No extremo sul do continente de Statera erguiam-se enormes rochas disformes por quilômetros até o mar, formando ilhas com seus picos. Essas cadeias de canyons foram nomeadas de Vale Rochoso. A região foi formada quando Réphina terraplanou um extenso território de cerca de 600 quilômetros entre as planícies do império de Bahamn ao leste, a região montanhosa de Krasnyy ao oeste e as florestas do reino de Tordek ao norte. Tal feito datava milênios e o território circundante ao castelo do Rochedo da deusa da terra era um amontoado de construções de pedra erguidas umas sobre as outras por geomantes testando suas habilidades. Tal lugar passou a ser conhecido como Reinos Fantasmas e era um infindável labirinto de várias camadas habitado por seres monstruosos e demônios nas regiões do sul, próximas ao Vale Rochoso.
A deusa da terra vivia em constante trânsito entre seu castelo e a capital das Nove Cidades, de modo que era mais comum vê-la na cidade de Tordek do que nos Reinos Fantasmas. Encontrar representantes dos Moldadores tão para o sul também era bastante raro, contudo as forças em conflito, império ou rebeldes, não arriscavam entrar nos domínios de Réphina e atrair a ira da pequena deusa. Ela que constantemente mostrava sua insatisfação com aquela guerra pelo controle do terreno mais rico em pedras de Aliir de Statera.
Outrora, como forma de nivelar o conflito, Réphina havia se posto ao lado do império para reaver o território perdido após a traição do lorde mais influente da região, conde Vladimir Nepravil, mais tarde apelidado como Rei Dragão. Isso porque Derea havia reconhecido a independência do Reino de Krasnyy e cedido alguns de seus servos à causa do novo governo. Réphina sabia que sua filha estava ironicamente “pondo lenha na fogueira” ao incentivar aquela guerra e se sentiu responsável. Entretanto ela nunca teve muita paciência com os mesquinhos atritos humanos e, quando o império começou a se aproveitar do nome da deusa da terra, ela perdeu o interesse por aquela questão, decretando a proibição de seu território a ambos os lados. Não havia pessoa nascida em Statera que não conhecesse as histórias da prisão do castelo do Rochedo, para onde iam os que ousavam desrespeitar a pequena deusa, assim como sobre seus prisioneiros milenares, não menos que alguns dos mais poderosos seres que carregavam o título de “deuses caídos”.
Assim, a Quarta Cavalaria do império estava estacionada em uma cidade chamada Lianne, em Krasnyy, depois de alguns dias de viagem através do Vale Rochoso. Um batalhão com 500 cavaleiros pesados cuja missão era garantir que cidades como aquela apoiariam o lado certo no quesito de envio de recursos. O império possuía o exército mais poderoso de Statera, conhecido e respeitado até mesmo nas Nove Cidades. Isso se devia ao fato de as deusas Ágata e Veh terem acordos centenários com o império para treinar seus cavaleiros. Com isso, as três primeiras Cavalarias eram a elite inteiramente formadas por evocadores fiéis ao imperador, enquanto as outras quatro possuíam apenas os capitães e líderes de pelotão como usuários de magia.
Acompanhando mais de um terço do exército de Bahamn, a Primeira Cavalaria estava além mar, expandindo o império aos Reinos Afastados. A Segunda Cavalaria fora chamada de volta para lidar diretamente com os rebeldes apoiando o exército enviado a Krasnyy, uma vez que a Terceira Cavalaria estava mais para caçadores de monstros do que propriamentes combatentes.
Hounson Jahari era o orgulhoso capitão no comando da Quarta Cavalaria. Mesmo que a grande maioria de seus homens não tivessem conseguido receber a bênção divina, eles ainda eram imponentes cavaleiros treinados pelos mestres entre os Seguidores de Veh. Jahari gostaria de estar na linha de frente, enfrentando os inimigos do império assim como as primeiras Cavalarias, mas seu imperador decidiu mandar um de seus filhos para aprender algumas coisas sobre o povo de Krasnyy. Assim que a cabeça do Rei Dragão estivesse em um jarro para ser apresentada ao imperador e todos os nobres traidores fossem executados, o segundo príncipe de Bahamn receberia o título de lorde da província de Krasnyy. Enquanto o restante do exército evidenciava o poder esmagador do império, a ideia era apresentar o príncipe Tahir Adenium II como um governante justo e presente, portanto Jahari e seu batalhão tinham de exaltar Sua Alteza como tal, através do rastro de violência traçado pelo exército imperial na terra de ascendência dos Filhos do Fogo.
Lianne era uma cidade de pouco mais de 6000 habitantes, situada em uma colina próxima a curva de um rio. Mais da metade das casas estavam abandonadas e as pessoas que ficaram baixavam a cabeça ante os soldados imperiais sem nunca encará-los, levando suas vidas em silêncio quase mórbido. Mesmo assim, Jahari montou o acampamento do lado de fora da cidade, próximo ao rio, para evitar parecerem muito invasivos. O príncipe Tahir e dois pelotões foram colocados no prédio da prefeitura, de modo que ele poderia facilmente descer e se juntar aos soldados do acampamento ou se retirar para o Vale caso algo acontecesse.
A Segunda Cavalaria, no comando de um número de tropas na casa das dezenas de milhares, empurraram a linha de frente para mais de 100 quilômetros a dentro de Krasnyy, enquanto a Terceira Cavalaria limpava as inúmeras cavernas no Vale Rochoso, não muito longe dali. Mesmo em território inimigo Jahari se sentia bastante tranquilo e seguro, como uma criança brincando rodeada pelos pais. Mas o príncipe Tahir não se sentia assim. Tendo passado oito anos em Venêria sob treinamento dos Seguidores, quatro a mais do que o habitual, Tahir tentou se afastar ao máximo do conflito temendo ser assassinado no caminho de volta para Bahamn. Foi só quando o imperador enviou a princesa Chaniya para encorajar o irmão que Tahir retornou para casa.
Jahari julgara o príncipe erroneamente, ao pensar nele como um covarde. Depois de conhecê-lo pessoalmente, entendeu que a relutância em sair de Venêria nada tinha a ver com o medo da morte. Ele simplesmente achava que tinha mais a aprender nas Nove Cidades do que em Bahamn. Como príncipe de um país aliado, muitas portas foram abertas e o estudo profundo das magias da vida e da água acabaram por resultar num guerreiro que rivalizava em força até mesmo com o experiente capitão Jahari, além do melhor curandeiro disponível na Quarta Cavalaria. Isso tudo se unia para o fato de que o segundo príncipe estava deveras inquieto naquela pacata cidade isolada.
- Ele está se saindo muito bem - disse Jahari para o soldado ao seu lado, enquanto esperavam na frente da prefeitura.
- Sim, senhor - respondeu o homem - Sua Alteza é bastante prestativo com os cidadãos.
O príncipe Tahir e o conde Nassor lideravam a comitiva de cavaleiros voltando de mais um passeio do príncipe pela cidade, quando começava a escurecer. As pessoas ainda davam olhadas temerosas aos imponentes cavaleiros de armadura completa, mas algumas acenavam para o príncipe, que respondia cordialmente a todos os cumprimentos. Muitas eram pessoas cujos parentes e amigos haviam sido curadas pelos cuidados diretos dele.
A frente da prefeitura era um jardim modesto que dava ao prédio de dois andares, sendo o primeiro composto por um salão de recepção com sofás de couro surrados e escadas para as salas de reunião do segundo andar. Um quadro de avisos, onde haveriam recompensas para caçadas de monstros e outros trabalhos, permanecia abandonado desde que o prefeito havia sido enforcado. O posto estava vago, já que nenhum habitante da cidade queria arriscar seu pescoço ao aceitar aquela responsabilidade. Tahir sentou com asperidade no sofá mais próximo e esfregou os olhos, cansado. O conde Nassor sentou no sofá de frente a ele, enquanto Jahari permaneceu de pé.
- Devo um agradecimento à Segunda Cavalaria - disse ele, para Jahari e o conde - É fácil parecer legal quando eles agem feito animais - o príncipe fez uma careta de irritação - Não. Acho que isso foi ofensivo. Talvez “monstros” seja mais apropriado.
O príncipe levantou-se e caminhou até uma discreta estante com algumas poucas garrafas da bebida forte de Krasnyy. Jahari ergueu o sobrolho para o conde Nassor, que riu.
- Visitamos o casarão queimado - o conde esclareceu.
- Ah - Jahari fez - Deve ter sido duro.
O requintado casarão no lado oeste da cidade havia sido cheio com todas as pessoas que o comandante da Segunda Cavalaria julgou serem traidores. Os nobres líderes das famílias encararam as chamas com seus olhos vazios, pendurados nas árvores com cordas em seus pescoços e flechas cravadas em seus corpos. Ninguém foi poupado, mulheres, crianças e servos agora jaziam como restos carbonizados. O conde acompanhou o indeciso príncipe e eles discutiram rapidamente sobre as diferentes qualidades dos produtos na estante.
- Suponho que eu deva me habituar... - Tahir torceu o nariz ao voltar ao sofá e provar sua bebida transparente de cheiro forte - aos intrigantes produtos que essa terra tem a me oferecer.
- É só uma questão de tempo, Vossa Alteza - o conde não especificou se se referia ao fim da revolta ou ao gosto da bebida.
- Se fosse tão simples - o príncipe ficou reflexivo - Ficaremos em Lianne por mais uma semana, não é?
- Sim, Vossa Alteza - o conde confirmou - Devemos completar o cronograma em no máximo seis meses. Até lá o falso rei já deve ter sido deposto.
- Hum - riu Tahir - Logo conde Vladimir será condenado, logo o falso rei será derrotado, logo o Rei Dragão será decapitado... No entanto a campanha já dura 10 anos.
- Krasnyy é muito grande, Vossa Alteza - o conde sorriu - Os rebeldes se escondem como baratas e nunca batem de frente com nossos cavaleiros - balançou a cabeça, descontente - O povo idolatra conde Vladimir como uma espécie de salvador e cada cabelo ruivo é um traidor em potencial.
Jahari observou o conde Nassor dizer essas palavras como que esperando alguma reação a mais, já que o próprio conde era Filho do Fogo e, portanto, ruivo. Tahir assentiu com a cabeça, olhando pela janela de cenho franzido.
- Uma festa? - perguntou ele.
O capitão e o conde olharam para a mesma direção. Fora dos muros da cidade, em meio a noite que caía, coincidentemente acima do acampamento da Quarta Cavalaria, viam-se colunas de fumaça iluminadas em laranja a partir de baixo, além do som de uma comoção crescente e trombetas de alerta. O capitão saltou num espasmo como se estivesse engatilhado e correu para fora da prefeitura. Um cavaleiro veio galopando da entrada da cidade.
- Capitão! - gritou ele - Ataque inimigo! Piromantes!
Jahari chamou os soldados para que trouxessem seu cavalo.
- Conde Nassor, conto com o senhor para proteger Sua Alteza - disse Jahari para os dois que o haviam seguido, enquanto montava no animal.
Quando o conde acenou em confirmação o capitão disparou para o acampamento. O cavaleiro que dera o alarme seguiu seu capitão informando o ocorrido. Havia piromantes na colina do outro lado do rio evocando lanças de fogo contra o acampamento, distantes o bastante para que não houvesse nenhuma precisão e dificultando a contagem do inimigo. As estimativas eram de 20.
Ultrapassando o portão da cidade Jahari pode ver o cenário do alto. Dezenas de vozes gritando ordens, barulho de metal sendo vestido e cavalos relinchando. Várias barracas pegavam fogo, mas não parecia haver baixas imperiais. Apesar disso, as lanças continuavam a riscar o céu noturno e a causar desordem na metade do acampamento mais próxima ao rio. Os aquamantes passaram a erguer barreiras de gelo entre as barracas de suprimento, mas elas eram esparsas demais para que protegessem toda a área. Outros disparavam virotes de gelo para tentar interceptar as lanças no ar.
- Ordens, senhor? - pediu o tenente Daren, líder do segundo pelotão, quando o capitão chegou ao acampamento - A mira deles está ficando melhor.
- Vamos organizar uma tropa de ataque. Os pelotões do dois ao seis devem entrar em formação de batalha na margem do rio. Mande o tenente Passus checar a rota de fuga para o príncipe. O restante deve proteger o acampamento e a cidade.
- Sim, senhor! - Daren esporou seu cavalo e saiu distribuindo ordens.
Jahari murmurou uma conexão, bateu no peito e conjurou uma alabarda de dois metros a partir de um círculo ornamentado brilhante que surgiu em seu peitoral. Ele cavalgou em direção ao rio, girando a arma para acertar algumas lanças de fogo antes que tocassem seus alvos. Contornou uma barreira de gelo e chegou à margem do rio, tocando a ponta da alabarda na água. Evocou Parede de Névoa e um espesso nevoeiro se ergueu, descendo o rio entre os atacantes e o acampamento. As lanças batiam na parede branca flutuante e perdiam a força até tornarem-se fagulhas inofensivas. Os soldados próximos saudaram o capitão, levantando armas e capacetes, impressionados com a magia e Jahari suspirou. Conjurar paredes de gelo era mais efetivo em resistência, mas, uma vez que o rio estava logo ali, uma magia de simples manipulação de elemento acabaria por ser mais apropriada. A barreira seria inútil contra projéteis físicos, mas neutralizaria os ataques de fogo.
O capitão esperou com impaciência o grupo de ataque se reunir. Não eram raros os ataques a acampamentos por parte dos rebeldes e ele queria capturar alguns antes que eles se escondessem nas montanhas. Quanto antes pudesse mostrar aos cidadãos que o império estava disposto a ser civilizado até mesmo com os inimigos, mais efetivamente poderia executar sua missão com o príncipe.
***
Do outro lado do rio, no alto de uma encosta, um homem observava o movimento dos soldados do império. Esse homem tinha a aparência de um idoso ranzinza: magricela, alto, levemente curvado e de face enrugada. Apesar disso, sua barba era escura e sua pele de um vermelho forte. Seus olhos de conjuntiva negra e pupilas amarelas espiavam com indiferença, refletindo a luz das lanças de fogo disparadas algumas centenas de metros a sua direita. O infernal tinha chifres negros foscos, pequenos e bem lixados, e vestia um robe roxo elegante. Estava com as mãos nas costas e estralou um dedo, impaciente. Ao seu lado, um homem ruivo com roupas requintadas, segurava um livro aberto em mãos, parecendo muito animado. As letras eram signos como os das conexões escondidas nas luvas de evocação e brilhavam tenuamente em vermelho quando o homem passava o indicador sobre elas.
Atrás deles, além de vários evocadores, estava um pequeno altar de pedra com um objeto dourado piramidal com detalhes em baixo relevo. Dez pessoas circundavam o altar, todos piromantes, mas apenas 5 murmuravam uma frase complexa repetidamente em coro, com as mãos juntas voltadas para o objeto, sendo que a direita apontava dois dedos enquanto a esquerda estava por cima da outra aberta em forma de garra. Um dos que recitava a canção caiu para trás, tremendo e suando de modo febril.
- Trocar - o homem ao lado do infernal ancião falou.
Imediatamente, os cinco evocadores que apenas encaravam o objeto fizeram a mesma posição de mãos e continuaram o murmúrio. Os quatro restantes se retiraram do círculo e levaram o que havia caído para longe. Outros cinco evocadores ocuparam o lugar dos anteriores e passaram a observar o artefato. O homem sorriu quando o velho deu uma olhada no homem que estava sendo socorrido pelos companheiros.
- Tudo irá correr conforme sua instrução, mestre Iratusque. Nenhum deles morrerá - deu de ombros - E mesmo se acontecer, será dentro dos parâmetros aceitáveis.
- Me desagrada ver meus alunos servindo de cobaia, senhor Edik - Iratusque voltou a atenção ao acampamento imperial - Seria muito mais efetivo atacar o acampamento imediatamente.
- Lorde Vladimir precisa do príncipe vivo, de modo que não podemos arriscar.
- Que seja. Veja, estão se movendo.
Na margem oposta, por trás da cortina de fumaça branca que se erguia a partir do rio, duas centenas de cavaleiros tinham entrado em formação. O fogo reluzia em seus equipamentos e as lanças de fogo que ultrapassavam a barreira explodiam sem dano nos pesados escudos. Uma visão terrível que o povo de Krasnyy havia aprendido a temer. Edik sorriu com satisfação doentia, fazendo uma cara de escárnio.
- Sim - Edik fez sinal para os evocadores, virando uma página em seu livro - Preparem-se!
Os cinco evocadores que estavam quietos apontaram suas mãos direitas espalmadas para o objeto dourado, enquanto outros dez se puseram em posição para formar um círculo externo, uniram as mãos e passaram a entoar a canção de palavras estranhas.
***
Jahari não estava mais cuidando da barreira, que foi entregue aos tenentes que ficariam no acampamento. Estava na frente de seus soldados ao falar.
- Mercenários e arruaceiros - bradou o capitão Jahari - Esse é o exército que o Rei Dragão tem a nos oferecer! Finalmente mostraremos a força da Quarta Cavalaria!
Os cavaleiros soltaram urros.
- Mas não percam o foco! - ele continuou - Nosso bom príncipe precisa de prisioneiros para mostrar a compaixão do império. Mantenham isso em mente e certifiquem-se de não matarem os que se renderem ou tentarem fugir! - ele ergueu sua arma e tomou a frente da formação - Comigo!
Com gritos de concordância os cavaleiros fecharam as fileiras em forma de cunha e seguiram o capitão que avançava sobre o rio. Os cascos dos cavalos tocaram o fundo úmido do rio sem se molhar, pois o capitão afastou a água com sua manipulação de elemento. Nas laterais, os líderes de pelotão mantiveram a água longe para que os soldados passassem. As lanças de fogo focaram o grupamento assim que eles atravessaram a barreira de névoa, mas eram inutilizadas pela poderosa armadura imperial dos soldados.
Jahari sentiu-se confiante, ao explodir no ar uma lança de fogo com um balançar de sua alabarda mágica. Podia ver contra a noite os vultos dos piromantes na colina se desesperarem com o avanço dos cavaleiros, parando de lançar magias e abandonando suas posições. Mais alguns metros e teriam atravessado o rio.
Mas, de repente, a noite virou dia e a temperatura elevou-se drasticamente. Uma luz insuportável brilhou atrás do capitão e ele só teve tempo de virar a cabeça para espiar, quando uma onda de impacto o empurrou violentamente para frente com cavalo e tudo. Ele ouviu gritos e relinchos de desespero e sentiu como se suas costas pegassem fogo. Sua boca se encheu de água quando ele caiu de cara no rio. Seu cavalo esperneou e acabou o acertando no peito. Não fosse a armadura, provavelmente teria sofrido mais do que a perda do fôlego. A água começou a ferver e a puxá-lo mais para baixo e Jahari usou seu controle sobre ela para se afastar do calor. O capitão foi puxado para a margem do rio por uma espiral de água mais densa que girou a partir de sua mão direita. Cuspindo e tossindo ele se arrastou para a terra e virou-se para encarar o que acontecia.
Um ciclone de fogo se erguia mais de cem metros a partir de um círculo incandescente no lago, com pelo menos 30 metros de diâmetro. Jahari olhou em volta para perceber seus cavaleiros esparramados como lixo na volta da tempestade infernal que queimava até mesmo a superfície da água. Ele viu vultos de alguns de seus homens na nuvem de vapor que cobriu tudo se arrastarem para fora do rio, mas grande parte dos seus soldados haviam se tornado pedaços chamuscados. Apesar dessa terrível visão, o pior ainda estava por vir.
***
Do lado de fora da cidade de Lianne, próximo aos muros, o príncipe assistiu impotente de cima de seu cavalo a formação de ataque da Quarta Cavalaria ser engolida pelas chamas de um instante para o outro, como que consumidos pela ira de um deus.
- Que Aliir tenha misericórdia... - o conde Nassor gemeu - Que diabos de magia é essa?!
Ele não havia perguntado a ninguém específico, mas parecia desesperado pela resposta. Tahir não tinha ideia. Havia estudado o acervo de magias da deusa do fogo algumas vezes, apenas para saber o que esperar na remota possibilidade de enfrentar um piromante diretamente. Evocação, conjuração e manipulação. Lera sobre conjuração de chamas, ignição material e deslocamento de calor. Haviam até algumas magias de grande área usadas por demônios e mestres em piromancia, mas nada que pudesse chegar àquele nível de destruição. Se nem mesmo o conde, que era também piromante, conhecia algo como aquilo…
O príncipe encarava as chamas, sendo aos poucos tomado pelo medo, se perguntando se tinha esquecido algum livro, quando a base do ciclone explodiu e ele cessou o giro.
Como se o círculo incandescente no rio fosse uma fenda, uma criatura feita de chamas arrastou parte do corpo para fora, erguendo-se cerca de vinte metros com os compridos braços com quatro garras em cada. A criatura tinha uma cabeça na forma de um felino com orelhas pontudas e grandes olhos de fogo. As chamas em sua pele eram tão poderosas que o ar se contorcia e parecia enrugar. Correntes douradas prendiam-se ao redor do pescoço magro e dos pulsos perdendo-se para dentro do círculo, como que impedindo o ser de tirar o corpo além da cintura. O colosso olhou em volta enquanto nuvens de fumaça erguiam-se da água do rio ao tocarem as chamas de calor imensurável.
O príncipe lembrou dos soldados do acampamento ao mesmo tempo que a criatura os notou. Muitos fugiram quando a besta surgira e alguns observaram, sem ação. Estes voaram para longe juntamente com os sobreviventes do grupo de Jahari com o movimento do braço em chamas que varreu a margem do rio. O acampamento caiu em desordem e cavaleiros em fuga atropelaram quem estivesse no caminho. A criatura conjurou bolas de fogo do tamanho de carroças em suas garras e as jogou contra o acampamento, obliterando tudo o que tocassem. Cavaleiros entravam em combustão e até mesmo as poderosas paredes de gelo dos aquamantes estilhaçaram em contato com aquelas chamas.
- V-vamos tirar Sua Alteza daqui! - o conde tinha um sorriso de incredulidade, gritou para seus soldados que observavam atônitos aquele pesadelo - Para o Vale! Retirada!
Eles iniciaram a descida e Tahir estremeceu ao sentir a intenção assassina do monstro ser voltada para eles. Vinte cavaleiros desapareceram quando uma bola de fogo acertou a comitiva do príncipe, deixando uma cratera negra na estrada da entrada da cidade. O restante esporou seus cavalos e desceram a colina para longe da besta, em direção ao Vale Rochoso, sem perceber que só estavam vivos pois as correntes da criatura foram puxadas antes dela lançar a magia. Em fuga desenfreada, os 18 cavaleiros não olharam para trás para ver o colosso ser puxado forçadamente pelas correntes para dentro de seu círculo. Ele tentou manter sua cabeça acima, mas acabou por ser completamente tragado pelo círculo incandescente. Este perdeu o brilho e um tempo depois foi coberto pelo vapor da água do rio, até se extinguir e a única luz vir das chamas que queimavam o que havia restado do acampamento da Quarta Cavalaria.
***
Quatro cavaleiros levavam tochas vários metros a frente do restante do grupo que escoltava o príncipe. Em breve deveriam chegar ao começo de uma das trilhas para o Vale Rochoso, onde o pelotão liderado pelo tenente Passus os esperava. Iriam viajar por entre os canyons para se unir à Terceira Cavalaria. Depois do que viram, era arriscado demais deixar o príncipe em Krasnyy e ele seria escoltado de volta à Saldomar imediatamente, a capital do império de Bahamn. Ninguém falava nada, chocados demais para expressar seus sentimentos em palavras. O príncipe encarava a chama das tochas de olhar distante, lembrando da medonha criatura que brotara literalmente do chão para destruí-los como se fossem insetos. Dois dos cavaleiros da dianteira fizeram sinal para o tenente Fadhili, líder daquele pelotão.
- Parem! - ordenou ele.
Os cavaleiros obedeceram e olharam em volta. Cheiro de sangue e cabelo queimado impregnava o ar. Um dos soldados atrás do príncipe Tahir soltou algo como um ganido ao entender o que suas tochas iluminavam. Distraídos, haviam julgado que estavam rodeados de detritos e pedras disformes. Os 40 homens do tenente Passus não estavam no local de encontro. Ou na verdade estavam, mas espalhados em retalhos pela paisagem. Membros, armas, cavalos e cavaleiros partidos brutalmente ao meio ou com grandes ferimentos de corte. Os cavaleiros se inquietaram, sondando os arredores de armas em punho.
Um som como o de um molinete de vara de pesca vindo da dianteira foi ouvido por todos, seguido do impacto de metal batendo em metal e algo molhado. Tahir pensou ter visto linhas brilharem em vermelho quando as cabeças dos quatro cavaleiros da frente saltaram dos corpos, uma após a outra, que amolecerem e deixaram as tochas caírem das mãos. Os cavalos se assustaram e correram a para a escuridão.
- Formação de batalha! - Fadhili bradou - Protejam Sua Alteza.
Mesmo apavorados, os soldados obedeceram, se posicionando entre o príncipe e o tenente que permaneceu à frente, evocando uma lança revestida do peito. A arma transparente cintilou quando o tenente a levantou no ar.
O som de molinete soou novamente e os cavaleiros sentiram uma brisa forte passar entre eles. Em seguida, as tochas se apagaram e as linhas vermelhas atravessaram o lugar onde 6 cavaleiros estavam. Ouviu-se o som de corte, coisas caindo ao chão, relinchos e a brisa soprou por entre eles novamente.
- Nassor! - a voz do tenente veio de onde sua lança brilhava em meio a escuridão - Luz!
- C-certo - o conde respondeu, ao lado de Tahir.
Pontos de chamas surgiram a partir da mão erguida do conde e avançaram para os lados como se fossem pequenos vagalumes. Tahir pensou por um momento que eram Fagulhas de Reação que explodem ao contato, ficando impressionado com a quantidade que o conde as estava evocando, mas percebeu que eram simples Velas Etéreas para iluminar o terreno.
Parado no meio do caminho dez metros adiante havia apenas um homem. Era alto e bem apessoado, de cabelos ruivos e barba rala. A expressão era dura, como se o rosto estivesse em eterno mau humor, com uma cicatriz que ia do lábio inferior até um pouco abaixo do queixo. Sua roupa era bem justa, preta e com detalhes vermelhos, consistindo de uma proteção leve no peito sobre tecido fino e botas de cano longo. Mantinha a coluna bem ereta numa pose elegante e imponente, com as mãos para trás como que montando guarda na estreita estrada. Bordado no ombro estava um estandarte que todos reconheciam, a sombra do dragão Uzhasnyy.
- Rei Dragão... - príncipe Tahir murmurou com incredulidade.
O ex-conde Vladimir encarou o príncipe com indiferença, voltando sua atenção ao tenente Fadhilli que interpôs-se com seu cavalo no caminho dos olhares. Fadhilli exalava a confiança a ser esperada de um cavaleiro do império. Como um aquamante contra um piromante, a vantagem deveria ser a dele. Mas o tenente sabia que não poderia comparar-se ao homem que recebeu o título de mestre em piromancia ao desenvolver uma arte de luta original.
- Desceu a tal ponto de trair a humanidade? - o tenente cuspiu - Aquele ser profano era um demônio?
O Rei Dragão ignorou a pergunta, avaliando os 8 cavaleiros restantes. Apenas Tahir, Fadhilli e Nassor eram evocadores.
- Sem resposta? - Fadhilli irritou-se.
- Não tenho tempo a perder com homens mortos - o Rei Dragão respondeu calmamente - Atacar, fugir, se render... Dou um minuto para decidirem o que farão.
- E-essa é uma oportunidade sem igual! - cochichou o conde, visivelmente nervoso - Se matássemos o Rei Dragão…
- Sim - o tenente falou com propriedade - Vamos distraí-lo e você usa seu arco.
O conde Nassor Reniye tinha o símbolo de sua casa como o falcão vermelho, uma das poucas famílias nobres de Krasnyy que não tinham tradição de formar seus filhos como piromantes e fiéis ao império. Acima de tudo, Nassor era um viteomante especializado em arcos conjurados, como seus antepassados.
- Eh? - o conde engoliu em seco - Se o mantiverem afastado e parado…
- Eu tenho um plano - o tenente assentiu.
- Acabou o tempo - o Rei Dragão disse, começando a caminhar na direção dos cavaleiros, ainda com as mãos nas costas.
Ante a imponência do homem, os cavaleiros ficaram nervosos. Nassor fechou as mãos em palmas e as abriu, do círculo ornamentado que surgiu em uma delas conjurou um arco transparente com entalhes complexos, que pegou em seguida. Não havia cordão, mas a arma ainda assim se mostrava retesada sobre si. Tahir observou o conde parecer puxar o ar a partir de onde segurava o arco na mão esquerda e então ele estava pronto para disparar uma comprida flecha translúcida. Ao mesmo tempo, os 6 cavaleiros avançaram contra o Rei Dragão. Ele deu um passo mais longo e girou a mão direita por sobre a cabeça, como que laçando uma corda. Na parte do pulso de sua manopla havia um mecanismo como um carretel de onde saía um fio de metal. Esse mecanismo fez o som de molinete e um grande arco do fio metálico brilhou em vermelho. Os cavalos gritaram de dor quando suas patas da frente foram cortadas com facilidade e os cavaleiros caíram no chão. Com apenas um passo para o lado, o Rei Dragão desviou de uma flechada do conde Nassor. A flecha fez um som forte ao cravar em algum lugar longe da luz das Velas Etéreas.
Sem dar nem uma olhada para o conde ou para o príncipe - este que estava atônito, apenas observando a luta - o Rei Dragão correu para a própria esquerda em direção a um cavaleiro que se levantava. O soldado golpeou assustado, mas o inimigo desviou e correu em direção a outro cavaleiro. Ele se movia numa velocidade impressionante, graças a magia Atrito Nulo, e repetiu o ato em todos os outros. O barulho do mecanismo em seu pulso continuou a soar enquanto era difícil de se ver o fio. Fadhilli avançou contra o Rei Dragão com estocadas de sua lança, mas ele desviou com facilidade. Uma ventania envolveu o inimigo e ele saltou por cima do tenente como se não tivesse peso. Os cavaleiros viram riscos vermelhos surgirem de todos os lados de encontro a eles e Tahir viu os soldados serem despedaçados quando o fio se retesou e fechou neles.
No meio da cena tenebrosa, Fadhilli ainda estava de pé, enrolado no fio em brasa. Fumaça subia dos pontos em que o fio o tocava e ele havia cravado sua lança no chão, tendo acertado o fio, o enterrando sob sua arma. Suprimido a partir do chão, o fio ia da ponta da lança de Fadhilli até a mão do Rei Dragão. Tanto o tenente quanto o inimigo estavam parados e cercados de uma densa fumaça. Tahir identificou aquilo como Desalento Gélido, uma evocação de sobreposição que dificultava o movimento. O fato de ambos terem sido afetados pela magia significava que o tenente a havia canalizado através do fio metálico, assim como o Rei Dragão o estava usando para canalizar calor. O coração de Tahir bateu forte ao entender o que Fadhilli planejava. Quase sem conseguir evitar sorrir, o príncipe virou o rosto para Nassor. Antes que tivesse qualquer ação, algo quente tocou sua testa. Nassor havia encostado uma das pontas do arco conjurado em Tahir.
- Toque de Pedra - sussurrou o conde.
Todos os músculos do príncipe pareceram congelar. Tahir se viu impossibilitado de se mover ou falar, passando a respirar com dificuldade. Era uma habilidade de paralisia do acervo da vida.
- Agora, Nassor! - gritou o tenente Fadhilli, alheio ao que havia acontecido.
Obediente, Nassor puxou o ar que se tornou uma flecha e soltou. O Rei Dragão não se moveu nem um centímetro e o tenente cambaleou para frente, caindo sobre o joelho. Fadhilli olhou para o próprio peito e viu a ponta de uma flecha azulada transparente. Atordoado, ele sentiu raiva de Nassor por ter errado, mas a dor da flecha seguinte a trespassar seu peito o jogou na realidade. Ele virou com dificuldade para ver o conde disparar uma terceira flecha, que perfurou seu coração. Fadhilli perdeu a sensação dos braços e caiu para a frente por sobre a lança, que desapareceu no ar quando a energia que a mantinha foi interrompida. O conde Nassor expirou com alívio e deu uma olhada para o príncipe, cuja face estava paralisada em uma expressão idiota. Nassor guiou seu cavalo para perto do Rei Dragão, que puxava uma alavanca em sua manopla que fez o carretel de metal saltar para o chão. Olhou para o conde enquanto encaixava outro carretel no lugar.
- Peço perdão, lorde Vladimir - o conde baixou a cabeça para o homem - O capitão Jahari não permitiu que eu usasse meus próprios homens na proteção do príncipe.
Nesse momento ouviram-se sons de passos pesados e rápidos vindos da estrada para o Vale. Dois cavaleiros montados em grandes aves, semelhantes a galos gigantes, adentraram na luz das Velas Etéreas e fizeram uma mesura ao Rei Dragão.
- Milorde! Devem chegar aqui em dez minutos - disse um deles.
- Hum - fez o conde Nassor - Vou ao encontro deles, então.
O príncipe julgou que estavam falando dos homens da Terceira Cavalaria, uma vez que o ocorrido em Lianne inevitavelmente seria visto dos canyons de Vale Rochoso. Os soldados do Rei Dragão se aproximaram de Tahir enquanto o conde Nassor guiava seu cavalo em direção ao Vale.
- Aquilo foi realmente perigoso - disse Nassor para o Rei Dragão - Se eu tivesse sabido... Bom, acho que foi melhor assim.
Um dos soldados destampou um vidrinho e aproximou do nariz de Tahir. Rapidamente ele mergulhou na inconsciência.
***
No alto do céu, seres alados voavam, 12 no total. Quem os olhasse de relance pensaria em grandes pássaros de penas negras. É claro que ninguém em meio às ruínas do acampamento lá embaixo podia vê-los contra a noite, aliás, ninguém no plano físico os veria nem na mais clara luz. Os seres que observavam a comoção eram ceifeiros. De aparência, eram homens e mulheres despidos carregando grandes recipientes de vidro escuro presos a bandoleiras. De suas costas, pouco acima dos quadris, brotavam compridas asas negras que os ajudavam a planar sobre o campo de batalha. Liderando o grupo estava uma mulher de beleza invejável. Seu porte era atlético, de músculos bem torneados e a pele ligeiramente acinzentada. Seu rosto tinha traços fortes e belos, seu cabelo era preto e curto, preso atrás por uma presilha dourada num coque. A franja emoldurava seu rosto descendo até a altura do queixo e seu olhar era duro como o de alguém que testemunhou muita crueldade. Tal olhar podia ser visto na maioria dos ditos “anjos da morte” e era compartilhado por todos os presentes ali.
A líder dos ceifeiros se chamava Askha. Depois de observar o cenário um momento ela pousou, seguida por seus companheiros. Um amontoado de sombras se contorcia em um ponto próximo a ela, almas corrompidas brigando pela alma que se soltara de um dos cadáveres. Askha acertou a massa de demônios com o exterior de sua asa esquerda, produzindo um som de esmagar como o de pedra batendo em pedra. As sombras se dispersaram e fugiram, deixando uma pequena esfera azulada no lugar. A ceifeira pegou aquela alma com delicadeza, acariciando de leve uma pequena rachadura brilhante em sua superfície.
- Que tipo de ódio causaria isso? - ela sussurrou para a esfera, sabendo que não haveria uma resposta.
- Senhorita? - o ceifeiro chamado Owl havia abraçado o próprio corpo com suas asas, que tomaram a forma de um manto negro.
Um soldado passou alheio a eles, caminhando com dificuldades e segurando o braço direito. Como estava no plano físico, não podia interagir com os dois ceifeiros que conversavam entre as barracas destruídas. Criaturas horrendas o perseguiram com agilidade. Bolas ensanguentadas de carne sem pele, se arrastando com braços com ossos e músculos demais pelo chão. Demônios do mais baixo nível que tinham conseguido se espremer através dos planos e haviam fugido do plano etéreo. No plano físico, eles estavam fora do alcance dos ceifeiros.
- Não percam tempo - ela disse, guardando a esfera em seu recipiente.
- Sim! - Owl respondeu.
Askha olhou em volta, a escuridão não afetava a visão de seres etéreos. A cena se repetia em todo o local. Centenas de corpos e centenas de almas estavam espalhadas. Era comum que aquele tipo de demônio fraco, chamados de “ghouls”, fossem atraídos por grandes conflitos, mas a quantidade absurda que se reuniu ali só seria justificável pelo ressoar de uma negatividade inconcebível. Em seus 300 anos de serviço, a ceifeira chefe nunca havia testemunhado aquilo antes. Os anjos da morte concentraram-se em seus trabalhos enquanto cavaleiros lutavam. O soldado de antes havia sido salvo pelas flechas de fogo de um cavaleiro de cabelos ruivos munido de um arco conjurado. Poderosos evocadores montados em répteis bípedes de duras escamas também vieram para combater as monstruosidades. Mas Askha e os outros não lhes deram mais atenção. O clima daquele lugar, aliado com o estado das almas, era propício à corrupção das mesmas, portanto, tinham que se apressar.
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