sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Capítulo 3 - Perdido


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    A pequena luz de Erika encontrou-os no fundo do poço. Revelou um ambiente circular de cerca de 20 metros de diâmetro, com algumas pilhas de pedra recostadas para dois lados formando uma espécie de trilha entre elas. Levava de um buraco escavado na parede, de um lado, a uma porta dupla de pedra meia aberta, do outro. John olhava em volta enquanto Erika se concentrava em respirar devagar, de olhos fechados e sentada num bloco de pedra. Um aeromante, pensou com o coração pulsando forte. Passado o pânico, sentia a raiva crescer. Quando ele fez os dois despencarem ela repeliu com ferocidade a vontade de gritar, agarrando-se com força ao amigo. Caíram por não mais que dois segundos, quando uma ventania os envolveu e os desacelerou. Um maldito aeromante. Escreveria aquilo em seu relatório com satisfação doentia.
    - Você tinha razão - a voz de John ressoou pelo ar frio e úmido, ele indicou o túnel escavado - Havia outro caminho.
    Ela lhe deu um olhar de ódio palpável que ele respondeu com um sorriso brincalhão. A luminomante levantou, conduzindo sua luz para a porta de pedra sem dizer palavra. John a seguiu e entraram em um aposento quadrado, não muito grande, com dois corredores opostos entre si nas paredes laterais. O inseto brilhante iluminou a sala com facilidade, revelando um bloco entalhado de pedra na parede a frente deles. Uma cabeça mumificada de pele enegrecida os encarava com olhos brancos desprovidos de pálpebras e um sorriso de pele repuxada.
    - Oh ho - fez John.
    Erika examinou a caveira mais de perto. Havia lido histórias sobre catacumbas de necromantes cujas entradas eram guarnecidas por vigias do tipo. O amigo devia ter pensado no mesmo.
    - Qual o problema? - provocou ela - Com isso você deve se sentir praticamente em casa.
    John a olhou de cenho franzido, a palma da mão pressionando a boca. Necromancia era a assinatura do antigo deus da morte, Emedor. O mais próximo das trevas que um humano havia chegado. Ela sabia que cutucava uma ferida ao comparar sombras com trevas, mas John deu de ombros, descartando uma discussão.
    - O último necromante morreu há uns 300 anos - prosseguiu Erika.
    - Como se a morte fosse um tremendo empecilho pra eles, não é? - ele deu uma olhada nos corredores.
    - Ele foi morto - corrigiu - O próprio Galiar o matou.
    John assentiu. Galiar fora o grande herói de sua época. Conhecido como "O Exemplo", transformou a Ordem de um bando desorganizado de benfeitores na grande potência na luta contra seres das trevas que era hoje. Naquele tempo, haviam mais coisas a se preocupar do que demônios.
    - O que procuramos está a frente - apontou para a parede atrás do altar da caveira - O que significa que não temos um caminho direto.
    A garota examinou a volta. Um dos corredores tinha teias de aranha visivelmente rompidas. Notou também que o chão em frente do lado aberto da porta mostrava a poeira afastada por seu movimento, além do resto do chão revolvido por possíveis pegadas.
    - Os mercenários de antes - constatou - já estiveram aqui. Mesmo com a remota chance de mortos-vivos, eles já teriam encontrado... e nos falado, não?
    - Hum - ele concordou, concentrando-se - Não adianta eu saber só a direção - sentiu o ar, o cheiro. Rocha úmida, poeira e morte. Ouviu por um momento, o massivo som das toneladas de pedra e terra fazendo força para os esmagar. Pegou uma moeda e a jogou no chão, atentando ao ecoar do tinido de olhar distante.
    - Parece um labirinto - disse, enfim - Se tivéssemos papel suficiente poderíamos fazer um mapa tosco... - olhou para ela, desanimado - Mesmo assim, isso levaria horas.
    Erika assentiu.
    - Tenho uma ideia melhor.
    Apontou para sua borboleta com dois dedos erguidos. O inseto tremeu e se dividiu em duas iguais a original. A evocadora repetiu aquilo mais sete vezes, resultando em 9 brilhantes criaturinhas pelo aposento. Ela tocou a parede lisa com a mão direita espalmada, ao lado da caveira, e quatro de suas borboletas rumaram por cada corredor, restando uma para manter a escuridão afastada.
    - Meus "batedores" podem explorar por nós - fungou para o crânio a seu lado - e são muito mais simpáticos, diga-se de passagem - na parede, em cada lado de onde sua mão repousava, surgiram linhas douradas brilhantes. Elas se dividiram em curvas retas aqui e ali - Posso desenhar o caminho, também - esclareceu.
    John notou sua boca semiaberta e a tornou num sorriso. Desta vez ela o tinha impressionado. Aguardou em silêncio, temendo desconcentrá-la, enquanto as linhas continuavam a correr pela parede. Em cerca de 20 minutos pôde vislumbrar um mapa detalhado. Ambos os corredores levavam a um complicado jogo de caminhos, lembrando raízes de uma planta. Olhando o desenho por fora, o da direita formava o contorno da lâmina de uma foice apontada para cima, enquanto o da esquerda apontava para baixo. Aquela forma lhe parecia familiar, mas não lembrava onde poderia tê-la visto.
    - Parece um "N" - constatou Erika, depois de um longo silêncio, como se lesse seus pensamentos.
    As linhas da esquerda pararam de avançar, mas uma linha se sobressaiu do padrão na direita e seguiu reto para a esquerda. O risco fez uma curva para baixo e se alargou num pequeno quadrado dourado.
    - Uma antecâmara igual a essa com uma porta fechada - disse ela, por fim. Tirou a mão da parede, massageando-a - Não vi nada além de corredores no caminho.
O desenho perdeu o brilho, deixando uma marca cinza claro na cor escura da parede de pedra. Ela indicou uma pequena mancha, onde uma linha acabava deixando um intervalo vazio maior do que o comum.
    - Aqui houve o tal desmoronamento - informou - Eles derrubaram uma parede. Estão indo no caminho certo, mas tentar cortar caminho parece não ser seguro.
    - Incrível... Depois sou eu que tem as melhores habilidades, eh? - ele tirou uma folha de papel e um lápis de um bolso interno do casaco e começou a rabiscar o trajeto que deveriam seguir. Ela sorriu, orgulhosa.
    - Vamos avisar eles? - questionou - Ajuda não seria ruim, já que não sabemos o que vem pela frente.
    - Não - John guardou o lápis, com o trabalho terminado - Mas não costumo arriscar meu lindo pescoço nas garras de um demônio desconhecido. Só vamos dar uma olhada. Dependendo, podemos voltar e contatar até mesmo a Ordem.
    Ela assentiu, satisfeita. Os dois abandonaram a cabeça no pedestal e seguiram pelo corredor da direita. O avanço foi lento e cuidadoso. O caminho nunca era direto, havia sempre uma curva a ser feita, mesmo que houvessem outros corredores a frente. Em certa parte tiveram que seguir na direção oposta ao objetivo. O fizeram com um certo incômodo, mas tinham de ser fiéis ao mapa.
    Erika deixou o caminho com John e se limitou a seguí-lo de perto. Pôs-se a pensar. Um aeromante não era algo incomum, deviam haver muitos arquivos sobre suas magias. Na viagem até ali havia conseguido muitas informações sobre as habilidades das sombras, já que o amigo facilmente empolgava-se em falar do próprio umbigo. Não achava aquilo como um defeito em John, apesar de que quando o conhecera o tomara por um simplório convencido, mas aos poucos notou que era mais que isso. Ele em nenhum momento tentava esconder suas fraquezas, ao contrário, usava de um humor negro se referindo a seus erros e acertos como se fizessem parte de uma grande peça teatral. Mas o que ela percebera foram as diferenças. Em alguns momentos seu amigo era o grande Solomon Seward, que as pessoas reverenciavam, em outros ele era apenas John. Para ela ele era John, seu amigo. Talvez fosse isso que a fizesse se sentir culpada. Mas o que a fazia prosseguir com sua investigação era sua crença de que a Ordem nada faria de mal a ele.
    - Hum, John - falou ela, depois de um tempo em silêncio.
    - Sim? - ele segurava o papel rabiscado a luz da borboleta.
    - Você não era aeromante quando eu te conheci...
    - Ah, sim. Eu não te contei, né? Se impressionaria se eu dissesse que Hoster me buscou pela mãozinha e me levou até a Guilda do Leste?
    - Em se tratando de você? Ficaria decepcionada se fosse qualquer coisa menos que isso.
    Ele riu.
    - Hoster é o guardião de Helort, é natural que alguém opte pelo pilar inteiro. Mas Hoster disse serem ordens de seu senhor. Minha teoria é que foi só uma chance de cutucar Veh.
    - Hum - ela fez - Não sei se me sentiria bem em ser a vara que eles usam para isso.
    - Pois é.
    O silêncio que se seguiu a deixou um pouco nervosa. Teria tocado em alguma ferida?
    - Mas - continuou ela, tentando disfarçar o embaraço - você superou ela, não é? Digo, as magias que perdeu, com o domínio do ar.
    - De certa forma - ele retornou de seus quietos devaneios - Viteomante ou aeromante, cada um tem suas vantagens. Acho que Veh não gosta de emprestar sua força a quem ataca pela surdina. Esses atos desonrosos - riu - Mas dominar o ar é aumentar em muito a furtividade, de modo que vitalidade não se torna tão necessária. Um assassino ágil pode ser melhor que um assassino bom de briga.
    - Entendi. Esse é seu truque, em resumo? Ficar invisível e assassinar demônios indefesos?
    Ele sorriu.
    - Basicamente. Mas o que tentei defender na união dessas técnicas foi a forma de se encontrar os demônios. Ver uma emanação de energia e identificar se ela está corrompida por trevas.
    - Sei, mas e agora? Como consegue fazer isso só com vento e sombras? - torceu mentalmente para não ter parecido direta demais.
    - Hum - ele pensou um pouco - Eu gostei tanto da minha analogia da verruga, mas você ficou incomodada - a risada dele ecoou pelos corredores escuros - Como explicar de outra forma? Tem a ver com o som, é como se as sombras sussurrassem para mim. As trevas são puro silêncio, um silêncio perturbador eu diria. Como um predador me espreitando.
    - O que as sombras dizem? - não precisou disfarçar a curiosidade.
    - Elas conversam entre si, a maior parte eu não entendo. Mas me contam seus segredos, as coisas que se escondem nelas. Não de forma delatora ou óbvia, se eu não tenho uma idéia do que há por ali as palavras não tem muito nexo. Um corredor ou sala é fácil de ouvir, mas pessoas, objetos ou demônios são um pouco mais complicado. Por isso as ilusões funcionam bem contra alguém que não sabe o que procurar, entende?
    - Hum - ela concordou.
    - Por isso, muitas vezes, enxergar é a melhor opção.
    - Você falou em “optar pelo pilar inteiro”, quer dizer que também é um piromante? - ela duvidava. Em certa parte da viagem ele penou para acender uma fogueira com a pouca madeira disponível e Erika tivera de usar um relâmpago para contornar o problema, mas era melhor confirmar.
    - Ah, não - ele riu - Meus alvos geralmente são nossos queridos demônios do tipo infernal, de pele vermelha. Individualmente eles podem não ter um poder muito grande, são os mais comuns, mas mais espertos, eu diria. Tem um potencial grande caso decidam se organizar. É contra isso que eu luto.
    Seguiram em silencio, dessa vez era Erika que estava absorta em pensamentos, digerindo as informações. Em 15 minutos chegaram ao último corredor, um "L" terminando na antecâmara que Erika citara. Lá, quatro pequeninas borboletas luminosas cumprimentaram sua semelhante que os acompanhava, circulando a evocadora.
    - Quanto tempo pode manter elas? - perguntou John, admirado.
    - Quanto for necessário - ela afagou a mais próxima - Elas são a base de um luminomante. Além de olhos, são pontos de conjuração. Como mãos flutuantes.
    Eles examinaram o salão. Não havia nada além da porta dupla de pedra com entalhes gastos. O chão e paredes era mais úmidos e não exibia marcas de ter sido visitado em muitos anos.
    - Estamos bem perto agora - John falou de voz baixa, se aproximando da porta e a tocando, para ver se sentia alguma vibração que revelasse seu interior - Ouço água corrente. Uma pequena queda d’água e um lago subterrâneo, talvez. O eco soa como uma grande caverna.
    Não sentia nada demais. Podia sentir as trevas do outro lado, embora não pudesse dizer o ponto específico. Franziu o cenho tentando ouvir o sussurro das sombras, muito baixo.
    - O que foi? - Erika perguntou baixinho.
    - É estranho... Acho que há luz aí dentro. As sombras estão longe do... que estiver aí. Escutou por mais um tempo. Nenhum outro som além da água.
    - Abra - ela indicou suas borboletas - Eu olho.
    Ele assentiu. Puxou o ar, prendendo a respiração. Abriu a porta devagar, usando seu domínio do vento para impedir que o som se propagasse. Expirou calmamente quando terminou. Olharam para dentro e uma enorme caverna revelou-se. Submerso em um lago raso estava um cristal azulado do tamanho de uma grande abóbora. Ele não parecia ter um brilho muito forte, mas a sua volta tudo estava perfeitamente visível. Da límpida água até as paredes irregulares. Podiam enxergar claramente a entrada de vários túneis a toda volta, alguns até mesmo no teto decorado de estalactites. Esses túneis estavam entregues as sombras formadas pelo ângulos cegos da estranha iluminação. Apesar disso, o chão atraía a atenção. Estava coberto de ossadas humanas. Alguns eram brancos como só o tempo podia providenciar, outros ainda exibiam uma pele escura e ressecada como a do crânio que viram na entrada. Provavelmente, mortos-vivos que pareciam pender ligeiramente mais para o estado de mortos. Também haviam cadáveres que visivelmente não passaram pelo processo de embalsamamento dos necromantes e haviam apodrecido mal, relativamente mais recentes.
    - Pode parecer loucura - Erika abria bem os olhos - mas definitivamente isso não parece muito acolhedor.
    Fez um sinal e seus batedores alados exploraram a caverna lançando suas luzes nos pontos em que as sombras se escondiam do cristal.
    - Eu sinto que as trevas estão bem a frente - disse John - No lago... Será o cristal?
    - Tem um colar submerso... - ela fez a borboleta se aproximar da superfície da água - É dourado e com uma pedra de Aliir.
    Eles se entreolharam, intrigados.
    - No fundo do lago tem uma gruta, atrás do cristal. Pode haver um demônio lá.
    - Seria querer demais que suas amigas nadassem, não é? - ele perguntou, esperançoso, mas ela negou com a cabeça.
    - Está escuro lá. Você não disse que as sombras falam com você?
    - Como eu disse, não é tão simples e a luz está isolando elas de mim.
    Ele pressionou a boca com a palma da mão, pensativo.
    - Fique aqui - disse, enfim.
    Sua forma vacilou em um borrão e ele desapareceu. Mas ao dar um passo além da porta sua magia se desfez. Ele deu uma olhada para Erika, numa vã esperança de que ela estivesse lhe pregando uma piada maldosamente inconveniente. Mas ela entendeu seu olhar acusatório e negou com a cabeça veemente. Suas ilusões seriam inúteis próximas ao estranho objeto, percebeu. John andou com cuidado, desviando dos ossos e reduzindo seu ruído tanto quanto o domínio do ar o permitia. Os corpos tinham ferimentos terríveis, a maioria parecia ter sido trespassado por uma lança. Constatou, um pouco aliviado, que nenhum se mexeu. Chegou na beirada do lago e observou o cristal submerso em sua água cristalina. Notou também o amuleto que Erika comentara. Tinha uma forma curiosa. Um pedaço de metal que seria hexagonal, não fosse o fato de que uma ponta sobressaísse para baixo na esquerda e outra para cima na direita, lembrando vagamente o mapa que Erika desenhara na parede. Uma pedra de Aliir de um verde muito escuro adornava o centro do objeto e um cordão de malha do mesmo metal dourado descansava no fundo de pedra do lago. Ele olhou em volta para garantir que nada saltaria de trás de qualquer coisa, então repuxou a manga e recolheu o estranho objeto. Esperava algo frio, mas sentiu-o cálido através da luva molhada, como se segurasse um pequeno ser vivo. Estaria ficando louco ou ele também parecia pulsar?
    Uma borboleta luminosa deu um rasante muito próximo ao seu rosto, tirando-o do contemplamento. Ele olhou para trás, para a porta onde a companheira o esperava. Erika apontava freneticamente para cima, de olhos arregalados de pavor. Seu estômago gelou enquanto levantava a cabeça devagar. Duas borboletas voavam em círculos próximas a uma estalactite, acima do lago. John viu o brilho de suas luzes refletidos em dois grandes olhos negros semicerrados, do tamanho de punhos fechados. Agarrada entre outras grandes estalactites uma enorme criatura reptiliana se segurava. Sua pele era formada de escamas que se confundiam a cor das pedras. Seu pescoço comprido de focinho fino imitavam a forma pontiaguda das rochas do teto em torno das quais seu comprido corpo serpenteava, em direção à saída. Sua mão coçou. Aquilo parecia ser um demônio do tipo leviathan. Fosse o que fosse, o poder destrutivo de um piromante seria esplendidamente útil. John recuou um passo para a porta e ouviu o som de algo sendo arrastado. Do teto, entre ele e a amiga, pendeu preguiçosamente uma comprida cauda, fina como um antebraço, cuja ponta era provida de um nada simpático espinho negro. A fera se moveu, com fortes braços de lagarto agarrando-se as pedras próximas. De cima de seus ombros saiam dois longos dedos pontudos, lembrando grosseiramente as asas de um dragão. Tinha grossas garras em suas pontas e os usava como apoio para se deslocar pelo teto. Abriu levemente a bocarra cravejada de inúmeros dentes, finos como agulhas, na direção de John. O caçador puxou de dentro da manga uma espécie de agulha grossa de metal pela argola da ponta, girou-a no dedo médio e a disparou contra o monstro, com a força de uma magia de impulsão. O alvo era um dos olhos, mas com um leve movimento da cabeça a agulha bateu na pele de escamas grossas com um baque surdo. O monstro emitiu um som arrastado, preenchendo a caverna com um chiado estranho. O evocador percebeu quase tarde demais que se tratava de uma distração, destinada a dificultar que ele escutasse o movimento do golpe da cauda que surgira do teto. Ele desviou com a agilidade de um aeromante, mas uma outra cauda veio pelo outro lado. Sem tempo para sair do caminho ou produzir uma briza que desviasse o ataque, só houve tempo de puxar a espada esquerda um pouco para bloquear o ataque direto em seu abdômen. A espada estilhaçou-se e John levou um empurrão que lhe tirou o fôlego. Capengueou para o lado, evitando tropeçar nos ossos e cair no lago, desembainhando sua outra espada. Desviou o espinho que o atacou com uma espadada.
    Forçou o ar para dentro, desviando mais dois golpes do monstro e esquivou de um terceiro. Um brilho forte veio do teto e um som alto de algo sendo rasgado preencheu a caverna. Ao redor do monstro, três borboletas explodiram em luz, cada uma lançando relâmpagos contra seu pescoço. O esperança de John durou pouco, pois a enorme criatura não pareceu ter sentido minimamente a evocação. Erika praguejou, não conseguiria lançar algo poderoso o bastante para vencer a resistência da pele da besta de tão longe. Com as sombras a seu lado, John se sentia quase invulnerável, mas ali ele estava desamparadamente em desvantagem. Tinha, portanto, que fugir. A criatura chiou novamente e atacou com suas duas caudas. Ele desviou dos seus golpes, traçando um caminho de volta à antecâmara e, como previra, outra cauda surgiu do teto para acertá-lo. O ruído não permitia que ele pudesse descobrir a direção exata a tempo de se desviar, mas ele tinha preparado outra coisa. Sorriu. Aquela fera era esperta, mas previsível. Bloqueou a terceira cauda com a espada, dessa vez, condensando o ar em uma ventania com a resistência de uma parede de tijolos. Mas é claro, aquela criatura podia quebrar uma parede de tijolos. O espinho bateu com violência na barreira invisível, deixando parte da força do golpe para a espada defender. Ele perdeu o equilíbrio por meio instante, saltando para trás.
    - John! - a voz de Erika fez com que percebesse que havia se sentido confiante demais.
    Olhou para cima em tempo de ver a enorme criatura usar o peso de seu corpo num forte golpe de cima para baixo, com uma de suas asas falsas. Instintivamente colocou as costas de sua mão direita no caminho do espinho. Sentiu sua mão explodir em dor, e uma onda de choque o esmagou contra o chão, como que atingido pela fúria de um deus. Em desespero, havia usado sua pedra de Aliir como escudo. Sabia que isso significaria que ela se racharia e espelharia um ataque como aquele, inutilizando-se. Erika se viu impotente, assistindo seu amigo de bruços caído entre os ossos. A fera olhou para o evocador e depois para Erika, recolhendo suas caudas para o teto, como que a desafiando a buscá-lo. Ela sentou sobre as pernas, a visão embassando a medida que os olhos ficavam mais úmidos.
    John estava meio atordoado, mas vivo. Cada parte de seu corpo estava doída ou dormente e ele se sentia tão longe de suas magias quanto um evocador sem pedra de Aliir podia se sentir. Sua mão ardia, mas estava no lugar. Viu algo próximo ao seu nariz. Com o cordão enrolado em seu pulso estava o amuleto que havia tirado do lago. Não lembrava de o ter colocado ali, mas a pedra de Aliir em seu centro parecia uma visão tão reconfortante quanto os olhos da amiga depois de tempos de estrada solitária. Sua luva estava destruída, assim como as conexões que ela carregava. Ponderou o colar. Apesar de ser um estilo de uso arcaico, uma pedra de Aliir pendurada no pescoço podia servir muito bem para fugir dali. John fechou os olhos, reunindo forças onde pudesse. Agarrou o amuleto e rolou para o lado, virando-se para ver o teto. Vestiu o colar com a criatura a fitá-lo, como que surpresa por ele conseguir se mexer. Voltou a sentir a agilidade que o ar lhe conferia. Pôs-se de pé num salto e disparou na direção da visivelmente aliviada Erika. Os três espinhos retornaram de seus esconderijos, prontos para ação. Não ouviu o chiado, mas isso se devia à habilidade que John apelidara carinhosamente de “Bolha de Sabão”. Ao invés de escutar os sons ele formara uma espécie de sub atmosfera a sua volta. Levemente mais densa, consistindo em isolar-se de sons externos e se focar a percepção em deslocamentos de ar. Em troca, podia praticamente enxergar de onde cada golpe viria até mesmo de olhos fechados. Mas manter aquela área requeria uma quantidade absurda de energia, agravada pela falta de conexões no colar, saindo dali, não estaria em condições para lutar até o outro dia. Desviou de dois ataques diretos. Patético, pensou. Saltou de um golpe rasteiro. Revoltante. Estava na metade do caminho, mais um pouco e estaria a salvo. Você me enoja. John sentiu um calafrio ao perceber que aquela voz em sua mente não lhe pertencia. Desviou de uma série de estocadas. Fugir é a marca dos fracos. Sua perna endureceu e ele pendeu ao chão. Sua magia se desfez aos poucos, ele não tinha mais energia para mantê-la. Estava de joelhos, os braços caídos nas laterais do corpo, a cabeça baixa, exausto. Me usar desse jeito vulgar... inaceitável.
    Erika viu a fera atacar. Um golpe certeiro no pescoço de John que a fez engasgar um soluço. Mas John levantou. A fera puxou a cauda que usara para acertá-lo, mas ela não se soltou. Boquiaberta ela viu a verdade. John não havia sido acertado, havia feito um movimento rápido com a cabeça, desviando do espinho e... abocanhado a cauda da criatura. Ele tinha os dentes cravados na pele cinza do monstro, que soltou um chiado de dor e puxou sua cauda mais uma vez. John fechou a mandíbula, arrancando um pedaço da cauda. Mastigou com voracidade, os olhos brilhando de insana satisfação. Então cuspiu, horrorizado, a boca escorrendo um sangue vermelho muito escuro.
    A criatura movimentou-se pelo teto, recolhendo suas caudas para perto de si. Encarou o evocador, que se virara para ela. Erika aproveitou para ir até John e puxar pelo braço. As duas borboletas restantes se postaram entre eles e o monstro. Não tinha a agilidade do amigo, mas conseguiria bloquear ataques diretos com sua magia.
    - John! O que está fazendo? Vamos logo!
    Ele olhou para ela, atordoado, a caverna começou a se tornar escura. Erika olhou para o lago e viu a criatura tocar a cauda ferida na água. Uma mancha escura começou a bloquear o cristal, deixando a escuridão prevalecer. A única luz passou a vir das duas borboletas restantes da evocadora, mas uma sensação fria assolou-os, parecendo a ponto de esmagar o brilho dos insetos. Ela concentrou-se, vendo suas luzes vacilarem.
    - O que…? - John olhou em volta, seu olhar brilhou na fraca luz, um sorriso perturbado nos lábios - Ele está atraindo as trevas. Acha que pode nos destruir se usar todo seu poder - seu sorriso desmanchou-se - O que...? - ele repetiu, apertou os olhos com os polegares - Que diabos eu estou dizendo?
    Ouviram sons de coisas se movendo. Os fracos vestígios de luz mostraram os corpos na volta deles se movendo.
    - Vamos sair daqui! - Erika sentia o coração disparado, aumentou a intensidade de suas luzes.
    Como luminomante deveria garantir a superioridade sobre as trevas, sentia seu orgulho fazendo-a querer afastá-las. Usou-se como terceiro ponto e destruiu um morto-vivo próximo. Sorriu, confiante. Mas não ficaria ali para bater de frente com um demônio que era poderoso a ponto de conseguir evocar as trevas. Puxou o amigo ainda aturdido, mas não deu dois passos e viu um espinho negro apontar de seu peito. Sem aviso, apenas dor. Ela olhou aquilo, confusa, e tossiu sangue. O espinho se desfez em fumaça escura, se dissipando de volta a escuridão. John viu sua amiga cair para frente, atônito. Uma mancha de sangue cresceu de um ferimento em suas costas. Caída e sangrando, ela trouxe a tona memórias terríveis. Uma lembrança que ele achava ter superado a tempos. Ele ajoelhou, tentando desesperadamente erguê-la.
    - Ei, Erika?! - chamou - Não! Não! Não! - chacoalhou-a, berrando. Ela não respondeu, a luz das borboletas enfraqueceram e sumiram - Erika! - Apertou os lados da cabeça com força e gritou com toda a força dos pulmões - Aaaaaaaah! Pare… Pare! Pare! Pare! Pare! Pa…!
    Sua voz foi interrompida quando foi atingido por um espinho, seguido de vários outros. A dor era imensa. Apesar disso, aquilo não parava. Cada vez mais alto, a risada em seus pensamentos parecia preencher todo o mundo. Ao longe ouvia os sons de juntas estalando a sua volta, mas cada vez mais baixo. Sua mente resvalou para um estado de vazio, uma espécie de defesa que sua mente criara para afastá-lo da dor. Havia muito tempo desde a ultima vez que distanciara-se assim. A dor começou a se afastar, um vago eco distante. A risada parecia vir de seus próprios lábios. Teve vislumbres do que veio a seguir. Imagens estranhas, cheias de sangue e ódio. Sentiu-se mastigando não sabia o que. Mas era delicioso. Essas imagens se distanciaram também. Sentiu-se mergulhando em águas gélidas.  Se viu perdido, imerso em lembranças antigas.


***

    - Que diabos aconteceu aqui? - Chefe estalava os dedos da única mão coberta de armadura, distraído enquanto olhava para o cristal azulado.
    - Senhor? - Charles não tinha certeza se era ou não uma pergunta retórica.
    - Supondo que tenha sido ele, como acha que passaria por nós?
    - Eu... - olhou para o lago - senti o sol da manhã na água - apontou para um túnel de onde brotava uma pequena cascata - ele pode ter escalado. Pode ter saído no lago da superfície.
    Era uma suposição, Charles não se sentia bem em dizer aquilo, mas era a única explicação que tinha.
    - Hum - o homem assentiu - Então você acha que aquilo estava mesmo aqui. Isso explica algumas coisas, não?
    Charles encarou a cena a frente deles. Uma enorme criatura repousava com metade do corpo no lago. Parecia algum tipo de lagarto, com patas curtas e musculosas, adornadas de garras negras, torcidas em posições desconfortáveis. Das costas saíam dois cotos de pontas feridas, como asas arrancadas. Uma das "asas" estava caída bem longe do corpo, do outro lado do lago, enquanto a ponta da outra estava enfiada na boca do monstro. Sua pele mostrava cortes profundos e a lateral de seu peito havia sido aberta brutalmente. Havia sangue escuro e pedaços de corpos apodrecidos para todo lado.
    - Pela violência... - sugeriu Charles - Não devemos esperar algo muito animador.
    - Sim - Chefe olhou em volta - E a garota?
    - Eu a examinei por completo, mas só encontrei um ferimento leve no peito... Não sei explicar como ela perdeu tanto sangue.
    - Hum - olhou para seu piromante, acocorado ao lado da caçadora inconsciente - Eddy, venha cá - o garoto se aproximou - Vai se apaixonar assim tão fácil?
    - Eu não... - Eddy desviou o olhar e o homem lhe deu um sorriso amigável.
    - Vamos levar o cristal, conforme o planejado. Mas algo interessante ocorreu aqui e aquela mulher pode saber os detalhes. Preciso que faça uma coisa para mim.
    Eddy viu os olhos de seu superior brilharem, como quando preparava algum tipo de teste irritante. Engoliu em seco, aquilo nunca indicava algo de bom.





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