A primeira coisa que sentiu foi a dor. Suas pernas latejavam e se retesavam em agonia. Demorou alguns instantes para perceber que aquela dor lhe pertencia, encravada em seu ser. Estava de bruços, respirando tremulamente e com o rosto enfiado na grama dura. Notou uma dor surda nos dentes e mandíbula. Tentou se mover e a dor nas pernas explodiu, como se milhares de cacos de vidro rasgassem sua pele. John arrastou-se para perto de uma árvore e deu uma olhada em si, sentando-se com as costas escoradas. Vestia uma confusão de retalhos com inúmeras manchas escuras, que percebeu serem os restos de seu sobretudo. Sua calça estava bastante puída e manchada de sangue seco. Rangendo os dentes, ele tirou o cinto onde a bainha de uma única de suas espadas estava pendurada, jogando para o lado, e baixou as calças com cuidado. Esperava encontrar inúmeros insetos a bicarem-lhe, mas o que viu fez John soltar uma bufada de terror: suas pernas estavam enroladas apertado com metros e mais metros de arame farpado. Viu o brilho prateado do metal de suas setas e temeu por um segundo que também estivessem cravadas na carne, mas elas haviam sido colocadas de modo a unir o trançado do arame. Ele supos que, se puxasse-as, conseguiria desamarrar as pernas com mais facilidade.
Então você acordou mesmo, disse uma voz em sua cabeça.
Não há razão para temer, Solo.
- Quem é você? - ele perguntou para a floresta.
Eu estive pensando nisso por um bom tempo… Vasculhei sua mente atrás da resposta e não descobri nada. Então eu desisti disso e estive cuidando de você nesse tempo.
- Por que…? - encarou suas pernas sodomizadas.
Ah haha! Isso? Desculpe, você é uma pessoa muito interessante, sabe? Sua mente é... quebrada. É fantástico!
- O que...? Que diabos…?
Como posso dizer? Eu assumi o controle quando você simplesmente flutuou para longe. Hahaha. Mas você estava retornando aos poucos e... Bem, não leve para o lado pessoal, mas eu tentei impedir. Pensei que você havia se afastado por causa da dor... Então tentei reproduzir, mas não funcionou.
John se lembrou.
- Você… - afastou o tecido do peito e viu o colar dourado com a pedra verde.
Ah, sim. Olha eu aí. Antes de qualquer coisa, que tal nos livrarmos da dor? Agora que sabemos que é inútil...
John olhou para os ferimentos e ficou um pouco enjoado pensando no terror infeccionado que aqueles cortes poderiam se tornar.
He. Apenas tire as setas, vou mostrar um truque que você vai gostar.
Resolveu confiar na voz, afinal, não tinha muitas alternativas, e começou a puxar as setas pelas argolas. Os cortes enegreceram e fecharam quando ele se livrou do arame, em segundos suas pernas estavam novas em folha e a dor sumira.
- Caramba…
Ele olhou para a tatuagem na lateral da coxa esquerda, uma adaga negra símbolo da irmandade. Continuava intacta, apesar de antes ter sido fatiada. John cogitou ter testemunhado alguma magia curativa de alto nível, do tipo que ele nunca tivera acesso. Também não pode evitar de pensar nas vezes que aquilo teria sido de grande ajuda. Então lembrou de Erika e olhou em volta de sobressalto. Estava no meio de uma floresta desconhecida, cercado de nada familiar.
Foi muita sorte você me encontrar. Um leviathan com aquele domínio de trevas. Ele teria te paralisado no primeiro golpe se não estivesse me usando. Sangraria até a morte como tantos outros antes de você.
- E Erika? - sentia um vazio no peito ao lembrar da amiga.
Ah! Uma pena, eu sinto muito. Era uma mulher tão bonita, não merecia morrer daquela maneira.
- Por que...? - John segurou o amuleto apertando forte - Você não podia… Não tinha como salvá-la?
Oh! Eu não tinha pensado nisso! Acho que podia! Você tem boas ideias, sabe? Se tivesse dito na hora... Ah, mas você estava desmoronando de medo, não é? Se escondendo de baixo de toneladas de suas lembranças enquanto ela agonizava. É uma pena.
Sua visão turvou e sua respiração estava acelerada. Vislumbrou Erika caída. O sangue... Sentiu sua mente flutuar, a consciência escapando. Mas dessa vez ele substituiu o terror pelo ódio. Agarrou o amuleto e fez menção de tirá-lo, mas não conseguiu completar o movimento.
- Pensei que eu tinha o controle agora… - disse John, sentindo a raiva ser varrida por outra onda de tranquilidade.
E que tal um pouco de agradecimento? Era tarde demais para sua amiga, mas eu salvei sua vida! Haha! Quão fácil você acha que é matar um leviathan?
- Foi você que me atrapalhou! - John tentou remover o amuleto novamente, sentiu-se imensamente impotente - Se não fosse você…! - disse com a voz tremula - Se você não tivesse…! Eu tenho que te entregar para a Ordem!
Não lembro de ter pedido para ser usado... Sem mim, você estaria apodrecendo numa caverna esquecida. Perdendo a sanidade dentro de um demônio. Bem... Faça o que quiser. Talvez nessa “Ordem” haja alguém que reconheça meu potencial.
O braço de John voltou ao seu controle e ele conseguiu tirar o artefato. Sua mente pareceu ficar leve, mas logo em seguida seu corpo reclamou de inúmeras pequenas dores. A pior foi a fome que lhe abateu, seguida pelo cansaço. Ele não estava carregando nenhum de seus pertences além da roupa e armas, e estava perdido na mata.
Levantou com esforço e vestiu a calça, chutando o arame farpado ensanguentado e recolhendo suas setas. Guardou o amuleto o mais longe de si que algo pendurado em seu cinto poderia ficar e rumou para um morro próximo, com a intenção de encontrar um caminho de volta à civilização. Avistou o que parecia ser uma pequena cidade na base de uma encosta, atravessando a floresta, e trilhou para lá. Conseguiria informações para poder decidir se era mais fácil voltar à cidade de Carpa de Pedra ou seguir diretamente a Tordek. Usou o tempo para remoer todos os erros que cometera. Todas as coisas que teria evitado se não tivesse sido tão arrogante. Inúmeras formas de ter impedido a morte da amiga. Estava desprotegido sem uma pedra de Aliir, quem sabe o quão longe de uma confiável, mas percebeu que não se importava muito com isso. Perdera tanto durante a vida e estava cansado. Tremendamente cansado.
***
Chegariam a Tordek dali a dois dias e Eddy conseguira arrancar pouca coisa de Erika. Chegou a perguntar diretamente se ela tinha alguma ideia se Solomon continuava vivo, mas a insistência dele a havia irritado, de modo que ela mandou ele parar de perguntar sobre aquilo. Pisando duro, Erika se afastou do acampamento para fazer suas necessidades fora da visão do companheiro. Eddy sorriu ao ver que os batedores não estavam mais ali, teria cerca de dez minutos antes dela retornar. Se pôs a vasculhar a mochila da garota, sob o olhar de reprovação da égua dela. Sorriu para o animal, ao encontrar um envelope sem lacre. Dentro estavam algumas folhas dobradas e codificadas. Com o coração acelerado de excitação, pegou suas próprias folhas em branco e catou a caneta de Erika. Encontrou um lugar limpo e depositou as folhas usadas em pares com as em branco, unindo-as de forma que a escrita de uma estivesse virada para o branco da nova. Pingou um pouco de tinta da caneta em seu indicador e comprimiu a gota de leve com o dedão. Respirou lentamente, havia pouco tempo e tinha que ser extremamente cuidadoso. Depois de uns instantes ele limpou a tinta da mão e recolheu as folhas, deixando as de Erika do jeito que estavam no envelope e o devolvendo à mochila. Avistou Erika retornando da floresta e se apressou em recolher as transcrições. Havia esquentado a tinta em sua mão, associando à tinta seca por meio de sua evocação de modo a sublimá-la e marcar o papel novo. Estavam bem fracas, mas legíveis.
- Desculpe. Eu não quis ser rude… - disse Erika, olhando Eddy reunir algumas folhas e guardar em sua própria mochila com cara de quem estava aprontando.
- Ah, tudo bem - Eddy fazia os movimentos tentando, sem sucesso, parecer despreocupado.
- Além de tudo - ela disse em tom de provocação - É um poeta?
- Hum - fez ele, como se tivesse se sentido ofendido - Estava pensando em algumas receitas - sorriu para ela - Achei que seria mais efetivo como pedido de desculpas do que um poema, mas se preferir…
- Ah, não! - ela riu - Um bom café da manhã já está ótimo!
- Como preferir, milady - seu sangue gelou, ao perceber que ainda estava com a caneta de Erika na mão.
- Mas não se preocupe com desculpas - ela continuou, alheia àquilo e recolhendo seu saco de dormir - Sobre John… Eu mesmo não estou entendendo direito. Em Tordek… Quando eu tiver certeza do que…
Ela voltou a arrumar distraidamente suas coisas. Em Tordek, Eddy pensou, imaginando explicações que não parecessem suspeitas para ele ter pego a caneta dela, pode ser tarde demais pra mim. Nada que pudesse dizer explicaria a rudeza de pegar algo da mochila dela, então resolveu esperar um novo momento de distração. Tratou de fazer o melhor lanche matinal possível para ela, envolvendo seu último e precioso ovo vermelho, uma maçã e pimenta. Preparou aquele desjejum simples, mas de aparência final requintada, em parte para amenizar o clima entre eles, em parte pela culpa e em suma… porque ele queria.
***
A noite já havia caído e a cidade que tinha avistado parecia não chegar nunca. Parou de se embrenhar por arbustos e galhos sob a luz do luar para vomitar um líquido muito preto de gosto metálico. Controlou o pavor da possibilidade de ser alguma hemorragia violenta, mas ao se livrar daquilo passou a se sentir um pouco melhor. Ainda faminto, ele retomou a caminhada por mais algumas horas, até que pôde vislumbrar a cidade para a qual rumava, do outro lado de um rio. Era bem pequena, com uma duzia de largas choupanas rústicas de madeira e um moinho d’água, em estado deplorável, girando preguiçosamente num riacho fundo o suficiente para que ele precisasse nadar para atravessar. Somando os fatos de que estava escuro e ele não sabia o que poderia haver na água, John decidiu procurar uma forma alternativa de atravessar. Encontrou mais abaixo, descendo o rio para a direita de onde estava, escombros de uma ponte de pedra que algum dia fora construída ali. Um caminho difícil que ele se obrigou a trilhar.
Aproximou-se do vilarejo com cautela. Não fossem as tochas em cada casa que iluminavam uma espécie de praça no centro, ele teria julgado que era um lugar abandonado. Sentiu-se observado ao entrar no limite das construções e temeu ter encontrado um acampamento de bandidos. Apertou os cantos da boca com palma da mão, sentindo a barba por fazer espetá-lo. Um murmúrio de vozes e sons de pessoas acordando e conversando soou e gente maltrapida surgiu, bisbilhotando o visitante. John viu inúmeras tonalidades de cabelos ruivos, pertencentes à homens, mulheres e crianças. Gesticulavam e cochichavam, sem chegar muito perto. Muitos tinham uma expressão triste e outros pareciam cansados, nenhum demonstrava medo, mas os olhares curiosos e insistentes à espada que John prendera nas costas o deixavam nervoso. Havia rasgado o resto das mangas do sobretudo e tivera o cuidado de embrulhá-la, antes de entrar na vila. Era uma espada visualmente cara demais para um andarilho esfarrapado e não queria que o tomassem por um ladrão.
- Como veio parar aqui? - disse uma mulher de cabelos loiros escuros e com tons grisalhos que se destacou do resto das pessoas e se aproximou, seguida de uma versão bem mais velha dela mesma.
- Eu estava caçando com alguns companheiros e as coisas ficaram complicadas - mentiu John, virando-se para a mulher - Acordei no meio da floresta em mal estado e completamente perdido, que lugar é esse?
- Ah, ele não usou a estrada - ela olhou para a outra mulher.
As pessoas conversavam entre si, como se o fato dele ter vindo pela floresta fosse a explicação para todas as suas dúvidas. Algumas haviam desanimado, outras franziram o cenho e suspiraram.
- Que lugar é esse? - ele quis saber - Qual o problema da estrada?
- Tss - fez a mais velha - Ponte Alva. Você é muito sortudo e muito azarado.
- Desculpe, eu nunca ouvi falar - John olhou em volta enquanto as pessoas voltavam para suas casas - É território Tordek?
- Acho que sim - a mulher mais nova indicou uma cadeia de montanhas - Se seguir a estrada até depois da montanha vai ver o final de Vale Rochoso. É onde por onde viemos.
- Oh - John entendeu - Vocês são refugiados de Bahamn.
Aquele amuleto maldito o havia feito andar até a beirada do mapa de Tordek. Que droga, ele pensou. Pra onde diabos estava indo?
- Fugimos da guerra em Bahamn e caímos no inferno - a velha disse com a expressão enfurecida - Agora somos pouco mais que gado.
- Do que estão falando?
- Isso não foi feito por demônios? - a mais nova questionou, puxando um dos rasgos na roupa de John - Eles vigiam a estrada nas duas direções. Agora que chegou aqui, não tem como não encontrar um deles.
- Aparecem de vez em quando - completou a velha - Nos dão comida o bastante para não morrermos de fome. Trazem e levam pessoas como bem entendem.
John sentia a dor minguar um pouco enquanto ouvia, substituída pelo queimar de um ódio enraizado havia muito tempo em seu peito. Demônios agindo daquela forma organizada... Sem dúvidas eram um grupo de infernais espertos.
- Por que não fogem? - ele perguntou, apesar de imaginar a resposta.
- Tss - disse a velha - Se você for pego fugindo vai ter sorte se tiver a perna quebrada. Se eles estão entediados, jogam alguém ao acaso no rio para os peixes dentados.
John percebeu que daria todos os bens que adquirira na vida por uma pedra de Aliir naquele momento. Se tivesse uma, não importariam os números de inimigos. Mas sem sua evocação era arriscado enfrentar até o mais patético infernal. John viu a mulher mais jovem encarar a entrada da vila e depois arregalar os olhos de espanto, puxou a mais velha e se afastou pedindo desculpas a John. Ele não precisou se virar. Sabia o que, de repente, se ver solitário na pequena praça significava. Ouviu passos atrás de si e pôs as mãos nos bolsos, esperando, sem se virar.
- Eh? - fez um dos infernais - Que mal educado! Cruzou nossa ponte sem nem pedir licença. Tivemos que fazer o caminho todo pra cobrar satisfação!
- Foi você que disse que ele iria cair e não fez nada - disse o outro - Ei! O que você tem aí? Não permitimos armas aqui!
John virou para eles e sorriu confiante. Haviam três demônios que franziram o cenho ante a atitude dele. Ambos os que haviam falado eram infernais e tinham pouco mais de dois metros de altura, possuíam rostos finos com chifres que os assemelhavam à bodes. Usavam armaduras leves de couro e brandiam lanças com ponta de metal. O outro era quase tão alto quanto qualquer casebre e condizentemente largo, munido de um escudo de madeira cravejado de estacas pontudas, um insectóide de cabeça pequena e corpo de besouro. Dois infernais e um insectal. Nem sequer tinha sua luva com a pedra de Aliir, que mesmo quebrada poderia ajudar em uma encenação. A velha tinha razão ao dizer que ele era muito azarado.
- Boa noite, cavalheiros - ele os cumprimentou, teria que arranjar algum modo de superar aquilo na base do puro blefe - Eu estava me perguntando quando vocês iriam aparecer, achei que ia ter que revirar a floresta.
Um dos lanceiros fazia uma careta, como que tentando entender como aquele humano seria tolo o bastante para falar daquela maneira com eles, enquanto o outro encarava John com leve assombro. Esse cutucou o primeiro, que levantou o cenho pra ele.
- O cabelo preto! Os olhos! - disse, apontando para John - Esse merdinha é Solomon Seward!
- Eh? - agora a careta era para o companheiro - Não fala merda! Olha pra ele! Parece um mendigo! Nem fodendo que é o Seward - cuspiu e depois encarou o homem à sua frente - No mínimo deve ser um daqueles imitadores. O que foi? Resolveu mendigar pra esse lado e se perdeu?
- Quase isso - John precisava imediatamente de uma rota de fuga - Eu tive uma luta difícil com um leviathan, vocês acreditam? Acabei levando a pior e vim parar aqui.
- Nahaha! - riu o infernal cético - Vamos levar ele pro chefe! Uma vez ele disse que colocaria Seward numa coleira, lembra? - deu um tapa no braço do outro - Falso ou não, ele vai adorar!
John pegou sua espada quando os dois lanceiros deram um passo em sua direção. Pelo menos o grandão vai ficar de fora, ele pensou. Afastou o tecido e desembainhou a arma por cima do ombro. A espada brilhou na luz das tochas, enquanto ele avaliava seus oponentes. Ela parecia tão pesada. Na verdade, todo seu corpo parecia mais pesado e lento em comparação a quando usava sua agilidade de aeromante. Ele suspirou e se concentrou no perigo à frente. O demônio falastrão girava sua lança habilmente para se mostrar, claramente subestimando o caçador, enquanto seu parceiro movia-se levemente temeroso. Os dois cercaram John por cada lado, se aproximando e, previsivelmente, o lanceiro animado foi o primeiro a atacar. John puxou do bolso uma de suas setas e girou-a no dedo médio da mão esquerda.
- Isso é…! - se espantou o infernal, reconhecendo o metal sagrado. John arremessou o objeto ao rosto do demônio, que o desviou facilmente com um golpe da lança - Lento! Agh! - o infernal gritou, levando a mão a segurar o corte logo abaixo da orelha.
Sem poder usar sua evocação, aquelas setas seria tão úteis contra eles quanto palitos de dente. Mas eles não sabiam de sua limitação e John se aproveitou disso ao máximo, fazendo o infernal abrir a guarda para se defender da seta, desferindo uma estocada e causando um ferimento superficial.
Enquanto o outro olhava atônito para o companheiro, John usou o movimento queda para dar uma cambalhota na direção do insectal com o escudo, que deu um passo atrás, assustado por ele correr para cima dele. O imenso insectal segurou o escudo, temendo um ataque do caçador, mas John fez uma curva oblíqua e disparou pelo lado do demônio, embainhando a espada. O grandalhão observou o homem se afastar da cidade em direção à ponte mexendo as mandíbulas de pinça, confuso.
- Merda! - o lanceiro ferido gritou para o maior - Ele está fugindo, idiota!
John corria o mais rápido que pode com o coração acelerado. Iria atravessar saltando as pedras por sobre o lago usando a velocidade como equilíbrio, torcendo para que, uma vez que já havia gasto seu azar, pudesse contar com um pouco de sorte. Mas, faltando cinco metros para a margem do riacho, sua panturrilha esquerda explodiu em dor. Ele cambaleou e a lança que trespassara sua perna bateu no chão e rompeu carne afora, deixando um buraco. John viu o mundo girar, pressionando a ferida, e ouviu um assovio quando outra lança perfurou sua fronte por entre as costelas. Ele respirava com dificuldade enquanto ouvia risadas e chacotas dos infernais. Tremendo de dor, John encarou o céu de nuvens finas e deu um sorriso para o fraco brilho da lua.
- Eu disse… que não conseguiria ver as estrelas,… pirralha... - murmurou, sentindo gosto de ferro no fundo da garganta. Então lembrou do amuleto. Sentou-se com dificuldade, desamarrando o objeto do cinto e o pendurando no pescoço - Vamos ver esse seu maldito potencial...
Por um segundo tudo o que pode ouvir foi o cricrilar de um grilo.
Aah! Merda! Que dor! Um grito de desespero ecoou em sua cabeça. Seu idiota! Idiota! Idiota! Onde está? O que fez com meu sangue? John caiu para o lado e percebeu sua mão tentando arrastá-lo para longe.
- O que…? - John observou os demônios se aproximarem - O que está fazendo?! Me cure!
Rápido! Levante e fuja! Ah! Isso dói tanto! A voz em sua mente choramingou, suas pernas se moveram e ele se levantou, caminhando com dificuldade. Temos que fugir!
- Do que está falando? Por que não me cura? - John insistiu, cerrando os dentes com a dor.
Eu não acredito! Você vomitou tudo? Seu idiota! Ele ouviu risadas e passos pesados. John olhou e viu pontas de estaca o acertarem de todos os lados. Com o impacto do escudo do infernal, a lança em sua barriga se quebrou e John rolou para longe. Idiota! Idiota! Ouvia em sua mente. Como vou curá-lo sem meu sangue? Seu lábio estava rasgado e ele cuspiu sangue ao se levantar, olhou na direção dos casebres, onde moradores espiavam pelas janelas. Isso! Solo! Você tem que me salvar! Eu preciso de outra pessoa! Deu um passo dolorido na direção da vila, quando um dos infernais acertou seu rosto com a lança quebrada, partindo-a com a força e o fazendo cair.
- Onde pensa que vai? - disse o infernal com o ferimento no pescoço - Desgraçado! Quebrou minha lança duas vezes. Hahaha!
John caíra de bruços e tentava se levantar, a face ardendo pelo golpe parecendo dobrar de tamanho, quando o demônio o levantou pela bainha da espada e o jogou na margem do riacho.
- Vamos ver se os peixes gostam de você - disse o infernal - Eh?
Ele ergueu o sobrolho ao ouvir o caçador dar uma risada de escárnio. John se virou, ainda deitado, para encarar o demônio com um olho entreaberto pelo inchaço no rosto ensanguentado.
- Vocês... nunca vão saber... - disse ele com dificuldade e a voz rouca - onde eu escondi ela.
- Eh? - fez o infernal - Do que está falando.
John recostou a cabeça no chão e fechou os olhos. Continuou murmurando, mas falava baixo demais pra que eles o entendessem. O demônio o agarrou pela roupa e o ergueu com facilidade na altura de sua cabeça. O homem pendia a cabeça para frente e ele podia ver seus lábios se moverem ao formar palavras fracas.
- Eu não entendo, seu merdinha! - disse o lanceiro, e aproximou-o de sua orelha.
Com um espasmo, agarrou a cabeça do infernal e puxou-a para perto. O demônio deu um urro agudo, ao sentir o caçador cravar seus dentes em seu pescoço. Tentou empurrá-lo para longe e John fechou a mandíbula. Eles embolaram no chão e o caçador foi atirado para longe. Os outros dois demônios foram em auxilio do ferido que esperneava e gritava, tentando estancar o sangramento. O outro lanceiro deu uma olhada na direção de John e viu o vulto do homem estirado no chão. Na mente de John, gargalhadas ecoavam. Genial! Genial!
- Espero que seja o suficiente - John sentia o sangue escuro que o sujara sua fronte correr de seu rosto até seus ferimentos - Eles não vão cair nessa de novo…
Ele sentiu as dores afastarem-se lentamente e se pôs de pé, encarando o demônio maior brandir seu escudo e correr em sua direção. Não conseguiu ver sua espada na pouca luz e sentiu algo forçar pele afora de sua barriga. John puxou o pedaço de lança pelo cabo que se projetava através da roupa e depois girou-o na mão, calculando seu peso. Tinha por volta de trinta centímetros com a ponta pesada. O insectal golpeou John com o escudo, abrindo a guarda. O caçador desviou minimamente, com um salto para trás, e depois se aproximou, cravando a lança dentro da pequena boca de besouro, usando a habilidade Projétil Amplificado para acelerá-lo com um estampido. Saiu do caminho do enorme corpo que caiu e voltou a procurar sua espada.
- M-maldito…! - murmurou o lanceiro cujo pescoço parara de sangrar, sendo erguido pelo outro.
Sem sucesso na busca, John lembrou de suas setas, tirando duas dos bolsos. Com sorte ele poderia incapacitar os dois. Mas quando girou-as pelas argolas, reunindo energia para outra evocação, teve uma dor atrás da testa, entre os olhos. Sua visão turvou e ele cambaleou.
- Ugh - fez ele, irritado - No que gastou minha energia?
Tirando os ferimentos... Atrito Nulo. É uma habilidade muito divertida, sabia? Além de muito útil! Eu estive correndo bastante nesses dias para testar.
- Não se usa isso até o esgotamento! O que faria se encontrasse um monstro? E se eu morresse?!
Ah, mas você ia acordar... Eu pensei que tendo pouca energia poderíamos conversar melhor. Haha... Desculpe.
- Mas que merda!
Os lanceiros observaram o caçador falar sozinho e se entreolharam, confusos. O ferido tomou a lança do outro e correu para atacar furiosamente. O infernal tentou empalar o caçador e o acertou na barriga, erguendo-o no ar. John fitou o demônio na outra ponta da lança arregalar os olhos para ele, então percebeu que havia segurado o cabo de modo a não ser perfurado. Antes que pudesse atribuir o salvamento ao amuleto, o lanceiro desvencilhou o homem da arma, fazendo-o rolar para longe.
- Eu preciso achar minha espada - murmurou John ao se levantar, a escuridão lhe dizendo coisas confusas quando tentava sondá-la em meio a irritante dor que a pouca energia espiritual trazia.
Hum... Ela ainda está na bainha... nas suas costas. John suspirou. Estava cansado demais e seus pensamentos estavam muito poluídos. Desembainhou a espada e se preparou para a nova investida do lanceiro. Acho que consigo ajudar. John percebeu sua mão esquerda perder a sensibilidade e os dedos ficarem ligeiramente pontudos. Vamos acabar com isso rápido.
O outro infernal se uniu ao primeiro munido de uma adaga e os dois atacaram ao mesmo tempo. John contra-atacou, indo para cima do demônio que lhe deu um golpe descendente de lança. O caçador se defendeu, partindo a arma com a mão esquerda e enterrando a espada entre o peito e o pescoço do demônio, que fez um ruído engasgado. Sua força falhou ao tentar retirar a lâmina e viu o outro infernal tentar acertá-lo com a faca. Sentiu palma a mão esquerda ser perfurada e cravou unhas pontudas na mão do infernal, segurando-o. A dor lhe ajudou a puxar a espada e ele abriu um corte no lado da cabeça do demônio, que soltou um ganido e cambaleou. Em seguida, John torceu o braço do infernal, não tendo tempo para se impressionar com a própria força, e acertou outra espadada raivosa, de baixo para cima, fazendo o infernal cair para trás sem metade do braço. Então, deu o golpe de misericórdia no peito da criatura. John afastou-se alguns passos, respirando forte, e observou os corpos.
- Por Tesluh… - disse, perplexo, pensando que algum deles estaria evocando chamas.
Mas viu o corpo do maior dos demônios emanar uma luz que não iluminava a grama por sobre a qual estava caído, quase como pegando fogo. Inúmeras pequenas esferas brilhantes azuis e amarelas flutuaram ao ar noturno se desprendendo da estranha combustão do insectal, assim como uma densa fumaça que permeava entre elas. Via tanto as luzes quanto a névoa escura mesmo contra o negrume da noite. Ah, disse a voz, resquícios de mente. Você nunca os viu, não é?
- O que?
Quando matamos o leviathan na caverna aconteceu a mesma coisa. As luzes são muito frágeis e eu não consegui usá-las direito. Delicadas demais para mim. Hahaha! Mas a fumaça é muito interessante. É uma mente quase completa... Apesar de também ser frágil.
- Almas! - John compreendeu - São almas! Mas como eu consigo vê-las? Sou um mortal...
Suponho que seja por minha causa... Almas, não é? Interessante.
Ele andou até as esferas e cutucou uma ao acaso. Seu dedo atravessou a luz.
Hehehe. Se quiser tocar, posso ajudar. A ponta do dedo projetou-se e a sensibilidade baixou, novamente. Sentiu-a morna e macia, apesar disso, como se tocasse a pele de um bebê. Pelo que eu entendi, as azuis são humanos. Sua mão se moveu por si só, controlada pelo amuleto, e apontou a mão em garra para a fumaça, que se condensou em único ponto em frente a palma. John ouviu um murmurio e olhou a esfera negra de perto.
- Essa é uma alma de demônio? - ele espantou-se.
Acho que sim. Eu posso roubar informações delas. Vamos caçar o chefe deles, não é? Olhou em volta. O mesmo fenômeno ocorria nos demais corpos. Não sei se a… alma vai aguentar. Vamos pegar as outras para garantir, sim? John tentava assimilar a informação.
- Você pode... destruí-las? - o caçador quis saber.
Oh hoho. Parece que alguém ficou interessado. Sim. Por isso disse que são resquícios. Explorar uma mente dessas acaba destruindo sua existência.
O amuleto absorveu cada uma das almas negras e John fraquejou sobre o joelho. Estava exausto. Viu pessoas se aproximarem com tochas, cautelosamente avaliando a situação. Algumas festejaram, enquanto outras pareceram preocupadas, provavelmente com uma possível retaliação do resto dos demônios. Assim, carregaram sua esperança de liberdade de volta ao vilarejo e jogaram os demônios no riacho.
- Eu sabia! Eu sabia! - disse um dos homens que o carregava - Eu disse que era Solomon Seward!
- Acho que me convenceu de seu potencial - John murmurou para si mesmo - Você tem um nome?
Como eu já disse, eu não faço ideia... Mas se quer me chamar de algo... Hm... Pode me chamar de Stuff. Prevejo o começo de um belo relacionamento, Mestre. A última palavra saiu sem nenhuma pinta de escárnio ou brincadeira. John quase acreditou que aquele amuleto de poder assustador o reconhecia como mestre. Quase.

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