John havia perambulado pelo hall do palácio de Veh um bom tempo coletando informações, antes de descobrir aonde ficavam as mesas de alistamento que procurava. Descobriu que havia um lugar mais reservado, destinado a esse fim e separado do salão principal por uma cortina vermelha entreaberta. Lá só haviam quatro bancadas e a fila era significantemente menor.
- Olá - disse John, em sua vez, para a mulher de cabelo dourado escuro preso atrás de uma das mesas debruçada em cima de um grande livro de registros - Quero me juntar aos Seguidores.
- Claro que quer - disse ela levemente entediada, enquanto folheava seu livro e girava a caneta na mão.
John deu uma olhada nas outras três mesas de cadastro. Diferente dos outros atendentes, aqueles do registro pareciam mais com guerreiros do que com funcionários. Havia um que inclusive parecia um veterano de guerra, com o olho esquerdo cego e inúmeras cicatrizes.
- Nome e ascendência - pediu a mulher, tendo encontrado uma página em branco.
- Solomon John, de Deuce - John hesitou - Filho da Lua.
A mulher estreitou os olhos para o cabelo de John, e ele a viu escrevendo “filho das Sombras”.
- Deuce é para o leste, não? Para o lado das Ilhas Sombrias. Não vai ser julgado por isso aqui - ela explicou - É evocador?
- Não - ele se sentia em parte aliviado, mas ainda nervoso por ter omitido o sobrenome. Felizmente, haviam muitos cabelos negros em sua cidade natal... Se ignorasse a cor dos olhos ele passaria facilmente por um qualquer.
- Presumindo que não possui uma pedra de Aliir. Tem condições de comprar uma?
- Não.
- Certo. Sabe usar isso aí? - ela indicou a espada de John com o nariz.
- Relativamente bem.
- Por que se juntar aos Seguidores de Veh?
- Eu... - ele parou para pensar, por que era mesmo?
Aquele ambiente era familiar e as coisas ocorriam conforme se lembrava. Mas havia algo estranho, como se alguém o observasse das sombras. Ele se sentia desconfortável com essa sensação.
- Veh é uma das poucas deusas que guiam diretamente a humanidade - ele lembrou - Sinto que posso contribuir com a sociedade se a seguir.
- Tocante - a mulher parecia um tanto cética - Tem condições de viver na cidade?
- Acho que consigo sobreviver - ele teve que se virar na viagem até Venêria, fora que nunca tivera muitos mimos na casa dos tios.
- Ficará nos alojamentos para novatos. Já conhece o sistema de trabalho daqui?
- Não inteiramente.
- Há olheiros da Guilda cacarejando em nosso salão - a mulher falava sem parar de colocar informações à extensa ficha em seu livro - e, com isso, as pessoas acham que somos parecidos. Pensar assim é um erro. Nós prestamos apenas serviços que contribuam para a prosperidade das nove cidades, entende?
- Sim.
- Todo trabalho é importante e deve ser levado a sério. Tudo o que fazemos aqui corrobora com o bem maior. O que eu quero dizer - ela terminou as anotações, carimbou e o encarou. Olhos castanhos e sábios, mais velhos do que a jovem mulher que os usava, disso ele lembrava bem - É que Veh fornece o caminho e você o trilha. É dever de um Seguidor entender que a palavra de Veh está acima de qualquer entendimento mortal, então considere isso antes de responder: Você entende o que deve estar disposto a sacrificar para fazer parte dos Seguidores de Veh?
Sim. Sua mente lembrava o que ele respondera, mas, como ele sabia agora, havia uma coisa que ele não sacrificaria por deus algum.
Ele estava na praça da Luz, esperando em frente a estátua de Galiar junto com os outros candidatos a Seguidores. Olhou para ela saudosamente. O grande herói do passado tornara-se uma visão comum para John, depois dos meses de treinamento sob a tutela de Phana Blackgate, a mesma que fizera seu cadastro.
John sentiu sua pedra de Aliir, verde clara e nova em folha, pesar em sua luva enquanto observava sua tutora descer a escadaria de pedra do palácio de Veh, acompanhada pelos outros instrutores. Eles inspecionaram seus grupos de candidatos colocando-os em filas por ordem de mérito alcançado durante o treinamento. John estava no início da fila de Phana e ela lhe deu um tapinha na testa e um franzir de cenho ante o nervosismo do rapaz. Ela vestia as mesmas roupas simples que usava durante o treinamento: calças de couro e camisa branca, com um peitoral de ferro polido simples com ombreiras. Mas John notou que as botas pretas eram novas.
- Não me envergonhem! - disse ela para ele e os outros dois - Se vocês estão aqui é porque mereceram.
Como professora, Phana era sabidamente uma das melhores entre aqueles instrutores. Mas John descobrira aos poucos porque muitos a temiam. A turma que ela aprovara para o teste da benção da Vida era gritantemente menor do que as outras. Tirando Phana e o sempre sonolento Bellmor com sua turma de 5, os outros treinadores haviam levado uma média de 20 candidatos, mas John fazia parte dos 3 considerados a elite de Phana. Cada instrutor deu as costas a sua fila e voltaram-se para o palácio, esperando.
- Eles não deixaram o povo entrar dessa vez - lamentou Bellmor.
O instrutor à direita de Phana tinha a aparência desleixada, de cabelos escuros compridos desarrumados e barba por fazer. Vestia uma pesada e comprida manta azul da mesma cor da calça larga, camisa de manga marrom e chinelos de couro. Sempre carregava um cantil pendurado no cinto que ele jamais abria. Percorria com os olhos cansados as extremidades da praça, cujas ruas haviam sido fechadas pelos soldados de armadura completa da guarda do palácio. As pessoas ainda assim, se amontoavam do lado de fora e acima de prédios próximos a praça para assistirem o evento.
- Pois é - ela sorriu, olhando em volta - Barraca de doces?
- Exato - suspirou ele, tirando um saquinho com biscoitos amanteigados da manta - Ainda bem que eu me precavi - ele espiou as outras filas carrancudo - Eu sempre aprovo poucos pra agilizar as coisas, mas tem gente que acha que quantidade faz qualidade.
- Roubou a cozinha da tia Bete, de novo? - Phana deu um olhar acusador ao colega.
- Era o que eu pretendia - Bellmor roeu com cuidado um dos biscoitos enquanto dava de ombros - Mas quando cheguei lá encontrei esse pacote com um bilhete dizendo que era pra mim.
- Tosh - tossiu Hamfried, o enorme veterano de guerra que John vira no cadastro, à direita de Bellmor - Você está louco... - tossida - comer uma coisa suspeita dessas com as coisas como estão!
Hamfried tinha atrás de si onze cadetes e era o instrutor que mais cobrava do físico de seus candidatos. John ainda lembrava de estar voltando para o alojamento com Phana e os outros e ver Hamfried organizar um grupo de corrida até a floresta amaldiçoada. A maioria deles era mais alto e mais largo que John, mas o velho se destacava acima das cabeças com seus mais de dois metros de altura. Trajava um peitoral reluzente com ombreiras, mas seus braços estavam desnudos com exceção das grandes manoplas de couro gastas. Essas manoplas, segundo diziam, o acompanhavam desde sua entrada nos Seguidores e haviam testemunhado muitas batalhas. O velho vestira um tapa-olho bordado com a espada alada de Veh e uma capa branca suntuosa combinando com sua barba bem aparada. John sempre pensara em Hamfried como uma reencarnação de Galiar, pois naquela hora tanto ele quanto a estátua pareciam imponentes ao sol da manhã.
- Se a tia Bete me desse uma jarra com um líquido verde e um rótulo dizendo “veneno” - Bellmor retrucou, calmamente - Eu beberia inteira sem pestanejar.
O veterano levou a mão em punho para tossir, olhando para Bellmor como que tentando entender o real significado daquela declaração. Bellmor era um aquamante especializado em substâncias tóxicas. Na verdade, se existia algum perito naquilo, certamente seria Bellmor. Portanto, nem mesmo Hamfried duvidava que ele fosse capaz de beber um copo de veneno como se fosse refresco.
- Não foi o que eu quis dizer… - tossida - Não foi a Bete que te deu isso, deu?
- Eu não vejo utilidade de envenenar qualquer um de nós - Bellmor suspirou - Mesmo as coisas “estando como estão”.
Hamfried tossiu, sem parecer muito convencido, e deu uma olhada desconfiada na multidão fora do limite da praça.
- Ouvi dizer que a irmandade anda... - ele não chegou a tossir - bem ativa em Bahamn. E com a princesa em nosso palácio…
- Eles não arriscariam provocar Veh - disse Phana com propriedade - Réphina ainda escoltou a princesa pessoalmente.
- E a irmandade deve ter muito medo dela - tossida sarcástica.
- A irmandade - interviu Bellmor, falando baixo, como que atentando aos dois que aquele não era o melhor lugar para aquela discussão - age independente da vontade de Helort. Portanto, uma vez que Réphina queira pendurar um dos membros pelos polegares na entrada do Castelo do Rochedo, ela o fará sem nem consultar Helort. Além disso, eles são proibidos de fazer qualquer “serviço” dentro do domínio da Luz - ele deu um suspiro profundo e voltou sua atenção a seus biscoitos.
Pouco tempo depois, Veh apareceu para dar início à seleção. Desceu as escadas a pé, acompanhada de seus guardas de armadura dourada. Logo atrás seguiam duas crianças, rodeadas de guardas de tez negra e expressões ferozes. Réphina se destacava no meio daquelas pessoas de pele escura, com os cabelos em tranças compridas e os pés descalços. A deusa da terra mantinha a expressão serena e andava ao lado de outra menina com pouco menos de 15 anos, finamente trajada e queixo altivo. O rosto de uma beleza exótica proeminente do sul de Bahamn, da capital do reino, Saldomar.
A princesa se despediu com um sorriso de Réphina e foi até um palanque coberto, montado para que pudesse assistir ao evento, seus guardas mal encarados se dispondo a sua volta. A pequena deusa alegrou-se ao ver uma pessoa na direção oposta, correu até um homem bonito, apesar dos cabelos grisalhos evidenciando a idade avançada. Ele já estava conversando com Veh, mas deu um grande sorriso e um abraço comovente a Réphina. A cena espantou John, que percebeu um sorriso até mesmo no rosto impassível de Veh ao observar o encontro dos dois.
- Quem é aquele? - Phana perguntou discretamente a Bellmor.
- Não sei - disse ele, entediado - Veio com o Conselho. Pode ser um candidato a cadeira.
- Ah - Phana fez, olhando na direção do palanque onde dois outros senhores de idade gesticulavam com seriedade ao falar com a princesa.
John se distraiu, pensando ter visto um vulto na multidão acenar. Mas havia tanta gente que ele se perguntou por que isso tinha lhe chamado a atenção. Quando voltou a atenção à frente, parecia que um bom tempo havia passado, e John se viu curvado sobre o joelho.
Veh postara-se a frente de todos que se curvaram a sua aproximação: instrutores e candidatos. Sua armadura de aço austeriano cintilava sob o sol, os cabelos curtos e as penas das asas douradas esvoaçavam com o vento. Ela observou os reverentes um tempo para, enfim, menear a cabeça e um de seus guardas pessoais gritar para se levantarem. John controlou o nervosismo o melhor que conseguiu ao descobrir que ele seria o primeiro a passar pela avaliação da deusa. Assim, quando Phana se afastou do caminho e indicou que ele fosse até lá, John engoliu em seco e, um passo de cada vez, se pôs diante da deusa que tanto admirava.
- Olhe para mim - disse Veh.
Sua voz era firme, mas passava uma tranquilidade que fez John quase se sentir a vontade. O rosto da deusa era lindo e ela o olhava de cima, sendo alguns centímetros mais alta que ele. Veh manteve o olhar firme e seus olhos verde azulados penetraram na alma de John como lanças. Ele viu o mundo se reduzir àqueles olhos e sentiu o coração pulsar forte. Em seguida seu corpo todo parecia pulsar e logo pensou conseguir sentir o pulsar dos seres do mundo inteiro como um só. Ele aos poucos estava perdendo a razão da própria existência e, não fosse o exaustivo treinamento de Phana para esse momento, provavelmente teria ficado inconsciente. John focou seu ser e se forçou a sentir onde ele e o ambiente se distinguiam. Uma sensação de controle próprio o dominou, como se pudesse usar sua força de tal forma que seu corpo provavelmente se desfaria com o poder. Ao fim, Veh lhe deu um tapa no ombro e um aceno de aprovação, que fez John sorrir feito idiota. Havia se tornado um viteomante e entrado para os Seguidores de Veh.
***
John vislumbrou penas e dentes afiados. A imagem aos poucos se focou e ele encarou quem estava em sua frente. Um homem totalmente coberto por uma capa preta de várias camadas encarava John naquele estranho beco fragmentado. Seu rosto era terrivelmente familiar, com olhos e cabelos pretos e pele pálida, visível sob o capuz. Quando ele baixou a cabeça sorrindo para as correntes negras que o envolviam, uma sombra cobriu a pele como uma máscara com buracos para os olhos.
- Você me pegou! - disse o homem, com um tom de voz empolgado e surpreso. A máscara de sombras desaparecendo ao erguer o rosto para John.
- Era você? - John quis saber - Me seguindo?
As correntes negras que se perdiam em sombras para os cantos do lugar tilintaram. De certa forma, sentiu que tinha controle sobre elas.
- Não achei que fosse me notar, desculpe - o homem sacudiu as correntes - Sua mente é muito forte. Quase não consigo andar livremente...
Ele fez força e tiras do manto se eriçaram, inflando como um pardal sacudindo as penas. Quando voltou ao normal, as correntes caíram ao chão e desapareceram. O homem massageou os braços e John olhou em volta. O beco era genérico, igual aos milhares que se encontravam no mundo. John sentiu que se andasse por ele, iria perder o foco.
- Isso é um sonho?
- Sim - disse o homem - Mestre está consciente, mas dormindo.
- Essa voz... Stuff?
- Isso! - ele fez uma expressão alegre e depois uma preocupada - Eu não estava fazendo nada de errado!
- Eu estava... numa vila...
- Ah, sim - Stuff riu e acenou com a mão, o beco se tornou o interior de um casebre. John reconheceu a si mesmo em uma cama de palha e muitas pessoas em sua volta. A mulher loira limpava sangue seco de ferimentos que já não existiam - Meu mestre está sendo polido como um vaso raro e muito valioso! Hahaha.
- E por que estamos... aqui? - fez um gesto, abrangendo o entorno.
- Mestre está cansado - ele deu de ombros - enquanto você dormia, eu estava passeando por suas memórias… Oh! Foi assustador! Haha. Seu inconsciente me perseguiu bufando de raiva!
- Meu inconsciente…? O que queria nas minhas memórias?
- Eu… - Stuff coçou a nuca - acabei destruindo duas das mentes que capturamos sem conseguir qualquer informação útil.
- Os demônios? - John lembrou aos poucos o que havia acontecido.
- Sem um corpo, elas ficaram mais fracas do que eu esperava… Foi como forçar uma caixinha de vidro.
- Eu não me importo que os destrua… - então ele lembrou da vila e suspirou - O que minhas lembranças tem a ver com isso? E por que estava me fazendo rever aquelas coisas?
- Mestre Solo é bom em conseguir informações. Estava procurando a origem disso em suas lembranças. Mas... É complicado. Ainda mais com você dormindo... Vou mostrar como sua mente se parece!
Stuff moveu a mão e tudo explodiu em sombras. Surgiram inúmeros corredores como o de uma enorme biblioteca, mas quando John encarou, os livros eram portas que na verdade pareciam espelhos. Esses espelhos estavam fragmentados e as imagens que refletiam dependiam do ângulo de que se olhava e eram como quadros de outros lugares e épocas. Tão confuso e sem nexo que quando ele parou para pensar direito, deixou de entender qualquer coisa no lugar. John também sentiu que algo espreitava na escuridão com uma agressividade que não era dirigida a ele.
- É mais fácil para você em vários sentidos - disse Stuff, nervoso. John notou que ele se posicionava discretamente a deixar John entre ele e a tal presença ameaçadora - Principalmente se você sabe o que procura.
Retornaram ao beco inicial e Stuff suspirou aliviado.
- Estava usando seus sonhos pra olhar tudo com calma - ele prosseguiu - Mas já que você está... “acordado”, podemos atalhar!
Ele tirou de dentro do manto uma pequena esfera negra e a estendeu para John. O caçador encarou de cenho franzido aquele objeto, imaginando o que diabos Stuff esperava que ele fizesse com aquilo. Stuff pendeu de leve a cabeça para o lado, confuso ante a indecisão de seu mestre.
- Eu faço eles falarem... - explicou John, pacientemente - por meio da dor, entende?
- Oh - Stuff parecia realmente surpreso - Hum - ele encarou a gema escura - Acho que eu posso... dar forma a isso…
Stuff rasgou uma tira de tecido de sua capa e a enrolou na orbe. Depois a jogou no meio da sala enquanto o objeto começava a emanar fumaça vermelha. John ouviu um soluçar e um murmúrio enquanto a fumaça se expandia e tomava a forma de um humanoide abraçado a si próprio, tremendo violentamente como que com frio. Então se viu de frente para um infernal com cara de bode, de uma familiaridade que lhe despertou uma leve irritação. Estava um pouco mais baixo e mais magro que quando o enfrentara na vila, subnutrido. O demônio olhou para John e escancarou os olhos ao ver Stuff. Este se curvou para a frente, sorrindo amavelmente e levantando o queixo do infernal com uma das mãos, desferindo-lhe um soco poderoso logo em seguida. O demônio ganiu, se estatelando no chão de barriga pra cima e a pele da bochecha rasgada.
- Isso é um pedido de desculpas... Por quebrarmos sua lança, lembra? - Stuff explicou, espanando sua roupa com as mãos e se virando para John - Todo seu, mestre.
- Hum. Suponho que, já que estamos na minha mente - John olhou as próprias mãos - não há limitações para o quanto posso ser criativo.
***
As construções mais altas da cidade-estado de Tordek já eram visíveis no horizonte da planície, de modo que não demoraria muito para que chegassem lá. Erika estava em um dilema: ao mesmo tempo que estava ansiosa com a vaga possibilidade de ter notícias de John, não estava nem um pouco animada em apresentar seus relatórios à Ordem... Sobretudo porque ainda não havia escrito nada sobre o leviathan. Por sorte já era noite e ela e Eddy chegaram a uma pousada de beira de estrada. Estava bastante movimentada, de modo que não conseguiram quartos e tiveram de se juntar a um grupo de tropeiros e acampar numa clareira ali perto.
Enquanto arrumavam suas coisas, Erika foi constantemente saudada por transeuntes e vizinhos de acampamento que lançavam uma rápida olhada no brasão da Ordem, na sela da égua de Erika, e uma mais demorada na bela jovem que alimentava o animal.
Eddy estava bem animado, apesar de tudo. Tentara imaginar quando e se seu chefe ordenaria que ele retornasse ao agrupamento. Percebeu que não se importaria nem um pouco se isso demorasse ou nunca acontecesse. Talvez, depois de entregar o que havia conseguido, eles dissessem para ele manter a história do mercenário doado à Ordem. Eddy não iria achar muito interessante se Erika resolvesse passá-lo diretamente para a Ordem, mas se tranquilizava por saber que podia simplesmente negar isso como a pessoa sob os direitos de Tordek que era.
Seu bom humor murchou quando um rosto familiar apareceu a distância. Olhos frios em um homem que discretamente fez sinal para que Eddy o seguisse, se perdendo para fora do limite de luz das fogueiras do acampamento.
- Eu já volto - ele disse a Erika.
A garota acenou em concordância e observou o companheiro de viagem, de repente sério, caminhar em direção a floresta.
Eddy foi para onde havia visto Charles se sentindo impotente como um cordeiro indo ao abate. Mas levantou o queixo e tentou se agarrar ao punhado de confiança que conseguiu juntar. Seguiu uma trilha até chegar a uma estrada medíocre com um poste de pedra cujo topo brilhava com signos esculpidos.
- Sentiu saudades? - perguntou Eddy, tentando afastar o nervosismo.
- O que descobriu? - Charles foi direto com sua carranca gelada habitual.
- Ela ficou chocada com a morte do amigo - ele deu de ombros - Provavelmente quer reunir a Ordem para encontrar o corpo.
- “Provavelmente”? - Charles franziu o cenho, irritado - Ela te disse isso?
- Não - Eddy respondeu de forma idiota - Mas é a única explicação! E aqui - ele tirou um envelope do bolso do colete - É o relatório para a Ordem. Deve estar tudo aqui.
- “Deve”... - suspirou, guardando os papéis dentro do colete - Está codificado, não está?
- Sim…
- Eu não esperava que conseguisse muita coisa. Não sei porque Lore nos fez perder tanto tempo nisso.
- O que… vamos fazer agora?
- Volte para lá e diga que vão ter que se apressar e chegar em Tordek ainda hoje.
- Como assim?
- Apenas faça o que eu disse. Espere uma uma hora antes de partir, eu vou esperar na estrada e montar…
- Espere, o quê? O que vai fazer a ela?
- Ela viu demais - ele disse muito baixo - Por que acha que você fez tudo isso?
- Ela não viu nada! Isso é ridículo! Por que ela…? - ele não conseguia entender por que eles poderiam querer fazer mal a Erika - O que ela poderia…? Ela é uma caçadora! Não faremos mal nenhum a ela.
Eddy cerrou a mão direita em um punho fechado, a pedra de Aliir em sua luva brilhou suavemente. Charles baixou a cabeça para ele, o encarando de cenho franzido como que sem acreditar que o rapaz estava desafiando suas ordens. O garoto sustentou o olhar do homem que ainda respeitava, seu peito queimando e aquilo lhe dando forças para suportar o gelo daqueles olhos.
- Lore vai te explicar tudo, garoto - Charles prometeu - Por ora, confie em mim. Pense nisso como seu maior teste para…
- Eu me recuso - Eddy mal conseguia conter a raiva - Não quero fazer mais parte disso. Não vou deixar vocês tocarem num fio de cabelo dela.
O jovem piromante deu três passos para trás, mantendo-se de frente para Charles, cuja carranca de irritação chegou a um ápice que Eddy jamais havia testemunhado. Já haviam duelado inúmeras vezes durante o duro treinamento que Lore havia exigido que Charles aplicasse ao garoto. Eddy nunca havia sequer chegado perto de uma vitória. Eddy observou seu adversário estralar o pescoço e um a um dos dedos da mão.
- Isso é uma traição grave - avisou Charles - Desista desse absurdo antes que se machuque. Eu não estou achando nenhuma graça, garoto.
- Não tem chance disso estar certo. Uma oficial da Ordem…
- Você vai entender quando a hora chegar.
Eddy se pôs a pensar. Já lutara tantas vezes com Charles, tinha de haver aprendido alguma coisa que o ajudasse ali. Com seu oponente sendo um aquamante com habilidades congelantes e Eddy sendo um usuário de fogo especializado em uma técnica de proximidade, a desvantagem era óbvia. Tudo o que Charles precisava era tocá-lo e a batalha estaria acabada. Desse modo, a única chance de Eddy ter alguma chance seria inutilizar a luva de conexões de Charles. Se danificasse a base onde a pedra de Aliir estava colocada ou até se a destruísse, Charles nada poderia fazer contra ele.
Charles levou a mão direita ao cantil de couro que carregava e o destampou. Fez movimentos complexos com a mão e a água serpenteou por seu braço. Ele tirou até a última gota, mais água do que ele usava durante o treinamento, não estava brincando. Seu braço congelou na forma de uma manopla até o ombro com pontas afiadas. Uma grossa camada de gelo cobriu a pedra de Aliir de Charles e para Eddy foi como um muro de concreto a barrar sua pequena chance de vitória. Teria de ser bastante criativo.
Por descargo de consciência, Eddy disparou uma flecha de fogo em Charles, que a defendeu usando sua armadura gelada. Charles girou em movimento de arremesso e uma lasca de gelo assoviou perto da orelha de Eddy. Ele sentiu uma gota quente de sangue escorrer no pescoço.
- Isso é pra você saber que posso te matar com um movimento - Charles apontou os dedos de gelo pontudos para Eddy - Essa é sua última chance de desistir.
- Vai pegar leve comigo? - Eddy sorriu em meio ao nervosismo e entrando em posição de ataque com as mãos erguidas.
Charles investiu, golpeando com a mão em pinça em movimentos de esgrima e finalizando com um corte em arco. Eddy desviou, recuando e esperando uma oportunidade. Não podia ceder uma única gota de sangue ou estaria acabado. Charles continuava estocando e Eddy se afastando, até que Eddy desviou para frente, pegando o outro de surpresa. Deu um soco na direção do tronco de Charles, que desviou facilmente do golpe, mas não da onda quente que envolveu o punho de Eddy. Eddy repetiu as investidas, sem conseguir acertar diretamente, mas agora fazendo o oponente literalmente suar. Quando finalmente conseguiu contato, esperava poder explodir o ponto de toque, mas Charles havia planejado aquilo e Eddy acertou o antebraço congelado. Sua mão congelou instantaneamente, o calor investido no soco superado em muito pelo congelamento. Antes que Eddy pudesse golpear com a outra mão, Charles o puxou por cima de si, o derrubando no chão com o braço preso ao braço congelado e o imobilizando com o rosto no chão.
- Manto infernal - ele gritou e fagulhas surgiram a partir de seu pescoço.
- Lamento infinito - disse Charles.
Um gêiser rompeu a terra acertando Eddy no meio da cara. Ele gritou, com a dor e o afogamento, enquanto a mão congelada forçou sua cabeça a receber todo a água. Charles soltou Eddy e se afastou, observando o rapaz tossir e cuspir. Eddy se levantou pesadamente e olhou para Charles, seu coração acelerou quando viu a garra congelada coberta com seu sangue. Tocou atrás da cabeça e sentiu o sangue quente com terror. Charles desfez a garra de água, retornando-a ao cantil, resultando na mão cheia de sangue.
- Só precisava de uma gota, garoto - disse Charles.
Eddy cerrou a própria mão também suja do próprio sangue.
- Não precisa fazer isso - Eddy suplicou - Por favor.
- Não temos escolha - Charles mostrou sua mão - Você tem menos que eu. Ela deve morrer e você vai ajudar.
- É melhor acabar com isso aqui e agora - Eddy cuspiu - Já disse que estou fora.
Charles o encarou, incrédulo. Deu de ombros.
- Como quiser - ele cerrou a própria mão - Farei rápido. Zero Absoluto.
- Quantum Ignite! - Eddy gritou, ao sentir os lábios gelados.
De um instante para o outro a mão de Charles entrou em combustão e explodiu poderosamente em chamas. O jogou ambos em direções opostas. Eddy chorou e se contorceu de dor, usando o resquício de energia espiritual para impedir que o sangue em suas veias queimasse. Ele riu, mais apavorado com a ideia absurda do que feliz. Aproveitando da magia de congelamento de Charles ele pôde usar ignição associada usando seu próprio sangue como base. Usara uma quantidade absurda de energia para compensar a falta de inflamabilidade e torcia que houvesse suficiente para evitar a própria combustão.
Ele fez força para se levantar e se pôr de joelhos, cada centímetro de seu corpo ardendo. Antes que pudesse sequer estabilizar sua temperatura, Eddy vislumbrou Charles dar passos dolorosos em sua direção. Seu lado direito estava carbonizado, do joelho até a maçã do rosto. Eddy não tinha mais forças pra se mover e tudo o que podia fazer era manter a temperatura. A pele do rosto de Charles rachou e caiu, mostrando dentes em um sorriso aterrador. Ele havia se protegido em última instância congelando a própria pele, apesar de que só o cotoco cauterizado houvesse restado da mão de evocação.
- Você... - Charles murmurou entredentes - ... morre... aqui...
Charles puxou uma machete da parte traseira do cinto. Eddy não tinha forças para mais nada. Percebeu que sorria. Pelo menos havia protegido Erika. Baixou a cabeça ante seu executor, que erguia a arma para o golpe. Mas antes que isso acontecesse, uma borboleta de luz pousou na mão de Charles. Ele gritou um raio a acertou, fazendo-o voar para trás com a tensão dos músculos.
Eddy observou Charles se estatelar inconsciente e em seguida inúmeras borboletas preencheram a volta, iluminando o que a luz do poste não cobria. Erika entrou na sua visão. A garota olhava para ele com olhos raivosos e desconfiados. Olhos que fizeram Eddy desviar o olhar para o pequeno animal luminoso.
- Desse jeito, parece que eu sou o vilão aqui - murmurou ele.
- Eu ouvi tudo - disse ela - Vou levar os dois para Ordem. Tem muito o que explicar.
- Que coisa, Erika - ele murmurou - Não sabe que é feio espiar a conversa dos outros?
- Me entregue a luva - ela disse, friamente.
Guardas da milícia de Tordek e curiosos começaram a aparecer. Todos evitavam entrar na área em que cerca de 20 borboletas luminosas circulavam. No centro, Eddy olhou para a pedra de Aliir em sua luva. Sem ela ele tinha certeza de que morreria, e não era por causa da temperatura agora estabilizada. Tirou-a e a entregou para Erika.

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