A floresta em volta da vila de Hamaria se estendia alguns quilômetros até a base de um morro. Era noite e uma criatura espreitava por entre as árvores altas, um humanoide de pele vermelha pálida, tinha um corpo muito magro trajando trapos de couro. De rosto fino e cabelos marrom escuro desgrenhados, os olhos amarelos e de conjuntiva negra fitaram um cervo espiar a volta. A criatura arranhou a casca de uma árvore próxima com as unhas pontudas da mão, ansioso. Apontou dois dedos da outra mão para o animal e murmurou alguma coisa. Uma pequena bola de fogo surgiu da ponta de seus dedos e disparou na direção do animal, acertando o alvo, que guinchou de susto e correu para dentro da mata. O homem avermelhado praguejou e arrancou um pedaço da árvore que segurava, jogando as lascas para longe em seguida. Sentou no chão e encarou o céu estrelado, por entre as folhagens, por algum tempo. Arregalou os olhos ao perceber numa árvore próxima a silhueta de alguém acocorado entre os galhos. Ia se levantar de sobressalto, mas a explosão de dor que surgiu em seu ombro o fez sentar novamente. Uma aste de metal com uma argola na ponta pendia, cravada profundamente na pele entre o braço direito e o tronco. Tentar mexê-lo trazia muita dor, então segurou o braço e disparou numa fuga arfante e desesperada. Outra seta projetou-se nas costas de seu joelho esquerdo, fazendo-o gritar e cair no chão. Tentou puxá-la, mas isso piorava a dor. Observou, atônito, um homem encapuzado se aproximar calmamente, girando uma seta semelhante pela argola com o dedo médio direito.
- Um demônio caçando? - disse ele, o rosto escondido pela escuridão - Que piada.
- Por favor - o demônio choramingou - Não me mate, eu nunca ataquei um humano. Eu só tento sobreviver. Eu juro!
O encapuzado o encarou por alguns segundos, como que refletindo a situação, e o demônio tentou parecer tão pouco ameaçador quanto realmente se sentia. Cessou o giro da seta e guardou-a na manga do sobretudo, suspirando.
- Se eu não tivesse visto aquela sua evocação deplorável, você já estaria morto - virou as costas e andou para longe - Se eu pensar que você andou aprontando alguma, nem a floresta inteira pode te esconder de mim.
O demônio esperou o homem desaparecer por entre as árvores e tentou arrancar as setas de metal, mas elas doeram demais e ele desistiu, tentaria mais tarde. Esperou seu sangue seteriano fechar as feridas parcialmente e olhou em volta. A floresta mergulhara em sua quietude habitual. Havia gasto muita energia aquela noite sem nenhum resultado, teria de esperar dois dias antes de reunir energia suficiente para sequer lançar outro feitiço. Praguejou baixinho, não tinha como ele ter previsto que aquele mercenário apareceria, mas já via os outros debochando dele. Levantou pesadamente e percorreu com passos doloridos o caminho até o covil. Depois de uma hora ele estava em frente a entrada da caverna que usavam como lar provisório. Dois homens de pele vermelho escura, duas cabeças mais altos que ele e munidos de porretes de madeira, encaravam o companheiro franzino com sorrisos maldosos.
- Ele te deixou ir, eh? - disse o que tinha pequenos chifres apontando da testa, depois do mais baixo haver contado sua história - Desde que você não ataque pessoas...
- Não vai ser difícil - o com um moicano comentou - Um merda como ele não conseguiria de qualquer jeito.
- Sim - o primeiro concordou - Não sei o que o chefe pensou quando aceitou você. Não passa de um peso morto.
- Se vocês me ajudassem… - tentou se defender - eu conseguiria ficar mais forte.
- E nós temos cara de babá? - o do moicano chutou seu peito, derrubando-o - Vá arranjar suas próprias almas.
- Não sejam tão duros com ele - uma voz suave pareceu vir de lugar algum - Se ele está no plano físico, quer dizer que conseguiu ao menos uma alma, não é?
Os demônios se entreolharam, confusos, e duas espadas atravessaram a base de seus pescoços. Eles engasgaram pasmos enquanto o ar a frente deles vacilou numa sombra que se focou no encapuzado de antes. Ele usou o fio das lâminas para forçá-las para fora, quase separando as cabeças dos corpos. Ambos caíram de joelhos, segurando os ferimentos por onde vertia sangue muito escuro. O demônio fracote assistiu horrorizado seus companheiros morrerem e o homem se virar para ele, as espadas ensanguentadas reluzindo com o luar. Vislumbrou um sorriso entre as sombras do capuz.
- Um deles comentou sobre um “chefe” - o encapuzado comentou - Será que você…
Se interrompeu, virando levemente a cabeça, então saltou para o lado a tempo de desviar de um ataque vindo de trás dele, de dentro da caverna. Uma pesada lâmina em formato de “L”, comprida como um braço, rachou a testa do demônio. A corrente presa em sua base se tencionou e saltou de volta para a escuridão. O homem se afastou, ficando a alguns metros de frente para a entrada, e uma enorme criatura revelou-se, a pele vermelha delineada por grandes músculos e chifres negros apontando para o alto em arco. Trajava uma armadura simples, de couro fervido e alguns detalhes de metal, no braço esquerdo usava um mecanismo feito para recolher a grossa corrente cuja ponta era presa a lâmina que vira antes. Esta que, nas mãozorras do demônio, ficava parecendo com um pequeno boomerang de metal. Sua cara era quadrada, de orelhas pontudas e um sorriso sem lábios de presas afiadas, a expressão cruel. Seus olhos escuros espiaram os companheiros mortos com indiferença.
- Desculpe - o encapuzado disse - eu sei que deve ser difícil arrumar esses capangas…
Se interrompeu quando o demônio golpeou a própria lateral direita com um soco pesado. A imagem do homem se desfez e ele apareceu no lugar onde a criatura atacara, sendo empurrado alguns metros. Olhou perplexo para o demônio. Havia defendido o soco, mas seu tríceps reclamava de dor. O demônio o olhou, parecendo sorrir ainda mais.
- Não pode se esconder de mim nas sombras, ilusiomante - o som de suas palavras era aterrador pela falta de lábios - As trevas estão a meu lado.
Ele girou sua lâmina e a jogou contra o outro lado da clareira, esmigalhado uma árvore e fazendo o homem surgir, parando o passo a tempo de não ser cortado em dois. Suas ilusões de nada serviriam ali, mas por sorte também era um aeromante, teria de vencer a luta apenas com o vento e suas armas. A clareira se iluminou e ele correu de um lado para o outro, desviando de uma rajada de fogo provinda da mão direita do chefe dos demônios. Era um infernal, a única raça de seterianos que usavam uma magia além de trevas. Como se já não fosse o bastante, ele pensou. Usou uma árvore como impulso, girando no ar e atirando uma seta que o demônio defendeu com um movimento da corrente, que tornou-se um ataque e o encapuzado sentiu um rasgo na perna. Desviara-o com uma lufada forte de vento, de modo a ser apenas superficial, e saltou por cima do golpe. Viu o demônio investir em sua direção envolto em labaredas, antes que pudesse chegar ao chão. Se tocasse nele seria incinerado. Girou no ar, desferindo um golpe com o lado da espada e usando como impulso para saltar por cima do inimigo. Pousou em segurança e observou a trilha de fogo que o monstro abrira ao passar se apagando. Olhou para o céu estrelado acima de sobressalto ao perceber um artefato arredondado ser partido pela arma do demônio. Uma chuva de algum tipo de óleo caiu sobre a relva. Ele desviou a maior parte com o vento, mas seu coração acelerou ao ver que uma gota tocara o tecido em seu peito. Tudo no raio de respingo dentro da clareira irrompeu em chamas ferozes com uma onda de choque e a floresta brilhou como se um pequeno sol houvesse caído ali. O demônio observou as chamas diminuírem com a luz refletindo no preto de seus olhos. Ouviu uma risada de alívio vinda das chamas que diminuíram rapidamente. O homem apareceu no centro das chamas, levemente chamuscado e segurando o peito onde a gota do líquido inflamável havia caído. Sentia o coração bater forte enquanto a gota perdia calor, seu peito ardia onde ela provavelmente marcara sua pele. Raspou com o dedo e ela desgrudou da roupa com a rigidez gélida. Ele suspirou para o demônio, sorrindo, seu ar saiu em uma fumaça branca. Mesmo com as chamas, ele tremia de frio ou talvez de excitação.
- Isso se chama “ignição associada”, não é? - disse o encapuzado, entredentes - Teria me pegado se eu não conhecesse o truque. Um piromante me mostrou uma vez.
O demônio rangeu os dentes, irritado. Atacou o homem com um golpe circular de sua lâmina. A arma cruzou-o como se não fosse feito de nada e sua imagem vacilou e se desfez. O infernal olhou em volta, com o nervosismo crescendo.
- Você me assustou antes - veio uma voz a suas costas, seguida da dor de um corte nos tendões dos pés - Dizendo que via minhas sombras, quando você só enxergava o calor de meu corpo. Foi um bom blefe.
Um golpe furioso da lâmina varreu três árvores atrás dele, mas sem acertar nada além disso. Uma espada foi cravada e retirada na junção de seu cotovelo esquerdo. Incendiar a floresta naquela direção também não deu resultado. Rapidamente, fez surgir inúmeras esferas flutuantes de fogo a sua volta e observou, esperando de joelhos.
- A Ordem classifica vocês pelo nível de poder - o homem apareceu no limite das esferas - Mas não importa a força, se tem um domínio mesmo que básico das trevas vocês ganham um nível de classe. Você é forte, mas ainda é um infernal nível 1. Com trevas eu teria que classificar com um 2.
- Você fala demais - o demônio cuspiu, com o ódio queimando no olhar - devia ter me matado quando teve chance.
- Eu sei o que é isso - o caçador tocou uma das pequenas chamas que borrou a imagem de sua mão - Isso explode se tocado - sorriu para o infernal - Quanto tempo acha que pode manter isso? Uma hora vai acabar sem energia.
- Não sei onde você está - disse com uma uma risada confiante - por isso vou destruir a floresta inteira.
O demônio ergueu o braço direito, a mão se tornando incandescente, gargalhou ao ver a imagem do homem desaparecer.
- Não há como fugir! Agh! - ele olhou para sua axila e viu uma seta com argola cravada pela metade - Vai ter que fazer melh…
Duas outras setas bateram na primeira em rápida sucessão, a empurrando até o fim e provocando uma dor insuportável, fazendo o demônio urrar. A dor aumentou exponencialmente a medida que a peça de metal brilhava com uma luz intensa. A sensação era como se suas entranhas queimassem. As chamas flutuantes a sua volta extinguiram-se e sua mão pendeu ao lado do corpo, soltando fumaça. Ele ficou cabisbaixo apoiado no braço direito, exausto. A seta deixou de brilhar, mas seu corpo ainda ardia por dentro. O caçador aproximou-se do infernal, puxando um de seus chifres para fazer o demônio olhá-lo nos olhos. Dolorido e esgotado ele encarou o homem, que lhe mostrou uma de suas setas, girando-a no indicador.
- Isso é aço austeriano - disse com um sorriso escondido pelas sombras do capuz - Se eu acertar num nervo da forma correta, transforma a energia que você tentar canalizar em pura luz - cutucou o nariz pontudo do infernal com a seta - Luz dentro de um demônio deve ser só um pouquinho desagradável, não é?
O infernal produziu algum tipo de rosnado baixo, carregado de ódio, mas não tinha forças para fazer mais que isso. O caçador riu.
- Isso é meio uma coisa pessoal, sabe? - ele disse - Mas se não se incomoda… Você sabe quem eu sou, não é? Eu vi no modo que você sabia o que esperar de mim.
- Solomon Seward - o demônio escarrou, como se o nome fosse nojento - Sim, eu conheço você, caçador.
- Certo - Solomon prosseguiu, com um grande sorriso de satisfação - Essa coisa de nomes é especial para mim. Sua amiga… Daril?
- Darn - o infernal corrigiu, irritado.
- Isso. E Rubem, antes dela. Eu costumo dizer quem entregou quem como uma espécie de presente. Pra mostrar o quanto sou legal e se sentirem motivados a contribuir comigo, entende?
- Eu não sei de nada. E mesmo que soubesse, não entregaria meu povo.
- Parece que não pensam assim de você. Pra quantos você se ofereceu como isca? - o caçador guardou a seta e sacou uma adaga cuja lâmina mostrava arabescos entalhados, passando a examinar o fio - Eu tive que forçar Darn pra confirmar sobre você, não foi ela que te delatou.
A carranca do demônio se fechou, mas o ódio em seu olhar não parecia ser dirigido ao caçador. Solomon brincou com a adaga, passando de mão em mão, olhando para o infernal como um açougueiro pensando na melhor maneira de começar a fatiar uma peça de carne. Olhou para trás quando uma luz emanou da floresta. Uma jovem mulher se fez surgir na clareira. Tinha cabelos dourados e belos olhos verdes. Acima de sua cabeça uma borboleta de luz aplainava, iluminando os arredores próximos a eles. Caminhou até o caçador com confiança, o olhar carregado de desaprovação.
- Se não é Solomon Seward - disse ela - Quem imaginaria que ir na direção de um incêndio me levaria até o tão famoso renegado?
- Erika Grasslake… Alguns suspeitariam que a Ordem tem dado pouco trabalho a seus caçadores - retrucou ele - a ponto de saírem zanzando pela floresta a noite.
Ela riu, dizendo a seguir:
- É bom te ver também, John.
- Pois é - ele fez uma careta para o demônio, que os observava - Eu preferia que ela nos visse em uma outra hora - voltou-se para a caçadora - Estamos meio ocupados agora, sabe? Tentando dialogar um pouco.
- Ah, sim - ela se irritou - O que você planeja fazer está longe de ser um diálogo. Não irei permitir isso.
O demônio deu uma risadinha dolorida.
- A Ordem está sempre do nosso lado, não é Solo? - disse a criatura - Logo no dia que eu acordei me sentindo falante.
- Tss - fez o caçador com a boca, apontando a adaga para o peito do infernal e se dirigindo a Erika - Eles não morrem, você sabe. Podem voltar depois, novos em folha. Qual o problema em causar uma dorzinha antes?
- Dorzinha? - ela franziu o cenho - O que você sabe de dor sentida diretamente com a alma? Como se sentiria se alguém torturasse sua existência? Como se sentiria se sequer te machucassem assim?
John se calou. O que ela diria se soubesse pelo que ele já havia passado? Sentiu uma leve irritação. Aquilo estava no passado e não queria trazer para ali, muito menos para ela.
- É um demônio, Erika - ele disse calmamente, como que explicando a uma criança teimosa - Almas distorcidas, manchadas por Seteria. O mal encarnado. Você, como uma representante de Tesluh que é, devia saber mais que ninguém.
- Eles tem sentimentos e uma mente - olhou para o infernal - Sendo tão cruel assim... o que te faz diferente deles?
Algo em seu peito pesou. Ela estava comparando-o àquelas abominações? Suprimiu a vontade de gritar com ela e engoliu em seco. O demônio riu, divertido.
- Tudo bem - disse John voltando-se à criatura - Eu só queria confirmar algumas coisas. Ainda tenho alguns locais para visitar. Fenda, Carpa de Pedra… - o infernal arregalou os olhos quando John mencionou o último - Você conhece esse, não é? Imaginei, mas ninguém parece muito disposto a me dar mais do que “você morrerá lá”.
Com um corte fundo, abriu a garganta do infernal. Ele caiu para a frente, se engasgando em seu sangue, muito escuro apesar da luz de Erika. O caçador limpou a lâmina e pôs-se a recuperar as setas que usara dos corpos.
- Não que seja da minha conta - ele falou para a garota que o observava em silêncio - Mas o que a senhorita deseja de um humilde renegado como eu?
- Você falou de Fenda - respondeu ela - Não ouviu sobre o que aconteceu?
- Ai ai ai - ele já imaginava - Deixa eu adivinhar, dois caçadores mortos?
- Três - ela corrigiu, surpresa - Como sabia?
- As vezes tento me poupar de ter de viajar tantos quilômetros por causa de um covil e divido informações com a Ordem - ele fez uma careta ao arrancar a última seta do demônio franzino e se levantou - Então eles mandam gente inexperiente. Os demônios fazem a festa, fogem e eu fico conhecido como o cara das dicas furadas.
- Não é verdade - ela retrucou - Pelo menos em parte, um dos mortos foi meu professor de campo. Não eram só novatos.
- Ah - ele suspirou, lançando um olhar irritado para o chefe infernal que matara - Eu fui passado pra trás, me indicaram esse lugar tantas vezes que eu achei que seria algo grande.
- Você não disse que a outra infernal não tinha entregado ele? Achei que sabia que era uma armadilha.
- Blefes, minha cara - ele tirou o capuz, revelando um cabelo de franja comprida, muito preto - Fazem parte do meu trabalho. Mas o seu trabalho aqui é o que me intriga. Te mandaram pra me intimar de novo?
- Isso foi uma vez - disse ela, irritada - E nós não nos conhecíamos - ela bufou - Mas é pela Ordem, sim. Querem que você seja acompanhado por um tempo, pra terem certeza que você não anda compactuando com demônios.
- Ah - ele riu, fingindo nervosismo - Por isso te escolheram? E se você, por ser uma amiga querida e estimada, resolver me acobertar?
- Eles confiam em mim - estreitou os olhos para ele - Por favor, diga que isso foi uma piada ruim. Que eu não discuti com meus superiores sobre o absurdo de uma acusação grave como essa.
Ele lhe deu um sorriso enigmático.
- Acho que você deve tirar suas próprias conclusões - ficou sério - Eu não devo nada à Ordem, nem à ninguém - sua imagem se distorceu e se desfez, a voz dele veio em sua nuca, lhe dando um calafrio. Ela virou-se e nada viu. A voz ressurgiu em sua nuca, a irritando - Posso desaparecer e nada do que você fizer pode impedir
- Não posso, é? - ela apontou para sua borboleta e essa explodiu numa luz intensa. O caçador ressurgiu, cobrindo os olhos com o braço e rindo - Esse é o seu melhor truque? Não é infalível.
- Vou me preocupar com isso quando achar um demônio luminomante - ele lhe deu um olhar maroto - Mas você sabe que eles tem outro nome e moram em outro lugar.
- Renegado, herege, se escondendo nas sombras… - ela o olhou como se calculasse - Com uso de trevas sua classificação aumenta: tipo babaca classe 2.
- Sombras - ele corrigiu, rindo apesar da provocação do comentário dela - Sou um ilusionista. Trevas e sombras são diferentes até mesmo nos deuses. Jogue luz em algo e tem sombras. Acho que não tenho que explicar a uma representante de Tesluh a definição de trevas, não é?
Ela revirou os olhos para ele, impaciente.
- Tenho ordens para ir com você para qualquer que seja o lugar desprezível que um renegado como você costuma visitar - ela reiterou.
- Certo - ele suspirou - mas entenda que se for me atrapalhar como fez agora - apontou para o infernal maior - Vai ter sorte se me ver novamente algum dia, entendeu?
Seu tom era calmo e livre de rispidez, mas nos olhos pretos ela viu uma seriedade assombrante e sentiu um leve aperto no peito. Tinha certeza de que ele não estava brincando. Concordou com a cabeça.
- E mais - ele prosseguiu - vai fazer tudo o que eu mandar, ou não posso garantir sua segurança - ela concordou novamente e ele sorriu, diminuindo a tensão - Agora, como me achou? Mandaram você me encontrar. Duvido que tenha esbarrado em mim sem querer.
- Fui seguindo seu rastro - disse ela, orgulhosa - Há muitos farsantes que dizem ser o aclamado Solomon Seward. Falei com donos de hospedarias que te notaram justamente por você não sair se mostrando ou pedindo bebidas de graça.
- Que maldade - ele indicou a floresta e eles começaram a caminhar de volta para a cidade - Me entregar para a Ordem… As pessoas não gostam mesmo de mim.
- Se, como você disse, não deve nada para a Ordem, não tem porque temê-la, certo?
- Me diga você.
Trocaram mais algumas espinhadas até chegarem ao lugar em que Erika deixara seu cavalo. Era de cinza escuro, parrudo e forte. A raça de cavalos que apenas os caçadores da Ordem de Tesluh tinham autorização para possuir. Na proteção do pescoço haviam as quatro asas, símbolos do deus da Luz.
- Ah não - disse John, cutucando o emblema e fazendo a égua olhá-lo com curiosidade - Isso aqui é como gritar para os demônios que estamos chegando.
Eles discutiram quase uma hora sobre aquilo, até que Erika se irritou. John não queria emblemas, mas quando concordou em tirá-los ele implicou que o cavalo também os entregaria. Não perceberam quando uma mulher, de capuz e uma máscara de tecido cobrindo a boca, passou por eles. Nem poderiam, já que ela atravessava o plano etério. Era uma ceifeira, um ser subordinado ao mundo de Dagea, responsável por levar a alma dos mortos de volta ao poço de Aliir, para serem renovadas pela deusa. Mas essa não era qualquer ceifeira. Era a mais poderosa de todos, sua autoridade abaixo apenas dos deuses. Helort não confiava a mais ninguém um serviço como aquele. Confiava nela, apesar de ela saber que não inteiramente. Não se importava, o deus das sombras não confiava em ninguém, com exceção, talvez, da deusa da terra. Assim, ela olhou para os corpos dos seterianos. Algumas dezenas de pequenas esferas, algumas de brilho azulado e outras amarelas, flutuavam como vagalumes em meio a densas fumaças negras que emanavam do sangue das criaturas avermelhadas. As almas dos demônios se retorciam e murmuravam numa língua antiga em agonia, como que tentando reabsorver as almas que estavam a deriva. Não conseguiriam, demoraria muito tempo para que sequer seus pensamentos voltassem a ter nexo. A ceifeira usou um pote de vidro escuro que carregava numa bandoleira para recolher e comportar cada uma das esferas. Olhou em volta, ao final do trabalho, para ver se não esquecera nenhuma. Na volta para Dagea, parou para dar uma olhada nos dois caçadores que ainda conversavam. Acariciou um pequeno vidrinho pendurado em sua manga, era do tamanho de uma alma e continha exatamente isso.
- Talvez - disse ela, ninguém fora do plano etério podia ouví-la - tenha chegado a hora, pequenina.
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