte de informações ligada a essa investigação.
- E vocês querem me manter preso? - Eddy segurava as grades com as duas mãos - Eu já contei tudo o que sei - ele havia dito tudo para Erika - Nós roubávamos tesouros de tumbas e eles mandavam pra equipe que vendia. Eu deveria esperar na pousada Criada Esperta depois de descobrir o que Erika tinha visto. Eu era só uma lamparina que sabe cozinhar. É pra isso que eu sempre sou contratado.
- Ele diz a verdade - Amy confirmou, com um meio sorriso solidário.
- Entendo - Nathan declarou - E quanto ao homem chamado Lore? Segundo seu testemunho, silenciar Erika fazia parte de algum tipo de teste.
- Charles… - Eddy apertou os dentes - Ele vivia dizendo que estava me treinando para fazer parte do grupo. Lore fazia um monte desafios pra mostrar… que eu não serviria pra eles. Tentando me fazer ir embora.
- Que tipo de desafios?
- Ele me fazia seguir pessoas sem ser notado. Descobrir quanto uma garçonete ganhava e onde escondia o dinheiro - ele engoliu em seco, dando uma olhada para Amy - Às vezes pedia coisas terríveis, do tipo descobrir o mínimo de calor necessário pra... matar um animal. Ou o quanto eu podia os queimar antes que eles morressem…
Ele parou de falar ante a expressão de assombro de Amy. Eddy ainda lembrava dos gritos que os coelhos que Lore lhe entregou para aquele teste fizeram. Eddy passara a ignorar os desafios daquele tipo e, enquanto Lore parecia satisfeito por provar seu ponto, Charles ficava mais e mais irritado com o piromante.
- Eu não fiz todos - Eddy se defendeu - Lore gostava de me atazanar. Eu não fazia questão de participar dos lucros enquanto estivesse tendo o salário pago.
- Não está escondendo mais nada? - o homem perguntou.
- Não - ele respondeu, depois de tentar pensar em algo que pudesse ter esquecido.
Nathan olhou para Amy, que assentiu com a cabeça. A garota sorriu para Eddy.
- Mesmo assim - Nathan continuou - Mestre Erin decidiu que o melhor a fazer é mantê-lo por perto. De modo que você tem duas opções: continuar onde está ou…
Eddy afinou a boca, esperando.


***


John havia percorrido metade do caminho até Tordek. No dia anterior, tinha negociado roupas novas e provisões com uma caravana que cruzou seu caminho, trocando uma de suas setas de aço austeriano. Sua espada estava enviesada em suas costas, presa pela bainha entre os cintos de couro que apertavam-lhe o abdômen. Usava agora uma capa marrom com gola alta e mangas, que ia até as canelas, por sobre a camisa de algodão branco com capuz e calças de malha do mesmo material, só que tingidas de azul claro. Ainda usava suas botas de couro preto com detalhes em vermelho, pois, apesar de gastas e puídas, possuíam signos entalhados por dentro que mantinham seu interior livre de umidade. Em um dos bolsos interiores da capa, haviam 10 moedas de prata, que equivaliam a 10 honórios cada. Era bastante dinheiro para um andarilho maltrapilho, mas também uma lembrança do comerciante que pagou um preço bem abaixo do valor que a seta de John valeria no mercado. Escondidos sob a capa estava uma bolsa com alguns mantimentos e o amuleto que ele usava no pescoço.
Já havia caído a noite quando o renegado parou em um entroncamento. A estrada de pedra continuava sempre reta, mas uma estrada de terra batida levava a uma hospedaria cuja placa que ele lia dizia se chamar Criada Esperta. Não havia carroças estacionadas ali, pois a maioria dos comerciantes estava evitando os postos de pedágio do império em Krasnyy, preferindo negociar seus produtos diretamente em Bahamn, no leste.
Ele caminhou cerca de 20 metros e entrou na hospedaria, sendo recebido por olhares carrancudos e resmungos dos presentes no bar. Tirou o capuz e olhou em volta. A maior parte dos que ali estavam pareciam mercenários baratos, do tipo que é contratado quando não se precisa de um evocador. John percebeu olhares para sua mão, que perderam o interesse já que ele não carregava uma pedra de Aliir. Em torno de dez pessoas conversavam desanimadamente entre si e bebiam espalhadas pelo grande salão com dezenas de mesas vazias. Uma mulher corpulenta de rosto largo e simpático o cumprimentou detrás do balcão, quando ele se aproximou. Ele pediu por uma comida quente, uma taça de vinho e um quarto. Depois de pagar 4 honórios ele sentou-se na extremidade esquerda do balcão, no lado oposto da escada que levava para os quartos. Lá ele escorou a cabeça com uma das mãos e esperou sua comida, observando o resto do bar.
Um movimento chamou sua atenção. No outro lado do salão, em uma mesa do canto, uma bela jovem encarava John de olhos bem apertados e boca entreaberta, como que tentando discernir o que via. Ela olhava para o peito de John e sorriu nervosamente quando seus olhares se cruzaram. Parecia ter pouco mais de 15 anos, de cabelo ruivo preso em um rabo de cavalo e olhos azuis. Vestia uma camiseta justa de malha grossa bege sem mangas por cima de uma camisa de manga comprida preta e branca. Um cachecol preto cobria seus ombros e peito.
Ela estava olhando para mim, disse Stuff e John escondeu dentro da camisa o amuleto que havia escapado pela capa quando ele se inclinou sobre o balcão.
- Ei, rapaz - ele ouviu alguém chamar ao seu lado, a última palavra foi dita como um “rapaix”.
Um homem havia se aproximado e se sentado ao lado de John. Carregava uma maça de ponta retangular e usava um conjunto de armadura de couro simples, fedendo a suor, cavalo e álcool. Seu rosto tinha marcas do sol que o faziam parecer mais velho. Pelo sotaque, devia ser um estrangeiro de além-mar vindo de algum dos reinos das Terras Afastadas.
- Está indo pra Venêria? - ele perguntou de forma amigável - Eu e meu parceiro te acompanhamos por meia de prata o dia, pra qualquer lugar.
- Não, obrigado - disse John - Estou indo pra Tordek. Não preciso de proteção.
O homem ainda insistiu um pouco mais, mas John conseguiu se livrar dele, que voltou para sua mesa dando de ombros para o seu parceiro, que o recebeu com risos. Ainda eram boa gente, ele pensava isso quando outra pessoa sentou ao seu lado. John franziu o cenho para a garota ruiva que havia se acomodado ali. Sentava no banco do balcão, à direita do caçador, e sorriu para ele, nervosa.
- Pois não? - John a indagou.
- A-ah, sim - ela fez, erguendo as mãos como que para se proteger - E-eu sou a Sara! O senhor Mark está me treinando! - ela se apresentou - Pensávamos que você só iria voltar daqui a três dias! E-esse é o que vocês recuperaram?
Ela tentava espiar dentro da capa de John e ele a encarou, com uma das sobrancelhas erguida. Sara ergueu os olhos para o rosto de John, entreabrindo a boca e analisando seus traços, do cabelo a barba por fazer.
- Oh… - ela parecia surpresa - Achei que você seria mais velho. Precisou fazer a barba? Mark me disse que ela era maior - ela olhou em volta - Ele também disse que podia ter um Filho do Fogo te acompanhando… Ele ficou pra trás?
- Eu acho que está me confundindo, moça - John sorriu, em tom de desculpas.
- V-v… - ela arregalou os olhos, perplexa - Você não é o senhor Charles?
John fez que não, com um sorriso torto. Ela pediu muitas desculpas e correu até o lugar onde estava. John sabia que ela estava o encarando, mas ela desviava o olhar sempre que ele a olhava, então passou a ignorar. Ele tinha sensação de ter perdido algo naquela conversa, mas quando a dona da hospedaria lhe trouxe sua comida ele deixou isso de lado. Era um carreteiro com carne seca, que tinha muito mais arroz do que carne, diga-se de passagem. Apesar de magro, estava delicioso. Em contrapartida, o vinho servido em um copo de madeira estava bastante aguado. Depois de comer, John decidiu subir para seu quarto, dando uma última olhada no salão. Não viu Sara em parte alguma. A mulher do balcão fez sinal para que um rapazinho que limpava as mesas mostrasse a ele o caminho, depois de lhe entregar uma chave. Subiram para um corredor com 7 portas em cada lado e uma janela no fim. Foi então que John se sentiu um pouco desnorteado.
Alguma coisa está acontecendo, Stuff avisou quando o menino se segurou em uma das paredes. John não pode acreditar em seus olhos, mas a confusão estampada no rosto do garoto confirmou que ele também via.
Era como se todo o corredor convergisse em um único ponto. Esse ponto subiu e ficou mais e mais distante. Ouviram-se inúmeros rangidos da madeira, como se toda a hospedaria estivesse se esticando. Então o ponto retornou à posição original, com velocidade estonteante e todo o prédio se estilhaçou como que atingido pelo projétil de uma imensa arma de cerco. Por um momento John não soube dizer onde ficava o céu e o chão, sendo atirado para trás em meio a escombros voadores. Ele bateu a cabeça incontáveis vezes e sentiu seu corpo ser perfurado e ralado a medida que colidia e era soterrado. O som de coisas se chocando contra o chão continuou por algum tempo. Merda, merda, merda, Stuff repetia em sua mente, em meio a dor agonizante. Sangue pingava em seu rosto, vindo de algum lugar acima dele, podia sentir seu braço direito dobrado para o lado errado e sua perna havia sido esmagada. Então os sons cessaram e o silêncio reinou.


***


Sara observou a presença de Mark trabalhar, sem nunca se cansar de olhar para aquele ser translúcido de forma humanoide. Ela não entendia bem como funcionava aquela conjuração de presença, mas sabia que era algo como as evocações de batedores dos luminomantes e as conjurações de armas dos viteomantes. Mark, no caso, era um evocador de luz e vida e, portanto, usar aquele poder parecia natural para ele. Ela sempre ficava curiosa com a comunicação da figura de rosto plano com círculos no lugar dos olhos e corpo de com ligações como as de um boneco de desenho. Um ser azulado com uma aura de brilho tênue com dois metros de altura, semelhante a um golem de membros compridos. A presença - palavra pela qual Mark se referia àquele ser conjurado - estava vasculhando entre os destroços da hospedaria e, de tempos em tempos, arrastava um corpo para fora. Ela encarava Mark por alguns instantes, silenciosa, e Mark acenava e respondia como se estivessem tendo um diálogo. A presença de Mark trouxe até eles um medalhão de ouro, do tipo que guardava coisas dentro, entre seus três dedos compridos da mão. Mark recolheu o objeto e examinou rapidamente, guardando no bolso em seguida e fazendo que não com a cabeça. A presença, então, voltou para sua busca.
Mark era um homem de porte atlético com um belo rosto delineado e pele bronzeada. Usava seu cabelo loiro curto num topete perfeitamente arrumado e nenhuma barba. Seus olhos eram verde escuro, evidenciando sua origem nobre de Herdeiro da Luz. Sua expressão geralmente era simpática, mas, naquela noite, iluminado por um batedor em formato de orbe que pairava perto deles, ele estava sério e atento aos movimentos de sua presença. Não era enorme, seu corpo tinham músculos nos lugares certos e aparentava ser bastante ágil. Sua roupa consistia de uma proteção para o peito de couro fervido por cima de um colete preto e uma camiseta cinza. Tinha proteções do mesmo material na parte frontal das coxas e canelas, amarradas por sobre uma calça de malha também cinza e suas botas de couro eram pretas e com cadarços. Não carregava armas, mas pochetes pequenos objetos variados, desde moedas a medalhões.
Estavam na lateral da hospedaria, cuja parede traseira havia implodido na direção da entrada e o teto colapsado e se partido. A hospedaria era grande, com pouco menos de 50 metros da entrada até a porta da cozinha nos fundos. Os quartos ficavam atrás do bar, acima do lugar onde os donos moravam, este que ficava acima do porão. A metade traseira do telhado havia sido pega no impacto e ruiu como o interior. O restante, juntamente com a parede da entrada, caira por sobre os destroços. Esses pedaços maiores eles haviam jogado para longe, antes de começarem as buscas, colocando-os na estrada de terra. Isso era para dificultar o acesso ao local, enquanto Mark havia posicionado batedores luminosos por sobre a floresta para observar quem se aproximasse.
- Eles… - Sara resolveu puxar assunto - não vão ficar zangados com a gente?
- Provavelmente sim - Mark lhe deu um meio sorriso - Mas vou por toda a culpa em você, que tal?
- Quê? - ela fez, apavorada - M-mas foi você que…!
- Sim - ele riu - Eu sei. Não sabíamos o que ele podia fazer, então não dava pra desperdiçar a oportunidade. Lore sempre diz que é perigoso agir sem conhecer o inimigo.
- Isso não é exatamente o contrário do que fizemos? - ela se preocupou.
- Ah - ele deu de ombros - Eu odeio esperar. Agora o que está feito está feito.
- Ok - ela disse, um pouco menos nervosa - Ah, a senhora Rose fazia o melhor arroz que eu já provei… - ela comentou, tristonha.
- Hm - ele concordou, com um sorriso carinhoso - Ela sempre me servia uma colherada extra. O senhor Omar vivia me olhando feio.
Eles riram, saudosistas. Mark olhou para o céu estrelado. Estavam no meio do outono. As estrelas estavam fracas e logo começaria a esfriar drasticamente.
- Já viu o festival de Austera em Venêria? - ele quis saber.
- Não - Sara o olhou com expectativa.
- Ah, é lindo - ele sorriu - O pessoal da Ordem enche a cidade de batedores e parece que as estrelas estão voando pelas ruas. Gostaria de ver?
- É claro! - ela disse com animação - Nós podemos?
- Sim - ele riu - Vou falar com a Bella. Não devemos ter muito mais pra fazer nos próximos meses.
Sara alargou um sorriso cheio de dentes, olhando para o céu. Uma vez por ano, no fim do inverno, as pessoas festejavam durante a Noite. Todos se reuniam para o festival de Austera e comemoravam o fim de um ciclo e o renascimento do sol. Os deuses se encontravam em Venêria e Tesluh descia de Austera para trazer nova luz ao mundo desde tempos imemoriáveis. A garota tentou imaginar o mar de luzes que os luminomantes proporcionaríam, mas sua fantasia foi cortada.
Em meio ao caos de escombros, ouviu-se um movimento e alguns pedaços rolaram por sobre outros. A presença de Mark e o próprio Mark observaram o local que havia se mexido em silêncio. Sara engoliu em seco. Todos que haviam encontrado até agora estavam mortos e o ilusiomante não estava entre eles. O local onde ele devia estar havia sido o mais afetado pelo impacto e as chances de sobrevivência dele eram ínfimas. Contrariando isso, algo soterrado estava tentando se libertar.

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