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A hospedaria não estava exatamente cheia. Haviam lugares a se escolher e as atendentes não estavam muito ocupadas. Num canto quieto, as gotas de chuva escorriam preguiçosamente pela janela, observadas por uma jovem atraente sentada a uma mesa, sozinha. Seus cabelos de um louro claro, curtos, mal chegando até os ombros. Eram lisos, descrevendo arcos em direção ao pescoço. A franja, comprida como os outros fios, cobrindo parcialmente o rosto, as mãos unidas apoiando o queixo fino e os olhos verdes de expressão cuidadosamente vazia tinham o objetivo de desestimular abordagens, mas isto fora ignorado várias vezes. Erika aguentou alguns "Posso lhe oferecer uma bebida?", "A moça tem companhia?" e até um "Quem deixaria uma dama tão bela esperando?". Depois decidiu pedir um par de canecos de madeira com uma cerveja grossa, que a atendente indicou como ideal para dois viajantes. Ambas as bebidas uniram-se sem protesto na espera, e serviram melhor do que ela esperava para alertar novos clientes que entravam de que ela não estava ali para investidas. Viu pelo reflexo do vidro, espelhado pela fria noite lá fora, um homem atravessar a porta do bar. Tinha um sobretudo característico de um evocador mercenário: gola alta, cinza e gasto. As mangas propositalmente compridas cobriam a pedra de Aliir nas costas de sua luva direita. Carregava duas espadas curtas presas a um grosso cinto de tiras de couro em ambos os lados do corpo. Ele tirou o capuz e olhou em volta, batendo distraidamente a água da roupa. Seus olhos e cabelo eram tão pretos quanto a cor podia ser. A tez pálida como uma vela e a expressão cansada. Tal expressão iluminou-se um pouco com um vago sorriso ao avistar Erika. John sentou a sua frente e, como ela o ignorou, continuando a fitar a noite, falou a seu reflexo: - Desculpe se demorei - deu-lhe um sorriso comedido que ela respondeu com um olhar frio - Oh - notou o caneco em seu lado da mesa - Não percebi que a dama estava acompanhada - fez uma mesura exagerada e fez menção de se levantar.
Isso fez ela sorrir, desarmando sua irritação. Ela estreitou os olhos pra ele. - Um cavalheiro teria o cuidado de perceber isso antes - deu de ombros - mas já que teve a deselegância de se sentar, pode ficar com esse. Vou ouvir o que tem a dizer. John ajeitou-se na cadeira, satisfeito. Soltou um suspiro e tirou um pedaço de papel gasto de um bolso de dentro do casaco, entregando para ela. - Disserte - finalizou, voltando sua atenção a sua bebida e depois ao resto do salão. Alguns dos presentes cochichavam, apontavam para ele, ou levantavam canecos em sua direção. Franziu o cenho, incomodado, e bebeu. Erika olhou para o papel. Estava amarelado, com a tinta um pouco apagada e com um rasgo no topo, como se tivesse sido arrancado de um prego. Exibia um mapa com uma cidade e um rio, além de um desenho tosco de alguma criatura humanóide. As palavras mostravam uma recompensa de 80 Honórios a quem exterminasse um grupo de Mãos-negras localizados com um "X" vermelho no mapa. A garota levantou os olhos para John, que a observava com leve diversão e espectativa. - Uma encomenda de caça... - disse ela, um pouco irritada - Conseguiu na prefeitura? Não me diga que vamos caçar Mãos-negras. Ele riu. - Isso é da cidade onde nos encontramos. Vê? Hamaria - indicou o nome da cidade com o dedo - O que há aí de interessante? Ela olhou o papel novamente, as sobrancelhas erguidas de compreensão. - Hum... Uma recompensa grande... Para Mãos-negras. Ele assentiu. - Alguns diriam que é até grande para o grupo de quatro demônios, que por acaso encontrei no lugar com o "X" - deu de ombros, recostando-se para trás e fazendo um gesto largo com a mão - O que isso te ensina sobre o mundo? - Eles mentiram sobre o alvo. Ele assentiu, sorrindo. - Embora saibamos que um covil, lar ou como você queira chamar, não é muito mais difícil de se lidar do que um grupo real de criaturas, a palavra "demônio" está um pouco carregada... É um medo justificável. Não podemos condenar. Sabemos o que acontece se um demônio mata alguém - seu olhar vacilou um segundo, o pensamento indo para longe por menos que isso. Recuperou-se rápido e inclinou-se para frente em tom de confidência - A verdade é que a maioria dos caçadores dessas recompensas não sabem a diferença de um demônio pra um Lootar, por exemplo. Mas ninguém se importa de ir caçar um... Quando se tem alguma habilidade. Algumas pessoas sabem disso, e criam contratos mais "atraentes". Mas não é por maldade que enganam caçadores. Se você tem um problema, tem que tratar dele da melhor maneira que conseguir. Ela concordou, assimilando a informação. - Você que descobriu isso? John deu um sorriso torto. - Faço parte da Guilda do Leste, lembra? Isso meio que é uma instrução para novatos... Digamos que eu use a dica do jeito contrário. - Em vez de evitar, são esses contratos falsos que você procura - ela riu. - Certo - ficou sério - Mesmo assim, muitos caçadores são autônomos e, por isso, desavisados. O que acontece se um piromante ver isso como dinheiro fácil? Ela assentiu devagar. Muitos caçadores de recompensa eram, de fato, piromantes. As magias de destruição mais eficientes, independente do nível de habilidade do evocador, sem dúvida, eram as de fogo. O polêmico apoio da deusa do fogo aos demônios tornava piromantes inúteis na luta contra um. Eram mais que raros evocadores com só este elemento adeptos a Ordem de Tesluh. Era impensável. - Estamos a meio quilômetro da base da Carpa de Pedra - prosseguiu ele - A última cidade antes da montanha - olhou para a noite - Eu fui na prefeitura, como você disse. Mas não vi nenhum contrato estranho. Erika esperou, mas ele não prosseguiu. - Não há remota chance da sua informação ser mentira? - Não - disse ele, mas seu tom de voz não passava suficiente certeza - Eu ia confirmar em Hamaria - cruzou os braços, olhando para dentro de seu caneco de cerveja - Uma certa representante de Tesluh me atrapalhou. Ela revirou os olhos. - Perguntou pra alguém da cidade? - Não. Ele a olhou como se ela tivesse perguntado se ele teria bebido a própria urina direitinho no dia anterior. Isso a irritou. Erika bufou e acenou para o hospedeiro, que veio até a mesa deles com um grande e alvo sorriso semi ocultado pelo denso bigode. - Senhorita? - Este aqui é Solomon Seward - indicou John com o nariz, vendo-o se engasgar com a cerveja e tossir. Ele a esganou com os olhos, perplexo. O hospedeiro deu aceno grave com a cabeça para ele, ainda sorrindo. - Era o que todos comentavam. O caçador fitou a volta, desolado. - E eu - continuou Erika, afastando o cabelo e mostrando um brinco prateado. As 4 asas símbolos da Ordem - represento Tesluh - o homem assentiu, feliz - Temos informações de atividade demoníaca na montanha. Sabe nos dizer se isso é verdade? - Hum... - o homem levou a mão ao queixo, tamborilando com os dedos - Na montanha... - olhou para ela, indeciso - O que seria classificável como "atividade demoníaca"? - Desaparecimento de pessoas, mortes violentas ou sem explicação, alguma criatura inteligente de pele vermelha... - pensou um pouco - Alguma magia com escuridão, do tipo que um evocador não faria... - a cada ideia o hospedeiro pensava um segundo e negava com a cabeça. Quase se convencendo que haviam ido ali para nada, Erika finalizou - Alguém muito forte, alguém que não sinta dor ou um velho que não morre nunca de velhice - sorriu ao sobrolho levantado do homem - É o que se consegue vendendo a alma a um demônio. - Isso é realmente possível? - É bem raro - ela deu de ombros - Demônios acham mais fácil ou mais divertido tirar a força... Ou matar a pessoa depois de comprar a sua alma. O hospedeiro assentiu. Depois negou. - Não. Acho que nada disso... Na verdade... Há uma antiga mina no norte da montanha. Foi fechada antes mesmo de eu criar barba - passou o dedo no bigode - Dizem que muitos mineiros desapareciam quando penetravam muito na montanha - deu de ombros - É só isso. Ninguém vai lá desde então. Virou para John depois que o homem se afastou, ele a olhava sem ver, pensativo. - O que me diz? - imitou o gesto amplo que ele fizera antes - O que isso lhe ensina sobre o mundo? - Perguntar não faz mal... - disse distraído, franziu o cenho - Ainda mais quando não há o que eu faça que me mantenha no anonimato - seu tom não foi acusatório. Parecia retórico - Nunca tinha me dado conta de quão fácil é me identificar... Ele não fazia ideia. Erika o fitou com doses iguais de culpa e pena. A Ordem tinha informações mais precisas e atualizadas sobre seus passos do que ele imaginaria. Antes ela havia pensado ser o fato de ele manter relatórios sobre os inimigos que enfrentava, mesmo que não tivesse mais ligação direta com a instituição. Mas ficara sabendo por ele mesmo que só os mandava quando encontrava algum demônio relativamente poderoso... E isso já tinha quase meio ano. Olhou as pessoas no bar, não havia ninguém que lhe despertasse vagamente a memória. Haveria algum espião secreto atrás de John? Ela não sabia. - Os boatos correm, você mesmo disse. Posso me livrar de meu cavalo, mas suas espadas... Ele meneou com a cabeça. - Eu não precisava delas antes... - sua voz se perdeu e a atenção vagou para a chuva, o rosto sombrio. A garota mordeu o lábio. Ele estava falando das magias da deusa da vida. Veh, guardiã do pilar da Luz, proporcionava formas de expandir os limites do próprio corpo e até mesmo conjurar armas. Os Seguidores de Veh eram o braço mais forte da Ordem e tinham a deusa como patrona. John dissesse o que dissesse em seu julgamento, Veh não admitia que um humano ousasse ser seu adepto e ao mesmo tempo desejasse o apoio de Helort, o senhor das sombras. Diziam que num acesso de fúria, Veh taxara John de renegado. John por sua vez cuspiu para a deusa e abandonou também a Ordem de Tesluh. Isso não refreou sua fama já crescente. Ao contrário, seus constantes sucessos mesmo sem o apoio da instituição inflamaram sua reputação e tornou-se difícil encontrar pessoas que já não houvessem ouvido falar do grande Solomon John Seward. - Mas e sobre a mina? - ela resolveu mudar de assunto - Vamos investigar? Ele fez um estalo com a língua e sorveu o resto de sua bebida em silêncio. - Isso não é ruim - refletiu ao recolocar o caneco na mesa - Mas tem uma textura nojenta... A mina... Não está com cara de covil. Não do que estamos habituados - ele a encarou - Pode não ser nada e pode ser algo grande. Não gosto nada disso. - Vamos ter que dar uma olhada - ela lhe lançou um sorriso maldoso - Pelo menos eu, é claro. Já que você não encontrou uma gorda recompensa pra isso. John soltou um riso cansado, a tensão que havia no ar diminuiu até sumir. - Vou ficar feliz em te acompanhar... Se quiser, é claro. Nem todos gostam de serem vistos ao lado de um renegado como eu. - Gosto de fazer uma caridade com um andarilho de vez em quando - Erika piscou, depois encarou sua cerveja, com leve asco - Não tenho a mínima vontade de tomar isso. Pediu um vinho e um pouco de guisado que o cozinheiro estava aprontando. John pediu o mesmo, conversaram sobre trivialidades até mais tarde, depois voltaram a estalagem onde haviam alugado seus quartos. Erika não fez mais nenhum comentário sobre a Ordem, Veh ou mesmo a montanha. Separaram-se e ela enfim estava em seu pequeno quarto sozinha. À sua frente, na escrivaninha: papel, caneta e tinta. Estava tremendamente cansada e o relatório inacabado. Se perguntou se o terminaria a tempo, se seria satisfatório e o que diria John se o descobrisse. Havia escrito apenas uma frase, em código. Apenas ela e sua superior tinham as chaves para decifrá-la. Mesmo sabendo que ninguém poderia entender, lá estava ela. Explícita: "S. J. S. Invisibilidade. Desarmável por revelação luminosa". Uma linha. Uma vergonha. E viriam mais, ela sabia. Teriam que vir. Seu rosto estava quente, talvez fosse o vinho. A visão embaçada. Ela largou a caneta com raiva, respingando tinta da ponta na mesa. Se jogou na cama, a cara no travesseiro. Estava limpo, com um leve perfume de flores. Sentia ser suja demais para aquela limpeza. Como podia ser tão fraca? Como podia ser tão má? O sono veio sorrateiro e, sem que ela percebesse, a levou para longe dos problemas. Pelo menos pelo resto da noite. O sol da manhã produzia um calor reconfortante. A chuva fraca da noite anterior dera lugar a um céu muito azul, decorado com inúmeras nuvens brancas de formas variadas. Um casal percorria a precária estrada de pedra que cortava o vale. Vale este que separava a montanha maior de um pedaço de rocha marrom que se elevava do meio de um lago como um peixe saltando da água. Tal formação sem dúvida motivara o nome da montanha. Brilhando ao sol parecia sussurrar com o vento "Carpa de Pedra". O par caminhava com tranquilidade, sem pressa, admirando a paisagem. Trajavam roupas simples, ideais para o trabalho no campo ou para a estrada. Quando entraram a sombra da montanha a mulher olhou para o homem, divertida. Sua roupa era de um marrom claro, sem nada de especial. Mas olhando atentamente ela pôde vislumbrar uma tonalidade cinza e o leve balanço da bainha de uma espada. Mas tentar focar a deixava com um leve incômodo entre os olhos. Distraiu-se e tudo o que via era a roupa simples de camponês. O homem sorriu. - Você sabe o que procurar - defendeu ele - Fica mais fácil de enxergar assim. - Certo. Mas tenho que admitir que isso é muito legal - disse Erika, olhou para o casaco curto que estava usando. Voltou a atenção para a estrada de cenho franzido - A luz produz imagem. Acho injusto que não tenhamos uma magia assim. - Talvez tenham - John a reconfortou - Quantos níveis subiu na Ordem? As cidades mais altas tem magias secretas. Eu entrei na Ordem pelos Seguidores, na quarta cidade. Levando em conta que ela é livre pra qualquer um disposto a caminhar, pode imaginar meu conhecimento da Luz. Erika assentiu. A sede da Ordem era composta de 9 cidades dispostas a acompanhar a subida da montanha da Luz, terminando na passagem para o mundo de Austera, lar do próprio Tesluh. Quanto mais alto se chegava, maior era o poder do luminomante. As três primeiras cidades nada mais eram do que fortalezas destinadas a defesa, enquanto a quarta era a maior e mais movimentada, onde se podia aprender o básico das magias do Pilar da Luz e oferecer seus serviços a Ordem de Tesluh. - Eu cheguei à sexta - ela admitiu, um pouco orgulhosa. O avanço se devia a habilidade nas magias anteriores e pelo desempenho em operações da Ordem - Será que uma magia desse tipo é mais poderosa com Tesluh? Tipo, pra modificar o rosto também? - Eu posso mudar o rosto… É mais trabalhoso. Estou poupando energia. Mas se me identificam sempre pelas espadas, isso deve servir - a olhou em tom de provocação - Talvez não se lembre, mas eu posso desaparecer. O que seria mais produtivo. Mas não estou sozinho e uma dama desacompanhada poderia chamar mais atenção. - Hum - concordou. Ela não mordeu a isca. Não estava com ânimo de incitar uma discussão. Resolveu focar em coisas úteis - Como são os níveis de Helort? John ficou sério, pensativo. - As práticas das sombras são comumente associadas a especialidade de assassinos - disse, depois de um tempo - O que parece incomodar algumas pessoas. Logo, não há um prédio aonde alguém pode te indicar. Mas Helort é o primogênito de Tesluh, então, em teoria, ninguém deveria te condenar por saber uma magia ou outra - deu de ombros - Existe uma espécie de guilda secreta e super reservada dentro da Ordem - sorriu para ela - Só o que eu posso dizer é que você não os procura, eles te escolhem. Eu por acaso aceitei a oferta... e as consequências. Quando deixei a Ordem meu avanço estagnou. Fiquei popular demais, como me disseram. Uma das regras que todo Caçador deve ter em mente é não se destacar quando se enfrenta demônios. Mas John havia derrotado o mais temido de sua época na Ordem e desfrutado um pouco de seu feito. “Jamais dê seu nome a um demônio”, seu professor dissera certa vez como lição essencial. Depois do que acontecera a família Seward, John havia se tornado um exemplo para as novas gerações de Caçadores. Apesar de muitos invejarem sua fama, todos evitavam trilhar o mesmo caminho. Contornaram um grande pinheiro caído na estrada em silêncio, e assim permaneceram até um desvio da estrada, onde pararam. O caminho de pedra prosseguia pelo vale, contornando o lago, mas o desvio seguia para o alto, para a mina que procuravam. John olhou em volta. A trilha descrevia um caminho tortuoso e desconfortante subindo um pouco a montanha maior com beiradas íngremes e traiçoeiras, apesar de ser relativamente larga. Lá de baixo podiam avistar o que julgaram ser a entrada da mina. Um enorme arco de pedra aberto na rocha lisa e antiga. Um filete de fumaça subia de um pequeno acampamento em frente a entrada. John suspirou, retomando a caminhada. - Não tem como se aproximar sem que notem - constatou. - Serão mineiros? Pensei que estava fechada há anos. Ao se aproximarem, contaram três barracas e seis sacos de dormir. A fumaça que viram vinha de uma fogueira protegida do vento. Acima dela um caldeirão com algum tipo de sopa. Três homens. Pelo menos dois deles eram evocadores, notaram pelas pedras de Aliir em suas luvas. Sentados em volta da fogueira, observaram desde longe os dois caçadores se aproximarem. O terceiro era duas cabeças maior do que John, descascava uma laranja, ignorando tanto os viajantes, quanto o mais jovem dos evocadores, que fitava-o, inquieto. - O que vocês querem? - o segundo evocador tinha os cabelos escuros, com alguns fios grisalhos, uma barba invejavelmente bem cuidada e olhos frios - Aqui não é lugar para namoro. - Eles são os caçadores do bar - disse o terceiro homem, antes que John tivesse tempo de responder. Sua expressão era tranquila e confiante. O rosto de linhas retas e o pescoço grosso. Uma franja cobria a sobrancelha direita, descendo quase na altura dos olhos, apesar do resto do cabelo no estilo militar. Usava pesadas placas de aço no peitoral e somente o braço esquerdo possuía armadura, até a ponta dos dedos. O outro braço, musculoso, terminava de descascar habilmente a fruta quando ele encarou os visitantes. Seus olhos parecia enxergar a mais profunda face de seus seres, lendo-os como livros abertos. John sentiu-se tremendamente incomodado, enquanto Erika sentiu-se desamparadamente nua - Um é Solomon, a outra é da Ordem - voltou a atenção para a laranja, observando-a satisfeito com o próprio trabalho. Erika percebeu que tinha prendido a respiração - Eddy os ouviu falando com o hospedeiro, ontem. O homem mais jovem tinha o cabelo em madeixas curtas, cor de bronze, olhos azuis e gentis. Concordou com a cabeça, olhando para as espadas do caçador. John praguejou mentalmente por ter perdido a concentração e se revelado. O outro continuou impassível. - Não achamos que haveria alguém aqui - disse Erika - Sabem de algo sobre a mina que possa nos ajudar? - Vamos ajudá-los não deixando vocês entrarem - disse o homem de olhos frios - Devem ir embora. Não há nada pra vocês aqui. - Ora, Charles - o terceiro impediu-a de protestar - Deixe-os. Que mal podem fazer? Talvez acabem mesmo nos ajudando. - Vocês já entraram? - perguntou John, olhou para os sacos de dormir - Ainda há alguém lá dentro? - Não. Houve um desabamento e um ferido. Mandamos ele pra cidade e agora estamos esperando os outros voltarem com um geomante. - Vocês são da Guilda? - perguntou John, esperançoso. - Não - o homem o encarou, de olhos estreitos, dando uma olhadela para o grandalhão, que o ignorou. Suspirou novamente - Uma organização menor. A mina foi comprada por um conde ao norte e fomos contratados para explorá-la. - Por isso você não achou nenhum contrato - declarou o mais jovem, sorrindo encantado. John o olhou curioso, mas o olhar de Charles para o garoto o empalideceu. O homem voltou seus olhos gélidos para John. - Desculpe - disse - Eddy ficou meio animado quando te reconheceu no bar. A ponto de ignorar a educação e espionar sua conversa. Eddy fitava os pés, desolado. - Hã... Tudo bem - John se sentia levemente irritado - Então, não se importam se dermos uma olhada? Por nossa conta e risco. Charles deu outra olhadela para o terceiro homem, que degustava sua laranja alheio a todos. Deu de ombros. - Parece que não - respondeu, enfim. Os dois deixaram os homens em seu acampamento e seguiram para a entrada da mina. Eddy os observou se afastarem até que mergulharam na escuridão. Aguardou mais um pouco, para ter certeza que não o ouviriam. Mesmo assim falou baixo. - E se eles... encontrarem? - Ora - respondeu o terceiro homem, jogando o bagaço da laranja pela beirada do precipício - Vamos agradecer por nos pouparem o trabalho de procurar e pedir educadamente para nos entregarem - olhou para Charles - Afinal tudo que está na mina pertence ao seu conde, não é? O homem concordou, de expressão vazia, fitando o arco de pedra. Eddy sorriu, confiante. Quase havia estragado uma história muito conveniente. Após o arco de pedra havia um corredor largo o bastante para que duas carroças passassem uma ao lado da outra com folga. Era ladeado por pilastras entalhadas na pedra com detalhes e desenhos desgastados pelo tempo. Percorreram o túnel levemente descendente até a luz que a entrada lhes provinha abandoná-los. Erika ergueu sua mão lançando ao ar uma pequena borboleta feita de luz, que afastou a escuridão e os acompanhou, planando em silêncio. John sorriu para o nariz empinado da amiga. Ela agia como se aquilo não fosse nada, mas ele tinha certeza de que ela empregara algum esforço, talvez tentando impressioná-lo. - O que? - perguntou ela - Você não pode enxergar no escuro - observou o sorriso dele se alargar, ergueu as sobrancelhas, espantada - Consegue?! - sua voz transparecia uma leve indignação. - De certa forma... Mas a luz ainda é útil - tranquilizou-a. Depois de algum tempo de caminhada chegaram a um enorme salão de pedra de teto tão alto que a luz de Erika mal revelava seus contornos. Em seu centro um poço sombrio aguardava devorá-los com sua boca de verme com degraus em espiral saindo das paredes Só avistaram a parede oposta do salão quando Erika fez sua luz sobrevoar o centro da escadaria. Tinha duzias de pequenos corredores aparentemente cavados com a força de ferramentas. Ela encarava os largos degraus de pedra, pensativa. - Me disseram que um clã de geomantes escavou esse lugar há muito tempo - comentou John, em tom de conversa - Séculos, eu diria. Planejavam construir algo, mas desistiram e foram embora. Muito tempo depois resolveram aproveitar sua estrutura e o tornaram uma mina. - Hum - concordou - Parecia trabalho demais para picaretas - indicou a escadaria - Será que é segura? Eles falaram de desabamentos... Ele caminhou até a beirada do primeiro degrau, encarando a escuridão lá embaixo displicentemente. Ela o observou quando ele pulou no lugar, batendo pesadamente os pés. - Você está doido? - sua voz saiu afinada, ecoando pelo poço assim como a risada de John ao ver sua expressão de aflição. - Parece seguro, não? - Como sabe que é por aí? Tem outros caminhos. Ele voltou-se para o abismo sombrio. - As sombras são minhas aliadas - explicou - se dobram a minha vontade e respondem a mim - estendeu a mão direita espalmada para a escuridão abaixo, de olhos fechados, concentrando-se. Depois olhou para a companheira, sorrindo - Posso sentí-las. As trevas, no entanto, por serem parecidas, são como verrugas. Você não sente direito quando cutuca uma verruga, entende? - Eu nunca tive verrugas - respondeu ela, com uma careta, enojada - Você sente demônios assim? Ele assentiu, dando as costas a escadaria, inconsequentemente perto da beirada. - Isso é severamente superior a uma magia de localização do acervo da Vida, apesar de não ter um alcance tão alto - prosseguiu - Uma vez que é impossível discernir a emanação de energia de uma tonelada de almas de um demônio a dois quilômetros da de um esquilo a 100 metros, sentir a direção das trevas ajuda bastante. Em conjunto ambas as habilidades se complementam de um jeito incrível... Mas só tive a chance de usar uma vez - deu de ombros - e fui condenado por isso. Indicou a escada com a cabeça e iniciou a descida. Erika o seguiu, pensando com cuidado nas palavras que usaria. John havia sido julgado e explicara em detalhes sua técnica, na tentativa de mostrar à Veh o poder da união com as sombras. Isso estaria em algum relatório cuja Ordem poderia acessar… Não é? Que utilidade o relatório de Erika teria, então? - Você explicou essas vantagens a Veh, não? - sondou ela. - Mais ou menos. Não podia revelar segredos das sombras. Como eu disse, eles privam pelo sigilo… - suspirou, depois deu um risinho cansado - Mas o pouco que eu disse foi o bastante para eu ser convidado a me retirar da sociedade. Erika sentiu-se um pouco melhor. Depois percebeu que isso dificultaria sua coleta de informações. - Mesmo assim, ela ignorou? - Hum - ele confirmou - Disse que os Seguidores nada tinham a ver com os cavaleiros errantes da Ordem, e que não era mérito nenhum as sombras terem tanta intimidade com as trevas. Prosseguiram em silêncio. A borboleta de Erika descrevia uma descida lenta em parafuso no centro do poço. John ia de mãos nos bolsos, pensativo, enquanto ela o seguia o mais longe possível da borda dos degraus de pedra. Ele lembrava nitidamente. Dois anos antes, havia atravessado as grandes portas de metal do palácio onde Veh e seus altos conselheiros o intimaram a prestar seu relatório da missão. Entrara confiante e empolgado e saíra algumas horas depois de queixo erguido, queimando de raiva. As portas davam para uma pequena praça elevada com vista para metade da cidade principal das 9 cidades. Sua raiva desapareceu, substituída pela desolação. Acabara de insultar uma deusa e abandonado a Ordem. Um homem encapuzado, escorado no lado de fora lhe disse: - Você não é mais bem vindo na irmandade. Em seguida se dirigiu a larga escadaria que levava a cidade, deixando John sozinho com seus pensamentos. Agora não tinha nada. Sem suporte, privilégios ou família. Sem lugar para onde ir, só possuía seu nome. Enquanto tentava se decidir, distraído, se até aquilo podiam lhe tirar, dois homens se aproximaram. John os olhou. Um era careca, com uma vasta barba cinza escuro. Vestia um sobretudo de mercenário de um amarelo gritante e carregava uma curiosa espada curva e arredondada, típica da Guilda do Leste. O outro era alto e esguio, trajava vestes justas e surradas. Tinha um ar desleixado e alegre. A barba por fazer e o cabelo prateado para trás formando uma espécie de crista que lembrava a de um pássaro exótico. Vieram na direção de John, cumprimentando-o. Ele assentiu, um tanto confuso. - Você é o tal Solomon? - perguntou o mais alto, seus grandes olhos de um castanho claro o observavam com diversão - Parece meio pálido… Veh costuma ser um pouco dura quando o assunto é Helort. John arregalou ou olhos, pasmo pela súbita compreensão. Fez uma mesura apressada. - Vossa Alteza - disse. Quase não reconhecera o deus do ar bem na sua frente. Hoster cruzou os braços, com um sorriso amável no rosto. - Ora, “Alteza”… No meu caso isso é mais do que adequado, não acha? - constatou para seu acompanhante careca, que assentiu com a cabeça, sorrindo. O deus voltou-se a John - Mas creio que possa ser prejudicial à saúde chamar Réphina de “Vossa Baixeza”... John soltou um risinho, sentindo-se menos tenso. Jamais poderia cogitar em chamar a deusa da terra daquela forma. - A que devo a honra de sua atenção, meu senhor? - quis saber John. - Bom - o deus fez uma pausa, pensando - Meu bom senhor das sombras me pediu pra ajudar um pobre humano que decidiu desafiar a ira de uma bela deusa - franziu as sobrancelhas para ele, para enfatizar de quem estava falando - Eu acabo de ouvir que uma certa organização que tem meu chefe como patrono te... chutou, não é? John assentiu. O encapuzado havia praticamente sussurrado, mas ele não duvidava que o deus dos ventos pudesse ter escutado. Sentiu-se quebrado por dentro. Helort o abandonaria também? - Certo - Hoster continuou - Isso é um dos motivos. Eles são independentes e Helort acha que já tem coisas demais pra se preocupar do que um bando de mortais brincando de clubinho. Ele me pediu para dizer que não vai desapadrinhar você - lhe deu um sorriso caloroso - E pediu para que eu lhe ajudasse. - Como… Como exatamente? - ele estava confuso, havia visto Helort rapidamente em sua cerimônia de aceitação. O deus das sombras demonstrara nada mais que tédio na ocasião. Não conseguia imaginar por que o senhor de Dagea se preocuparia com o destino de um simples renegado de Veh. Piscou - Por quê? - Ah - Hoster alargou o sorriso - Acho que ele gosta de você. Pouca gente se dedica tanto em combater demônios. Nem mesmo a Ordem - lhe deu uma piscadela marota - Como um aeromante, espero que você consiga… compensar algumas habilidades que Veh lhe garantia - deu de ombros - Não é algo tão equivalente assim, veja bem. Mas pode achar bem útil, uma vez que não tem outras opções - olhou fundo em seus olhos, como se avaliando a força de sua alma. Fez John lembrar de quando Veh fizera o mesmo, anos antes - O que me diz? Quer ser meu adepto? - Sim - sua desolação desaparecera, junto com seu fôlego. O ar de seus pulmões o abandonou. O mundo se estreitou na sua visão, reduzido aos olhos de Hoster a fitá-lo como gemas que absorviam a luz. Fez força para sugar o ar. O que invadiu seu peito era feito de poder. Não conseguia descrever de outra forma. Parecia que, de repente, tudo a sua volta era um ser vivo que o via, ouvia e sentia. Tentava esmagá-lo com uma força invisível. Sorriu. Aquilo era poder bruto. Aquilo o pertencia, estava ao seu comando. Colocou-o em seu lugar de servidão. Como que se sentindo subjulgado pela vontade de John, o ar amansou-se. Quase podia dizer que ronronava. Percebeu que o deus do vento o observava, satisfeito. - Excelente. Parece que você tem futuro, Solo - indicou o homem que o acompanhava com a cabeça - Este é Bartheon, um dos líderes da Guilda do Leste - o homem assentiu, um sorriso parcialmente ocultado pela barba - Um amigo. Pedi para que se encarregasse de encher essa sua cabeça oca de vento. Isso, é claro, significa que você deve se juntar a Guilda. - A Guilda… - John olhou para Bartheon, inseguro - Bem, eu… Eu só sei caçar demônios… - E a Guilda tem uso para isso - respondeu ele - Mais do que você imagina. A Ordem, mesmo que com boas intenções, está longe de cobrir tudo. - Certo - falou Hoster - Eu resolvi o que tinha que resolver com vocês. Se me permitem, já que eu estou aqui vou dar uma palavrinha com minha doce Veh. O deus bateu asas de vento e ergueu-se no ar, rumando para o alto do palácio. Os dois observaram a cena e o careca suspirou. - Ele adora ter qualquer pretexto pra vir visitá-la - virou-se para a escada e seguiu - Vamos, Solo. - Hã? - John ainda estava um pouco atordoado com a sucessão de acontecimentos - Para onde? Bartheon sorriu para ele. - Para o leste, garoto. Onde mais? A visão de Hoster no céu aquele dia havia ficado marcada em sua memória. Se sentira impressionado e animado, mas descobriu depois que o deus não permitia aos homens tal domínio do ar, é claro, por exigência de Veh. Descobrira também que as belas asas de penas douradas que vira nas costas da deusa eram um presente do sorridente deus do ar, dado havia séculos, no tempo em que eles eram um casal. Foi arrancado de seus devaneios por Erika, a dois passos de uma queda para a escuridão. Ela o segurara pelo cinto, guiando sua luz a iluminar a parede lisa por muitos metros abaixo. Sem sinal de mais degraus. - Vai dizer que agora também voa? - o segurava firmemente, inquieta - Não chegue tão perto, me deixa nervosa. Vamos voltar, deve haver outro caminho. John examinou a queda. - Estamos perto. É por aqui. Pegou a mão da garota, que o olhava horrorizada. Trazendo-a para perto, segurando-a pela cintura. - Você não está pensando em… - Erika - interrompeu em tom gentil, tentando soar o mais confiante possível - Lembra que disse que obedeceria minhas instruções? A pergunta é: Você confia em mim? Ele a olhava fundo nos olhos, sério. Ela assentiu, devagar. John inclinou-se para a beirada, puxando-a pela cintura. Ela apertou os olhos, abraçando-o forte. Mergulharam de cabeça na escuridão. A borboleta de luz esvoaçou no lugar, como que confusa. Então desceu atrás deles tão rápido quanto suas asas permitiam.
A hospedaria não estava exatamente cheia. Haviam lugares a se escolher e as atendentes não estavam muito ocupadas. Num canto quieto, as gotas de chuva escorriam preguiçosamente pela janela, observadas por uma jovem atraente sentada a uma mesa, sozinha. Seus cabelos de um louro claro, curtos, mal chegando até os ombros. Eram lisos, descrevendo arcos em direção ao pescoço. A franja, comprida como os outros fios, cobrindo parcialmente o rosto, as mãos unidas apoiando o queixo fino e os olhos verdes de expressão cuidadosamente vazia tinham o objetivo de desestimular abordagens, mas isto fora ignorado várias vezes. Erika aguentou alguns "Posso lhe oferecer uma bebida?", "A moça tem companhia?" e até um "Quem deixaria uma dama tão bela esperando?". Depois decidiu pedir um par de canecos de madeira com uma cerveja grossa, que a atendente indicou como ideal para dois viajantes. Ambas as bebidas uniram-se sem protesto na espera, e serviram melhor do que ela esperava para alertar novos clientes que entravam de que ela não estava ali para investidas. Viu pelo reflexo do vidro, espelhado pela fria noite lá fora, um homem atravessar a porta do bar. Tinha um sobretudo característico de um evocador mercenário: gola alta, cinza e gasto. As mangas propositalmente compridas cobriam a pedra de Aliir nas costas de sua luva direita. Carregava duas espadas curtas presas a um grosso cinto de tiras de couro em ambos os lados do corpo. Ele tirou o capuz e olhou em volta, batendo distraidamente a água da roupa. Seus olhos e cabelo eram tão pretos quanto a cor podia ser. A tez pálida como uma vela e a expressão cansada. Tal expressão iluminou-se um pouco com um vago sorriso ao avistar Erika. John sentou a sua frente e, como ela o ignorou, continuando a fitar a noite, falou a seu reflexo: - Desculpe se demorei - deu-lhe um sorriso comedido que ela respondeu com um olhar frio - Oh - notou o caneco em seu lado da mesa - Não percebi que a dama estava acompanhada - fez uma mesura exagerada e fez menção de se levantar.
Isso fez ela sorrir, desarmando sua irritação. Ela estreitou os olhos pra ele. - Um cavalheiro teria o cuidado de perceber isso antes - deu de ombros - mas já que teve a deselegância de se sentar, pode ficar com esse. Vou ouvir o que tem a dizer. John ajeitou-se na cadeira, satisfeito. Soltou um suspiro e tirou um pedaço de papel gasto de um bolso de dentro do casaco, entregando para ela. - Disserte - finalizou, voltando sua atenção a sua bebida e depois ao resto do salão. Alguns dos presentes cochichavam, apontavam para ele, ou levantavam canecos em sua direção. Franziu o cenho, incomodado, e bebeu. Erika olhou para o papel. Estava amarelado, com a tinta um pouco apagada e com um rasgo no topo, como se tivesse sido arrancado de um prego. Exibia um mapa com uma cidade e um rio, além de um desenho tosco de alguma criatura humanóide. As palavras mostravam uma recompensa de 80 Honórios a quem exterminasse um grupo de Mãos-negras localizados com um "X" vermelho no mapa. A garota levantou os olhos para John, que a observava com leve diversão e espectativa. - Uma encomenda de caça... - disse ela, um pouco irritada - Conseguiu na prefeitura? Não me diga que vamos caçar Mãos-negras. Ele riu. - Isso é da cidade onde nos encontramos. Vê? Hamaria - indicou o nome da cidade com o dedo - O que há aí de interessante? Ela olhou o papel novamente, as sobrancelhas erguidas de compreensão. - Hum... Uma recompensa grande... Para Mãos-negras. Ele assentiu. - Alguns diriam que é até grande para o grupo de quatro demônios, que por acaso encontrei no lugar com o "X" - deu de ombros, recostando-se para trás e fazendo um gesto largo com a mão - O que isso te ensina sobre o mundo? - Eles mentiram sobre o alvo. Ele assentiu, sorrindo. - Embora saibamos que um covil, lar ou como você queira chamar, não é muito mais difícil de se lidar do que um grupo real de criaturas, a palavra "demônio" está um pouco carregada... É um medo justificável. Não podemos condenar. Sabemos o que acontece se um demônio mata alguém - seu olhar vacilou um segundo, o pensamento indo para longe por menos que isso. Recuperou-se rápido e inclinou-se para frente em tom de confidência - A verdade é que a maioria dos caçadores dessas recompensas não sabem a diferença de um demônio pra um Lootar, por exemplo. Mas ninguém se importa de ir caçar um... Quando se tem alguma habilidade. Algumas pessoas sabem disso, e criam contratos mais "atraentes". Mas não é por maldade que enganam caçadores. Se você tem um problema, tem que tratar dele da melhor maneira que conseguir. Ela concordou, assimilando a informação. - Você que descobriu isso? John deu um sorriso torto. - Faço parte da Guilda do Leste, lembra? Isso meio que é uma instrução para novatos... Digamos que eu use a dica do jeito contrário. - Em vez de evitar, são esses contratos falsos que você procura - ela riu. - Certo - ficou sério - Mesmo assim, muitos caçadores são autônomos e, por isso, desavisados. O que acontece se um piromante ver isso como dinheiro fácil? Ela assentiu devagar. Muitos caçadores de recompensa eram, de fato, piromantes. As magias de destruição mais eficientes, independente do nível de habilidade do evocador, sem dúvida, eram as de fogo. O polêmico apoio da deusa do fogo aos demônios tornava piromantes inúteis na luta contra um. Eram mais que raros evocadores com só este elemento adeptos a Ordem de Tesluh. Era impensável. - Estamos a meio quilômetro da base da Carpa de Pedra - prosseguiu ele - A última cidade antes da montanha - olhou para a noite - Eu fui na prefeitura, como você disse. Mas não vi nenhum contrato estranho. Erika esperou, mas ele não prosseguiu. - Não há remota chance da sua informação ser mentira? - Não - disse ele, mas seu tom de voz não passava suficiente certeza - Eu ia confirmar em Hamaria - cruzou os braços, olhando para dentro de seu caneco de cerveja - Uma certa representante de Tesluh me atrapalhou. Ela revirou os olhos. - Perguntou pra alguém da cidade? - Não. Ele a olhou como se ela tivesse perguntado se ele teria bebido a própria urina direitinho no dia anterior. Isso a irritou. Erika bufou e acenou para o hospedeiro, que veio até a mesa deles com um grande e alvo sorriso semi ocultado pelo denso bigode. - Senhorita? - Este aqui é Solomon Seward - indicou John com o nariz, vendo-o se engasgar com a cerveja e tossir. Ele a esganou com os olhos, perplexo. O hospedeiro deu aceno grave com a cabeça para ele, ainda sorrindo. - Era o que todos comentavam. O caçador fitou a volta, desolado. - E eu - continuou Erika, afastando o cabelo e mostrando um brinco prateado. As 4 asas símbolos da Ordem - represento Tesluh - o homem assentiu, feliz - Temos informações de atividade demoníaca na montanha. Sabe nos dizer se isso é verdade? - Hum... - o homem levou a mão ao queixo, tamborilando com os dedos - Na montanha... - olhou para ela, indeciso - O que seria classificável como "atividade demoníaca"? - Desaparecimento de pessoas, mortes violentas ou sem explicação, alguma criatura inteligente de pele vermelha... - pensou um pouco - Alguma magia com escuridão, do tipo que um evocador não faria... - a cada ideia o hospedeiro pensava um segundo e negava com a cabeça. Quase se convencendo que haviam ido ali para nada, Erika finalizou - Alguém muito forte, alguém que não sinta dor ou um velho que não morre nunca de velhice - sorriu ao sobrolho levantado do homem - É o que se consegue vendendo a alma a um demônio. - Isso é realmente possível? - É bem raro - ela deu de ombros - Demônios acham mais fácil ou mais divertido tirar a força... Ou matar a pessoa depois de comprar a sua alma. O hospedeiro assentiu. Depois negou. - Não. Acho que nada disso... Na verdade... Há uma antiga mina no norte da montanha. Foi fechada antes mesmo de eu criar barba - passou o dedo no bigode - Dizem que muitos mineiros desapareciam quando penetravam muito na montanha - deu de ombros - É só isso. Ninguém vai lá desde então. Virou para John depois que o homem se afastou, ele a olhava sem ver, pensativo. - O que me diz? - imitou o gesto amplo que ele fizera antes - O que isso lhe ensina sobre o mundo? - Perguntar não faz mal... - disse distraído, franziu o cenho - Ainda mais quando não há o que eu faça que me mantenha no anonimato - seu tom não foi acusatório. Parecia retórico - Nunca tinha me dado conta de quão fácil é me identificar... Ele não fazia ideia. Erika o fitou com doses iguais de culpa e pena. A Ordem tinha informações mais precisas e atualizadas sobre seus passos do que ele imaginaria. Antes ela havia pensado ser o fato de ele manter relatórios sobre os inimigos que enfrentava, mesmo que não tivesse mais ligação direta com a instituição. Mas ficara sabendo por ele mesmo que só os mandava quando encontrava algum demônio relativamente poderoso... E isso já tinha quase meio ano. Olhou as pessoas no bar, não havia ninguém que lhe despertasse vagamente a memória. Haveria algum espião secreto atrás de John? Ela não sabia. - Os boatos correm, você mesmo disse. Posso me livrar de meu cavalo, mas suas espadas... Ele meneou com a cabeça. - Eu não precisava delas antes... - sua voz se perdeu e a atenção vagou para a chuva, o rosto sombrio. A garota mordeu o lábio. Ele estava falando das magias da deusa da vida. Veh, guardiã do pilar da Luz, proporcionava formas de expandir os limites do próprio corpo e até mesmo conjurar armas. Os Seguidores de Veh eram o braço mais forte da Ordem e tinham a deusa como patrona. John dissesse o que dissesse em seu julgamento, Veh não admitia que um humano ousasse ser seu adepto e ao mesmo tempo desejasse o apoio de Helort, o senhor das sombras. Diziam que num acesso de fúria, Veh taxara John de renegado. John por sua vez cuspiu para a deusa e abandonou também a Ordem de Tesluh. Isso não refreou sua fama já crescente. Ao contrário, seus constantes sucessos mesmo sem o apoio da instituição inflamaram sua reputação e tornou-se difícil encontrar pessoas que já não houvessem ouvido falar do grande Solomon John Seward. - Mas e sobre a mina? - ela resolveu mudar de assunto - Vamos investigar? Ele fez um estalo com a língua e sorveu o resto de sua bebida em silêncio. - Isso não é ruim - refletiu ao recolocar o caneco na mesa - Mas tem uma textura nojenta... A mina... Não está com cara de covil. Não do que estamos habituados - ele a encarou - Pode não ser nada e pode ser algo grande. Não gosto nada disso. - Vamos ter que dar uma olhada - ela lhe lançou um sorriso maldoso - Pelo menos eu, é claro. Já que você não encontrou uma gorda recompensa pra isso. John soltou um riso cansado, a tensão que havia no ar diminuiu até sumir. - Vou ficar feliz em te acompanhar... Se quiser, é claro. Nem todos gostam de serem vistos ao lado de um renegado como eu. - Gosto de fazer uma caridade com um andarilho de vez em quando - Erika piscou, depois encarou sua cerveja, com leve asco - Não tenho a mínima vontade de tomar isso. Pediu um vinho e um pouco de guisado que o cozinheiro estava aprontando. John pediu o mesmo, conversaram sobre trivialidades até mais tarde, depois voltaram a estalagem onde haviam alugado seus quartos. Erika não fez mais nenhum comentário sobre a Ordem, Veh ou mesmo a montanha. Separaram-se e ela enfim estava em seu pequeno quarto sozinha. À sua frente, na escrivaninha: papel, caneta e tinta. Estava tremendamente cansada e o relatório inacabado. Se perguntou se o terminaria a tempo, se seria satisfatório e o que diria John se o descobrisse. Havia escrito apenas uma frase, em código. Apenas ela e sua superior tinham as chaves para decifrá-la. Mesmo sabendo que ninguém poderia entender, lá estava ela. Explícita: "S. J. S. Invisibilidade. Desarmável por revelação luminosa". Uma linha. Uma vergonha. E viriam mais, ela sabia. Teriam que vir. Seu rosto estava quente, talvez fosse o vinho. A visão embaçada. Ela largou a caneta com raiva, respingando tinta da ponta na mesa. Se jogou na cama, a cara no travesseiro. Estava limpo, com um leve perfume de flores. Sentia ser suja demais para aquela limpeza. Como podia ser tão fraca? Como podia ser tão má? O sono veio sorrateiro e, sem que ela percebesse, a levou para longe dos problemas. Pelo menos pelo resto da noite. O sol da manhã produzia um calor reconfortante. A chuva fraca da noite anterior dera lugar a um céu muito azul, decorado com inúmeras nuvens brancas de formas variadas. Um casal percorria a precária estrada de pedra que cortava o vale. Vale este que separava a montanha maior de um pedaço de rocha marrom que se elevava do meio de um lago como um peixe saltando da água. Tal formação sem dúvida motivara o nome da montanha. Brilhando ao sol parecia sussurrar com o vento "Carpa de Pedra". O par caminhava com tranquilidade, sem pressa, admirando a paisagem. Trajavam roupas simples, ideais para o trabalho no campo ou para a estrada. Quando entraram a sombra da montanha a mulher olhou para o homem, divertida. Sua roupa era de um marrom claro, sem nada de especial. Mas olhando atentamente ela pôde vislumbrar uma tonalidade cinza e o leve balanço da bainha de uma espada. Mas tentar focar a deixava com um leve incômodo entre os olhos. Distraiu-se e tudo o que via era a roupa simples de camponês. O homem sorriu. - Você sabe o que procurar - defendeu ele - Fica mais fácil de enxergar assim. - Certo. Mas tenho que admitir que isso é muito legal - disse Erika, olhou para o casaco curto que estava usando. Voltou a atenção para a estrada de cenho franzido - A luz produz imagem. Acho injusto que não tenhamos uma magia assim. - Talvez tenham - John a reconfortou - Quantos níveis subiu na Ordem? As cidades mais altas tem magias secretas. Eu entrei na Ordem pelos Seguidores, na quarta cidade. Levando em conta que ela é livre pra qualquer um disposto a caminhar, pode imaginar meu conhecimento da Luz. Erika assentiu. A sede da Ordem era composta de 9 cidades dispostas a acompanhar a subida da montanha da Luz, terminando na passagem para o mundo de Austera, lar do próprio Tesluh. Quanto mais alto se chegava, maior era o poder do luminomante. As três primeiras cidades nada mais eram do que fortalezas destinadas a defesa, enquanto a quarta era a maior e mais movimentada, onde se podia aprender o básico das magias do Pilar da Luz e oferecer seus serviços a Ordem de Tesluh. - Eu cheguei à sexta - ela admitiu, um pouco orgulhosa. O avanço se devia a habilidade nas magias anteriores e pelo desempenho em operações da Ordem - Será que uma magia desse tipo é mais poderosa com Tesluh? Tipo, pra modificar o rosto também? - Eu posso mudar o rosto… É mais trabalhoso. Estou poupando energia. Mas se me identificam sempre pelas espadas, isso deve servir - a olhou em tom de provocação - Talvez não se lembre, mas eu posso desaparecer. O que seria mais produtivo. Mas não estou sozinho e uma dama desacompanhada poderia chamar mais atenção. - Hum - concordou. Ela não mordeu a isca. Não estava com ânimo de incitar uma discussão. Resolveu focar em coisas úteis - Como são os níveis de Helort? John ficou sério, pensativo. - As práticas das sombras são comumente associadas a especialidade de assassinos - disse, depois de um tempo - O que parece incomodar algumas pessoas. Logo, não há um prédio aonde alguém pode te indicar. Mas Helort é o primogênito de Tesluh, então, em teoria, ninguém deveria te condenar por saber uma magia ou outra - deu de ombros - Existe uma espécie de guilda secreta e super reservada dentro da Ordem - sorriu para ela - Só o que eu posso dizer é que você não os procura, eles te escolhem. Eu por acaso aceitei a oferta... e as consequências. Quando deixei a Ordem meu avanço estagnou. Fiquei popular demais, como me disseram. Uma das regras que todo Caçador deve ter em mente é não se destacar quando se enfrenta demônios. Mas John havia derrotado o mais temido de sua época na Ordem e desfrutado um pouco de seu feito. “Jamais dê seu nome a um demônio”, seu professor dissera certa vez como lição essencial. Depois do que acontecera a família Seward, John havia se tornado um exemplo para as novas gerações de Caçadores. Apesar de muitos invejarem sua fama, todos evitavam trilhar o mesmo caminho. Contornaram um grande pinheiro caído na estrada em silêncio, e assim permaneceram até um desvio da estrada, onde pararam. O caminho de pedra prosseguia pelo vale, contornando o lago, mas o desvio seguia para o alto, para a mina que procuravam. John olhou em volta. A trilha descrevia um caminho tortuoso e desconfortante subindo um pouco a montanha maior com beiradas íngremes e traiçoeiras, apesar de ser relativamente larga. Lá de baixo podiam avistar o que julgaram ser a entrada da mina. Um enorme arco de pedra aberto na rocha lisa e antiga. Um filete de fumaça subia de um pequeno acampamento em frente a entrada. John suspirou, retomando a caminhada. - Não tem como se aproximar sem que notem - constatou. - Serão mineiros? Pensei que estava fechada há anos. Ao se aproximarem, contaram três barracas e seis sacos de dormir. A fumaça que viram vinha de uma fogueira protegida do vento. Acima dela um caldeirão com algum tipo de sopa. Três homens. Pelo menos dois deles eram evocadores, notaram pelas pedras de Aliir em suas luvas. Sentados em volta da fogueira, observaram desde longe os dois caçadores se aproximarem. O terceiro era duas cabeças maior do que John, descascava uma laranja, ignorando tanto os viajantes, quanto o mais jovem dos evocadores, que fitava-o, inquieto. - O que vocês querem? - o segundo evocador tinha os cabelos escuros, com alguns fios grisalhos, uma barba invejavelmente bem cuidada e olhos frios - Aqui não é lugar para namoro. - Eles são os caçadores do bar - disse o terceiro homem, antes que John tivesse tempo de responder. Sua expressão era tranquila e confiante. O rosto de linhas retas e o pescoço grosso. Uma franja cobria a sobrancelha direita, descendo quase na altura dos olhos, apesar do resto do cabelo no estilo militar. Usava pesadas placas de aço no peitoral e somente o braço esquerdo possuía armadura, até a ponta dos dedos. O outro braço, musculoso, terminava de descascar habilmente a fruta quando ele encarou os visitantes. Seus olhos parecia enxergar a mais profunda face de seus seres, lendo-os como livros abertos. John sentiu-se tremendamente incomodado, enquanto Erika sentiu-se desamparadamente nua - Um é Solomon, a outra é da Ordem - voltou a atenção para a laranja, observando-a satisfeito com o próprio trabalho. Erika percebeu que tinha prendido a respiração - Eddy os ouviu falando com o hospedeiro, ontem. O homem mais jovem tinha o cabelo em madeixas curtas, cor de bronze, olhos azuis e gentis. Concordou com a cabeça, olhando para as espadas do caçador. John praguejou mentalmente por ter perdido a concentração e se revelado. O outro continuou impassível. - Não achamos que haveria alguém aqui - disse Erika - Sabem de algo sobre a mina que possa nos ajudar? - Vamos ajudá-los não deixando vocês entrarem - disse o homem de olhos frios - Devem ir embora. Não há nada pra vocês aqui. - Ora, Charles - o terceiro impediu-a de protestar - Deixe-os. Que mal podem fazer? Talvez acabem mesmo nos ajudando. - Vocês já entraram? - perguntou John, olhou para os sacos de dormir - Ainda há alguém lá dentro? - Não. Houve um desabamento e um ferido. Mandamos ele pra cidade e agora estamos esperando os outros voltarem com um geomante. - Vocês são da Guilda? - perguntou John, esperançoso. - Não - o homem o encarou, de olhos estreitos, dando uma olhadela para o grandalhão, que o ignorou. Suspirou novamente - Uma organização menor. A mina foi comprada por um conde ao norte e fomos contratados para explorá-la. - Por isso você não achou nenhum contrato - declarou o mais jovem, sorrindo encantado. John o olhou curioso, mas o olhar de Charles para o garoto o empalideceu. O homem voltou seus olhos gélidos para John. - Desculpe - disse - Eddy ficou meio animado quando te reconheceu no bar. A ponto de ignorar a educação e espionar sua conversa. Eddy fitava os pés, desolado. - Hã... Tudo bem - John se sentia levemente irritado - Então, não se importam se dermos uma olhada? Por nossa conta e risco. Charles deu outra olhadela para o terceiro homem, que degustava sua laranja alheio a todos. Deu de ombros. - Parece que não - respondeu, enfim. Os dois deixaram os homens em seu acampamento e seguiram para a entrada da mina. Eddy os observou se afastarem até que mergulharam na escuridão. Aguardou mais um pouco, para ter certeza que não o ouviriam. Mesmo assim falou baixo. - E se eles... encontrarem? - Ora - respondeu o terceiro homem, jogando o bagaço da laranja pela beirada do precipício - Vamos agradecer por nos pouparem o trabalho de procurar e pedir educadamente para nos entregarem - olhou para Charles - Afinal tudo que está na mina pertence ao seu conde, não é? O homem concordou, de expressão vazia, fitando o arco de pedra. Eddy sorriu, confiante. Quase havia estragado uma história muito conveniente. Após o arco de pedra havia um corredor largo o bastante para que duas carroças passassem uma ao lado da outra com folga. Era ladeado por pilastras entalhadas na pedra com detalhes e desenhos desgastados pelo tempo. Percorreram o túnel levemente descendente até a luz que a entrada lhes provinha abandoná-los. Erika ergueu sua mão lançando ao ar uma pequena borboleta feita de luz, que afastou a escuridão e os acompanhou, planando em silêncio. John sorriu para o nariz empinado da amiga. Ela agia como se aquilo não fosse nada, mas ele tinha certeza de que ela empregara algum esforço, talvez tentando impressioná-lo. - O que? - perguntou ela - Você não pode enxergar no escuro - observou o sorriso dele se alargar, ergueu as sobrancelhas, espantada - Consegue?! - sua voz transparecia uma leve indignação. - De certa forma... Mas a luz ainda é útil - tranquilizou-a. Depois de algum tempo de caminhada chegaram a um enorme salão de pedra de teto tão alto que a luz de Erika mal revelava seus contornos. Em seu centro um poço sombrio aguardava devorá-los com sua boca de verme com degraus em espiral saindo das paredes Só avistaram a parede oposta do salão quando Erika fez sua luz sobrevoar o centro da escadaria. Tinha duzias de pequenos corredores aparentemente cavados com a força de ferramentas. Ela encarava os largos degraus de pedra, pensativa. - Me disseram que um clã de geomantes escavou esse lugar há muito tempo - comentou John, em tom de conversa - Séculos, eu diria. Planejavam construir algo, mas desistiram e foram embora. Muito tempo depois resolveram aproveitar sua estrutura e o tornaram uma mina. - Hum - concordou - Parecia trabalho demais para picaretas - indicou a escadaria - Será que é segura? Eles falaram de desabamentos... Ele caminhou até a beirada do primeiro degrau, encarando a escuridão lá embaixo displicentemente. Ela o observou quando ele pulou no lugar, batendo pesadamente os pés. - Você está doido? - sua voz saiu afinada, ecoando pelo poço assim como a risada de John ao ver sua expressão de aflição. - Parece seguro, não? - Como sabe que é por aí? Tem outros caminhos. Ele voltou-se para o abismo sombrio. - As sombras são minhas aliadas - explicou - se dobram a minha vontade e respondem a mim - estendeu a mão direita espalmada para a escuridão abaixo, de olhos fechados, concentrando-se. Depois olhou para a companheira, sorrindo - Posso sentí-las. As trevas, no entanto, por serem parecidas, são como verrugas. Você não sente direito quando cutuca uma verruga, entende? - Eu nunca tive verrugas - respondeu ela, com uma careta, enojada - Você sente demônios assim? Ele assentiu, dando as costas a escadaria, inconsequentemente perto da beirada. - Isso é severamente superior a uma magia de localização do acervo da Vida, apesar de não ter um alcance tão alto - prosseguiu - Uma vez que é impossível discernir a emanação de energia de uma tonelada de almas de um demônio a dois quilômetros da de um esquilo a 100 metros, sentir a direção das trevas ajuda bastante. Em conjunto ambas as habilidades se complementam de um jeito incrível... Mas só tive a chance de usar uma vez - deu de ombros - e fui condenado por isso. Indicou a escada com a cabeça e iniciou a descida. Erika o seguiu, pensando com cuidado nas palavras que usaria. John havia sido julgado e explicara em detalhes sua técnica, na tentativa de mostrar à Veh o poder da união com as sombras. Isso estaria em algum relatório cuja Ordem poderia acessar… Não é? Que utilidade o relatório de Erika teria, então? - Você explicou essas vantagens a Veh, não? - sondou ela. - Mais ou menos. Não podia revelar segredos das sombras. Como eu disse, eles privam pelo sigilo… - suspirou, depois deu um risinho cansado - Mas o pouco que eu disse foi o bastante para eu ser convidado a me retirar da sociedade. Erika sentiu-se um pouco melhor. Depois percebeu que isso dificultaria sua coleta de informações. - Mesmo assim, ela ignorou? - Hum - ele confirmou - Disse que os Seguidores nada tinham a ver com os cavaleiros errantes da Ordem, e que não era mérito nenhum as sombras terem tanta intimidade com as trevas. Prosseguiram em silêncio. A borboleta de Erika descrevia uma descida lenta em parafuso no centro do poço. John ia de mãos nos bolsos, pensativo, enquanto ela o seguia o mais longe possível da borda dos degraus de pedra. Ele lembrava nitidamente. Dois anos antes, havia atravessado as grandes portas de metal do palácio onde Veh e seus altos conselheiros o intimaram a prestar seu relatório da missão. Entrara confiante e empolgado e saíra algumas horas depois de queixo erguido, queimando de raiva. As portas davam para uma pequena praça elevada com vista para metade da cidade principal das 9 cidades. Sua raiva desapareceu, substituída pela desolação. Acabara de insultar uma deusa e abandonado a Ordem. Um homem encapuzado, escorado no lado de fora lhe disse: - Você não é mais bem vindo na irmandade. Em seguida se dirigiu a larga escadaria que levava a cidade, deixando John sozinho com seus pensamentos. Agora não tinha nada. Sem suporte, privilégios ou família. Sem lugar para onde ir, só possuía seu nome. Enquanto tentava se decidir, distraído, se até aquilo podiam lhe tirar, dois homens se aproximaram. John os olhou. Um era careca, com uma vasta barba cinza escuro. Vestia um sobretudo de mercenário de um amarelo gritante e carregava uma curiosa espada curva e arredondada, típica da Guilda do Leste. O outro era alto e esguio, trajava vestes justas e surradas. Tinha um ar desleixado e alegre. A barba por fazer e o cabelo prateado para trás formando uma espécie de crista que lembrava a de um pássaro exótico. Vieram na direção de John, cumprimentando-o. Ele assentiu, um tanto confuso. - Você é o tal Solomon? - perguntou o mais alto, seus grandes olhos de um castanho claro o observavam com diversão - Parece meio pálido… Veh costuma ser um pouco dura quando o assunto é Helort. John arregalou ou olhos, pasmo pela súbita compreensão. Fez uma mesura apressada. - Vossa Alteza - disse. Quase não reconhecera o deus do ar bem na sua frente. Hoster cruzou os braços, com um sorriso amável no rosto. - Ora, “Alteza”… No meu caso isso é mais do que adequado, não acha? - constatou para seu acompanhante careca, que assentiu com a cabeça, sorrindo. O deus voltou-se a John - Mas creio que possa ser prejudicial à saúde chamar Réphina de “Vossa Baixeza”... John soltou um risinho, sentindo-se menos tenso. Jamais poderia cogitar em chamar a deusa da terra daquela forma. - A que devo a honra de sua atenção, meu senhor? - quis saber John. - Bom - o deus fez uma pausa, pensando - Meu bom senhor das sombras me pediu pra ajudar um pobre humano que decidiu desafiar a ira de uma bela deusa - franziu as sobrancelhas para ele, para enfatizar de quem estava falando - Eu acabo de ouvir que uma certa organização que tem meu chefe como patrono te... chutou, não é? John assentiu. O encapuzado havia praticamente sussurrado, mas ele não duvidava que o deus dos ventos pudesse ter escutado. Sentiu-se quebrado por dentro. Helort o abandonaria também? - Certo - Hoster continuou - Isso é um dos motivos. Eles são independentes e Helort acha que já tem coisas demais pra se preocupar do que um bando de mortais brincando de clubinho. Ele me pediu para dizer que não vai desapadrinhar você - lhe deu um sorriso caloroso - E pediu para que eu lhe ajudasse. - Como… Como exatamente? - ele estava confuso, havia visto Helort rapidamente em sua cerimônia de aceitação. O deus das sombras demonstrara nada mais que tédio na ocasião. Não conseguia imaginar por que o senhor de Dagea se preocuparia com o destino de um simples renegado de Veh. Piscou - Por quê? - Ah - Hoster alargou o sorriso - Acho que ele gosta de você. Pouca gente se dedica tanto em combater demônios. Nem mesmo a Ordem - lhe deu uma piscadela marota - Como um aeromante, espero que você consiga… compensar algumas habilidades que Veh lhe garantia - deu de ombros - Não é algo tão equivalente assim, veja bem. Mas pode achar bem útil, uma vez que não tem outras opções - olhou fundo em seus olhos, como se avaliando a força de sua alma. Fez John lembrar de quando Veh fizera o mesmo, anos antes - O que me diz? Quer ser meu adepto? - Sim - sua desolação desaparecera, junto com seu fôlego. O ar de seus pulmões o abandonou. O mundo se estreitou na sua visão, reduzido aos olhos de Hoster a fitá-lo como gemas que absorviam a luz. Fez força para sugar o ar. O que invadiu seu peito era feito de poder. Não conseguia descrever de outra forma. Parecia que, de repente, tudo a sua volta era um ser vivo que o via, ouvia e sentia. Tentava esmagá-lo com uma força invisível. Sorriu. Aquilo era poder bruto. Aquilo o pertencia, estava ao seu comando. Colocou-o em seu lugar de servidão. Como que se sentindo subjulgado pela vontade de John, o ar amansou-se. Quase podia dizer que ronronava. Percebeu que o deus do vento o observava, satisfeito. - Excelente. Parece que você tem futuro, Solo - indicou o homem que o acompanhava com a cabeça - Este é Bartheon, um dos líderes da Guilda do Leste - o homem assentiu, um sorriso parcialmente ocultado pela barba - Um amigo. Pedi para que se encarregasse de encher essa sua cabeça oca de vento. Isso, é claro, significa que você deve se juntar a Guilda. - A Guilda… - John olhou para Bartheon, inseguro - Bem, eu… Eu só sei caçar demônios… - E a Guilda tem uso para isso - respondeu ele - Mais do que você imagina. A Ordem, mesmo que com boas intenções, está longe de cobrir tudo. - Certo - falou Hoster - Eu resolvi o que tinha que resolver com vocês. Se me permitem, já que eu estou aqui vou dar uma palavrinha com minha doce Veh. O deus bateu asas de vento e ergueu-se no ar, rumando para o alto do palácio. Os dois observaram a cena e o careca suspirou. - Ele adora ter qualquer pretexto pra vir visitá-la - virou-se para a escada e seguiu - Vamos, Solo. - Hã? - John ainda estava um pouco atordoado com a sucessão de acontecimentos - Para onde? Bartheon sorriu para ele. - Para o leste, garoto. Onde mais? A visão de Hoster no céu aquele dia havia ficado marcada em sua memória. Se sentira impressionado e animado, mas descobriu depois que o deus não permitia aos homens tal domínio do ar, é claro, por exigência de Veh. Descobrira também que as belas asas de penas douradas que vira nas costas da deusa eram um presente do sorridente deus do ar, dado havia séculos, no tempo em que eles eram um casal. Foi arrancado de seus devaneios por Erika, a dois passos de uma queda para a escuridão. Ela o segurara pelo cinto, guiando sua luz a iluminar a parede lisa por muitos metros abaixo. Sem sinal de mais degraus. - Vai dizer que agora também voa? - o segurava firmemente, inquieta - Não chegue tão perto, me deixa nervosa. Vamos voltar, deve haver outro caminho. John examinou a queda. - Estamos perto. É por aqui. Pegou a mão da garota, que o olhava horrorizada. Trazendo-a para perto, segurando-a pela cintura. - Você não está pensando em… - Erika - interrompeu em tom gentil, tentando soar o mais confiante possível - Lembra que disse que obedeceria minhas instruções? A pergunta é: Você confia em mim? Ele a olhava fundo nos olhos, sério. Ela assentiu, devagar. John inclinou-se para a beirada, puxando-a pela cintura. Ela apertou os olhos, abraçando-o forte. Mergulharam de cabeça na escuridão. A borboleta de luz esvoaçou no lugar, como que confusa. Então desceu atrás deles tão rápido quanto suas asas permitiam.
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