História completa (publicada) aqui
Se precisasse de uma palavra para resumir a situação, "tédio" seria a que mais se enquadraria. Estava preso àquela hospedaria já haviam quase dois dias. Charles dissera que a garota não corria perigo, mas Eddy tivera de ajudar a controlar sua febre duas vezes no tempo em que esteve de vigia. Não que fosse muito difícil a um piromante regular a temperatura de um corpo, ou muito desagradável para isso ter de tocar aquela jovem , mas ele sentia-se levemente abandonado. Os outros haviam recolhido o cristal e partido, enquanto ele fora deixado de babá.
Estava atirado em um sofá de dois lugares observando a garota dormir. "Não desgrude dela" fora uma das instruções do capitão. Tinha de esperar ela acordar e descobrir tudo que pudesse sobre o que ela havia visto, só então estaria autorizado a retornar à base. Expirou com irritação. Recostou-se, elevando os pés para a guarda do sofá, os dedos da mão direita entrelaçados com a franja, enquanto a outra mão acomodava a nuca. Fitou o teto por um tempo, mas sua atenção vagou distraidamente para a garota. O rosto delicado, olhos grandes e cabelo volumoso loiro, tudo parecia em perfeita harmonia, exercendo com minúcia o objetivo de torná-la bela. Observou o volume do peito tapado pela coberta subir e descer com sua respiração. Lembrou de quando ajudou Charles a examiná-la. Pela quantidade de sangue e o buraco na camisa, o aquamante receara que Eddy tivesse de fazer uma cauterização. Mas o ferimento estava longe de ser grave, de modo que não havia muito o que poderiam ou precisavam fazer. Sua lembrança resvalou para o par de seios que vislumbrou. A pele alva, a curva impecável, aureolas delicadas e tão claras, quase da mesma cor da pele. Foi a visão mais encantadora que tivera em muito tempo, constatou. Uma visão tão pura e ao mesmo tempo tão sensual que lhe fizera lembrar da deusa do fogo.
- Perfeitos - disse em meia voz, para enfatizar.
A garota murmurou, como que em resposta. Remexeu-se e abriu os olhos. Duas esmeraldas percrustaram o teto. Ela piscou duas vezes, depois sentou de sobressalto.
- Ugh - ela fez, levando a mão à testa.
Sondou o quarto, pousando os olhos assustados em Eddy, que não se movera da posição de relaxamento original, perplexo.
- O que...? - ela olhou em volta novamente.
Eddy se pôs de pé, lhe dando um sorriso inofensivo.
- Olá! - disse ele, tentando parecer o menos pervertido ou ameaçador possível - Eu sou Eddy, se lembra? Nos encontramos na entrada da mina aquela vez.
Ela o encarou, confusa, depois acenou com a cabeça.
- Onde está o John? - perguntou, de repente aflita.
- Solomon? - deu de ombros - Te encontramos sozinha. Lembra o que aconteceu?
Ela pensou, o olhar perdido em suas cobertas.
- Um demônio. Um Leviathan de Classe Dois - olhou para Eddy - Ah, desculpe. Não sei se isso faz sentido pra você.
Na verdade, fazia tanto sentido que ele teve de se segurar para não retrucá-la. Uma luminomante boboca sairia de uma luta contra um categoria dois com mais do que um simples arranhão, ele pensou, estando na companhia que estivesse. O monstro havia sido espancado como se não fosse mais que uma lagartixa gigante, por que a representante de Tesluh a teria considerado como classe dois? E o que ela diria sobre seu conhecimento nas nomenclaturas da Ordem? Ele preferiu não arriscar.
- Confio na sua palavra - sorriu - Leviathan, então - assentiu com a cabeça - Ele estava lá também, no chão, nas paredes... - sorriu à cara de espanto que ela montou devagar, levou a mão ao queixo, como que pensativo - Hum... Acho que vi um pouco no teto também...
Ela desviou o olhar. As cobertas deviam ter alguma propriedade distrativa, ele supôs.
- Você sabe o que aconteceu? - ele insistiu.
- Eu... - ela riu, nervosa - Não faço ideia. Ficou tudo escuro e eu... - ela apertou o ferimento no peito - E eu apaguei.
- Tem certeza?
- Sim - ela disse, mas seus olhos diziam outra coisa que ele não soube dizer o que era.
- Bem, nesse caso Solomon faz jus a fama que tem - ele havia dito sua teoria e Chefe a refutou, a garota provavelmente vira o ocorrido e estava em choque - Derrotar um demônio como aquele é incrível.
Um outro demônio de classe maior aparecera e matara o primeiro, talvez devorando o caçador. Uma pena, a morte do amigo a deixaria triste, de modo que não viu motivos para contrariá-la. Para ele, mulheres bonitas não deveriam sofrer assim. Ela desviou o olhar mais uma vez e ele suspirou mentalmente. Fosse o que fosse, havia interessado Chefe, de modo que Eddy não podia nem pensar em encerrar aquilo sem a verdade completa. Quem disse que seria fácil, não é? Ele fez uma mesura para ela.
- Meu nome é Eduardo, de Lianne - ela o olhou, confusa - Meu senhor se sentiu culpado por deixar vocês enfrentarem aquilo sozinhos. Fui designado para serví-la, como uma forma de compensar o serviço que prestaram ao conde.
- Hã?! - ela balançou as mãos à frente - Eu não... Ah, eu... - deixou as mãos caírem na cama. Não era incomum a nobreza ceder cavaleiros e evocadores às ordens de um membro da Ordem de Tesluh - Certo... Eu vi que você tem uma pedra de Aliir, é um evocador, não é?
- Sim - ele afirmou, orgulhoso. Estalou os dedos e emitiu faíscas laranjas - Um piromante.
- Ah - Inútil! ela pensou. Se bem que… - Se você estivesse lá… Teria ajudado mais o John do que eu. Mas aquele leviathan foi uma raridade e tanto. Eu costumo enfrentar infernais e você deve saber que um piromante teria mais utilidade se…
- Bem… - ele a interrompeu - Eu conheço minhas fraquezas. Mas o conde não me ordenou para servir a Ordem de Tesluh. Me juramento a você.
Ela observou o homem a sua frente. Tinha considerado seus olhos como gentis, mas o sorriso petulante a irritou ao tornar sua expressão dissimulada.
- Eu recuso - declarou ela em tom monocórdio - Não preciso de um servo, muito menos de um piromante.
Eddy a observou embasbacado. Não tinha sequer cogitado ela não aceitá-lo.
- Eu… - disse ele antes de pensar no que dizer, para evitar que o silêncio constrangedor se estendesse mais - Eu sei cozinhar. Muito bem, modéstia a parte. E há mais do que demônios no mundo. Posso muito bem me encarregar de bandidos.
- Hum - ela riu, apertando o estômago em seguida - Nenhum bandido assaltaria um oficial da Ordem... Quanto tempo estou dormindo? Estou faminta.
- Dois dias - lhe estendeu a mão para apoiá-la enquanto se levantava - Venha, vamos arranjar algo pra você comer e depois você pensa no assunto.
Ela revirou os olhos e aceitou a ajuda. Trocaram a atadura tanto do peito quanto das costas, embora os ferimentos já não parecessem grande coisa. Em meia hora estavam no restaurante da hospedaria. Ele observou em silêncio ela comer com cuidado sua sopa, até que ela estreitou os olhos para ele.
- O que eu tenho que dizer para que você desista e vá embora? Não tem nada melhor para fazer da vida?
- Me deram uma missão - ele deu de ombros, em seguida lhe deu um sorriso traquina - O que diria se eu te seguisse mesmo contra a sua vontade?
Ele se arrependeu das palavras no momento em que saíram da boca, mas ela riu, divertida.
- Eu diria que não seria o primeiro - ela lhe deu um olhar de desafio - Mas, no seu caso, provavelmente seria mais fácil mandar os guardas prendê-lo por moléstia. Tenho autoridade como caçadora para isso, sabe?
Ele escorou as costas na cadeira com um suspiro, descartando a discussão, e olhou para o salão distraidamente. Havia pouco movimento àquela hora da manhã.
- Eu não fui honesto - ele disse depois de um tempo - Eu sei bastante coisa sobre demônios... Sei, por exemplo, que um Leviathan Classe Dois não seria derrotado tão facilmente.
Erika o encarou, seus olhos refletiam algo. Acusação? Medo? Ele suspirou e mostrou as palmas para ela, como que se rendendo.
- O demônio estava realmente morto e não encontramos Solomon Seward. O problema é o nível que você o colocou. Dois é dominação de trevas, certo? Um evocador derrotaria um infernal classe dois. Mas um leviathan? Galiar enfrentava um desses com um grupo de pelo menos vinte.
Erika desviou o olhar.
- Eu… Eu sei o que eu vi. Ele sujou a água com sangue e minha luz foi esmagada pelas sombras…
- Sangue? - ele ficou desconfortável.
Imaginava o que teria acontecido. Ela vira seu amigo morrer, concluiu. Havia uma gruta no fundo do lago que levava a cavernas submersas imensas, segundo dissera o geomante que levaram depois. A fera havia trespassado Solomon e jogado o corpo no lago, usando seu sangue para cobrir a luz e enfrentar a luminomante com as trevas. Após, o corpo se perdera nas entranhas da montanha, talvez atraindo o segundo demônio. Isso explicava metade. Agora faltava saber o que acontecera depois e como ela continuava viva.
Ela o encarou e ele temeu ver seus olhos marejados, mas o que eles mostravam era assombro. Pareceu prestes a falar algo, mas se interrompeu e voltou a atenção para sua sopa. Tudo que tinha ainda era especulação, Chefe não aceitaria aquilo. Tinha de fazer ela mesma falar, mas sentia que a garota não estava preparada para isso agora.
- O que vai fazer? - ele mudou de assunto - Quero dizer, agora. Pode querer procurar Solomon…
- Duvido que eu seja capaz disso. Se ele decidiu partir... Acho que vou voltar para a sede da Ordem, em Tordek - ela cutucou um solitário pedaço de batata em seu prato com a colher.
- Prestar relatórios, não é? - ele a observou assentir devagar, a atenção longe - Deve ser a parte mais chata… - ela deu um sorriso desanimado em concordância - Vou com você, para garantir que pelo menos chegue lá inteira.
Ela suspirou e deu de ombros.
- Tudo bem, então. Desde que tenha um cavalo próprio e sua habilidade culinária prove-se no nível prometido.
Ele sorriu. Eddy sabia que um caçador tinha de prestar contas de suas “aventuras”, mas eles geralmente usavam o correio para enviar seus relatórios. Se ela planejava entregar pessoalmente, devia ser algo no mínimo interessante que tinha a dizer. Tordek ficava a cinco dias a cavalo. Cinco dias para roubar esses arquivos ou motivar ela a contar o que precisava saber para poder ir embora.
***
As coisas estavam meio confusas no começo. O que via não tinha muito nexo e as imagens e sensações estavam erradas. Forçou a mente a encontrar uma solução àquela estranheza e aos poucos percebeu o que se passava.
Quando saíram dos limites das cidades do reino da Luz, Hoster estava um pouco triste e o barbudo careca sugerira que a visita a Veh não tinha sido tão agradável quanto ele esperava. Apesar disso, o deus havia se mostrado um companheiro interessante na viagem para o leste a medida que recuperava, aos poucos, a animação. John achou que ele iria reclamar dos dois humanos que claramente atrasavam uma viagem que o deus do vento faria rapidamente, mas Hoster assistia divertido seu subordinado atualizar o caçador nos usos das magias do ar. Bartheon era um ótimo professor e também um viteomante, de modo que podia compreender com detalhes em que habilidades John havia se apoiado no acervo da vida e quais poderia substituir com vento. Como Hoster alertara, algumas coisas haviam se perdido. Não poderia mais aumentar a resistência da própria pele ou sua vitalidade, mas poderia facilitar sua esquiva e movimentos manipulando o atrito com o ar. O maior problema eram as armas. Antes podia passear munido apenas de uma pedra de Aliir e evocar uma lâmina de acordo com a necessidade, isso nenhuma habilidade de vento podia superar.
Haviam parado em um restaurante de estrada, depois de um dia de treinamento com Bartheon. O deus fora recebido calorosamente no estabelecimento por meia duzia de garçonetes de trajes provocantes, que Hoster cumprimentou individualmente. Supôs que a presença do senhor dos céus não era uma coisa tão incomum ali. Quando o deus sentou na mesa deles, eles já tinham jantado. Ele estava um pouco corado e sorridente, resultado de um tempo no bar cheio de mimos e copos que não ficavam muito tempo vazios.
- Então - Hoster se dirigiu a John, apesar de parecer alcoolizado suas palavras fluíam impecáveis - não é sempre que se tem um cara como eu como companhia, não é? Você se comportou muito bem até agora e não me dirigiu mais palavras que o necessário. Mas não sou do tipo que espera o tratamento que se dá a um rei, sacou?
- Senhor? - ele estava confuso. O que o deus queria que ele fizesse?
- Pergunte coisas! Vamos, eu sei que as pessoas gostam de saber das fofocas da minha gente. Soube que Derea andou aprontando algumas pra Ágata no último festival de Austera, posso dar os detalhes. Ou talvez o que Helort faz quando não está lixando as unhas em seu trono em Dagea - balançou um copo de uísque meio vazio - Tenho uma desculpa pra ser falante.
Os olhos de Hoster brilharam de malícia, fazendo John ficar nervoso. Com sua personalidade despreocupada e amigável, era fácil esquecer que aquele homem era uma das mais poderosas criaturas na face da terra. Se dissesse algo que o desagradasse, nem queria pensar no que poderia acontecer a um pobre mortal como ele.
- Hã… - John pensou um pouco, mas em sua mente só pairava uma questão - Por que tanto trabalho por minha causa? Quer dizer, por que mandar um deus me buscar? Por que tanto por um humano?
Hoster pareceu desapontado com a pergunta, visivelmente esperava uma coisa mais ousada.
- Não... - Hoster tocou a testa de John, tão rápido que ele não percebeu o movimento até sentir o toque suave na pele - ...se menospreze, Solo. Humanos são importantes, sabe? Humanos fazem coisas - ele espiou as garçonetes, distraído - Eu gosto de humanos. Me divertem - John tentou não pensar que Helort teria o ajudado por esse tipo de diversão - Também servem para o fluxo de energia que mantém esse mundo. Eu não me incomodo de ter trabalho por um humano - fez que não com a cabeça - Chato, pense em outra coisa.
- Hum - ele lembrou de sua iniciação na irmandade - Réphina está sempre com Helort, não é? Eu a vi quando ele veio me apadrinhar.
- É - riu - Ela tenta estar. Sempre que ele sai de Dagea ela está de prontidão para o acompanhar - deu de ombros - Menos trabalho pra mim. Nós dois somos guardiões, com ela por perto já é poder suficiente, não acha? Não que haja muito a se fazer nesse quesito, nos dias de hoje.
Com Seteria selada, as criaturas mais poderosas que habitavam as trevas estavam impossibilitadas de atravessar a barreira dos mundos. Restavam algumas pequenas brechas por onde seres menos poderosos forçavam passagem, mas nada que necessitasse da atenção direta de um deus.
- Dá até um sentimento de abandono, se for pensar - ele continuou, mudando da expressão divertida para uma de partir o coração - Eu é que sou o guardião dele, afinal. Por que ela faz isso comigo?
Ele encarava o interior de seu copo, apoiando a cabeça nas mãos, enquanto Bartheon sorria amavelmente, dando tapinhas consoladores em suas costas. Aquele extremismo de emoções não era mais novidade para John.
- Bem - John se sentiu um pouco culpado por ter trazido aquele assunto - Você tem os assuntos da Guilda pra tratar, é um deus ocupado.
Ele olhou para o caçador, esboçando um sorriso tristonho.
- Não é? - disse ele, mas bateu a testa na mesa e murmurou - Réphina tem os Moldadores, que ela escolhe, comanda e policia diretamente. Eu só sirvo para apadrinhar membros de acordo com a vontade dos comandantes da Guilda, sou um fiasco. Veh tem razão em me esnobar.
A imagem imponente de Hoster que John tinha montado toda a vida havia se arruinado na primeira vez que testemunhara um comportamento como aquele. Talvez todos os deuses tivessem um lado tão humano, pensou, o que lhe fazia sentir um pouco confortável. Mas ele ainda era um ser superior, se sentiu na obrigação de animá-lo e aprendera na estrada, por meio de Bartheon, que o jeito mais fácil era o deixando embaraço.
- Isso me lembra - o caçador se dirigiu a Bartheon - uma coisa que eu sempre achei curiosa no texto da Teofania... Réphina é uma criança, certo?
Os olhos do homem barbudo brilharam com a compreensão e ele deu um sorriso de cúmplice, concordando com a cabeça. Durante a viagem ele várias vezes provocara o deus e John nunca se sentira a vontade para imitar, até agora.
- Mas Derea e Ágata são filhas de Hoster e Réphina... - John lançou um olhar incomodado a Hoster, que o fitou horrorizado.
- Q-que cara é essa? Não pense que eu...!
- Bom, quem sou eu pra repreender um deus, não é? - John baixou o olhar, envergonhado.
Hoster se pôs de pé, o rosto vermelho e as mãos a frente como que para se proteger. Todos os clientes do bar olharam espantados.
- Não pense besteiras! Naquele tempo... - fez uma pausa buscando as palavras, talvez confuso pelo álcool. Passou a mão no cabelo, lançando um olhar de súplica ao subordinado.
- Não havia ética? - sugeriu Bartheon, com a expressão carregada de reprovação.
- Ora, seu... traidor! - ele apontou para John - Não havia nem a vida como é hoje! Não tínhamos a forma que temos agora e eu e ela…! - se atrapalhou, balançou o braço como se afastasse um inseto - não é assim que as coisas funcionam conosco.
Ele estreitou os olhos para os dois, percebendo que caíra numa pilhéria. Se acalmou e sentou-se, cabisbaixo. Sorriu para si mesmo.
- “A Luz afastou as Trevas, revelando a Terra e motivando o Vento…”, não é? - suspirou - Já me disseram que isso faz parecer que ela já estava lá antes de tudo. Não sei dizer se foi mesmo assim, mas ela existe desde que eu me lembro. Ela é tão velha quanto eu.
- Hum - John concordou, os detalhes sobre a forma humana dos deuses durante a Criação não eram muito esclarecidos e ele suspeitava ser uma espécie de tabu, mas não pôde conter a curiosidade sobre o assunto - E por que ela tem essa forma hoje? - não era um “como”, mas um inofensivo “por que”, ele torceu - Quero dizer, por que ela é uma criança?
Hoster o fitou, com uma seriedade que o fez ter um leve calafrio. Depois riu.
- Helort é, em relação aos outros, o que nasceu por último. Limbo pediu que ela cuidasse dele, mas ele sempre a tratou como uma irmã mais nova. Acho que a aparência que ela escolheu reflete isso - seu olhar se perdeu nas garçonetes, mas parecia ver além - Ela me trocou por Helort. Eu não era o tipo de relacionamento que ela procurava, ao que parece - soltou um riso cansado - Eu já superei isso. Fico feliz que ela esteja feliz e respeito Helort por fazer isso...
Sorveu o resto de seu uísque e levantou a mão, pedindo uma bebida de nome estranho à uma garçonete de rosto desfocado. A conversa passaria para Derea, a deusa do fogo, em seguida. No final Bartheon pagaria uma conta exorbitante que fez a hospitalidade das funcionárias fazer mais do que sentido do que o simples tratamento a um deus. Eles encontrariam um lugar para dormir, depois. Ele tinha certeza, mas algo lhe disse para ir mais fundo.
Vislumbrou o julgamento que Veh e o Conselho da Ordem promoveram antes dela desapadrinhá-lo. Olhos acusatórios, como se uma deusa pudesse saber algo sobre as escolhas dele. Como se tivesse o direito de julgá-lo daquela maneira. Apesar de ter provado que podia, a lembrança ainda o irritava e o enxia de arrependimentos. Não devia ter-lhes contado toda a verdade. Não pedira afastamento da Ordem ou escolhera as sombras ao invés de Veh. Aquela era a versão que as pessoas contavam. As pessoas gostavam mais de um herói, que desafiava a autoridade. Antes disso.
Estava numa taverna de uma pequena vila, bem para o sul de Tordek, voltando da viagem à Bahamn. Procurava boatos sobre lares de demônios quando uma agente da Ordem lhe entregou uma carta exigindo seu comparecimento no palácio de Veh, em Venêria. Ela estava nervosa, como se ele fosse alguém importante a quem se devesse tratar com respeito. Talvez fosse, ele pensou. Aquilo tinha lhe enchido de confiança traiçoeira. Os olhos dela eram lindos, ele lembrou, brilhavam verdes como duas joias. Haviam conversado, mais tarde. De renomado caçador para novata. Ela o ouvia, mas ele podia ver que, depois de um tempo, ela o desdenhava, como se ele fosse uma criança que fala sobre sua força e coragem de modo exagerado. Não demorou para que ela passasse a inticar com ele. Isso fez com que ele gostasse mais dela. Não era como as outras pessoas. Lembrava John de sua irmã. Mais fundo.
Um demônio gárgula, classe um, sobrevoou o descampado em direção às ruínas de uma torre, entre as inúmeras estruturas pertencentes ao domínio de Réphina. As construções estavam abandonadas havia anos, talvez séculos, construídas na rocha e espalhadas por quilômetros para demonstrar a habilidade de vários geomantes que visaram o avanço em seus estudos nas magias da deusa da terra. Era noite e John escondia-se numa viela, mas duvidava que até mesmo à luz do sol o monstro veria através de sua sombra. Seu nome era Halgar, o último de seus alvos. Se lembrou de ter pensado na hora sobre o que faria depois que o matasse. Havia deixado sinais de sua presença durante alguns dias, perseguindo o demônio de forma invisível. Assustando-o. Fazendo-o ver coisas. Motivando com que ele constantemente mudasse de lugar, incomodado. Mas seu voo era lento e cansativo, de modo que o demônio ficou cada vez mais exausto. Halgar estava sozinho, e a luta fora relativamente fácil. Lembrava de ter desejado tê-la feito se estender mais. No final, o fez sofrer com todas as forças, usando a mágoa e o ódio guardado como combustível. Mas a morte daquele ser não trouxe a irmã de volta e um sentimento de vazio lhe assolou durante os anos seguintes. Mas lhe foi dito pra ir mais fundo.
Estava ajoelhado ao lado de mais três iniciantes da irmandade, em uma mansão em Venêria. Helort dera um vago aceno para que ele se aproximasse. O deus das sombras era alguns centímetros mais baixo que ele, o cabelo de um azul beirando o preto jogado para o lado direito do rosto numa franja comprida. Com a expressão entediada, observava o pequeno grupo de novos adeptos escolhidos a dedo pela irmandade Sussurro Sombrio. Lembrou do frio que sentiu quando ele sussurrou palavras incompreensíveis em seu ouvido, os ambientes aparentaram ser mais espaçosos do que antes e as formas mais voláteis. Helort só mudou a expressão, esboçando um leve sorriso, quando uma menina alegre irrompeu no salão, correndo e se jogando num abraço apertado. Lhe mostrou uma flor que John nunca havia visto antes. Seus cabelos escuros, lisos e compridos, estavam presos para os lados da cabeça com fitas adornadas por uma joia vermelha escura com linhas claras apontando para o centro. O rosto emoldurado pelos cabelos e uma franja curta. Estava descalça, mas seu vestido, mesmo que com poucos ornamentos, em conjunto com as joias parecia valer mais que uma rara pedra de Aliir dourada, talvez mais que um punhado delas. A pequena deusa da terra só tinha olhos para Helort e ignorou os presentes como se não passassem dos tediosos e insignificantes humanos que realmente eram.
É confuso demais. Não está funcionando. Não estava. Não era assim que as lembranças deviam ser tratadas. A ordem estava errada. Tinha que ir muito mais fundo e vê-las na sequência correta, certo? Mas onde começar?
Havia deixado as terras da família Seward. Um casarão modesto ao lado de uma cidadezinha. Seus tios tinham um herdeiro, por isso não havia motivos para manter John ali. Ele prometera à irmã que se juntaria aos Seguidores de Veh e voltaria para casa com ouro e histórias de aventuras.
A tia não gostava deles, sobretudo de John, mas tiveram de acolhê-los pelo seu sobrenome. Um par de irmãos, resultado de uma nobre iludida e um apostador sedutor, segundo sua tia contava. Ela uma vez lhe disse que a irmã comentou o quanto John era parecido com o pai, e que olhar para ele era sempre doloroso. Ao que sabia, seu pai havia perdido tanto dinheiro que sua mãe havia precisado vender todas suas posses para quitar as dívidas. Isso havia acontecido aos poucos, repetidas vezes, até que tudo o que possuíam era o nome. Não lembrava direito do rosto do pai e, quando pensava, imaginava-o com o rosto do "papai" que tivera alguns anos depois. Seu pai abandonara sua mãe no porto, desaparecendo. Um dia, ao ver sua mãe chorando, se pegou desejando que ele tivesse naufragado. Sua mãe morreu pouco tempo depois, de uma doença degenerativa. Pediu que eles não guardassem ódio do pai, que não era um homem ruim. Mas ela pedia demais e John nunca perdoaria ele. Assim, ficaram aos cuidados de seus tios.
Tinha 15 anos quando chegou pela primeira vez na entrada da primeira cidade do reino da Luz, um túnel imenso com degraus, acompanhando uma estrada de pedra, subindo a montanha. Sabia, pelas histórias, que haviam seteiras escondidas nas sombras, no alto, com arqueiros e evocadores prontos para defender a passagem de um exército invasor. Toda a montanha fora erguida por Réphina e seus moldadores, séculos atrás.
Comparada às cidades que passara antes, Venêria era deslumbrante e enorme. O ar muito limpo e as ruas bem cuidadas. Era a quarta cidade no quesito de altura, mas era a única das nove que admitia a entrada de estrangeiros. Assim, a grande escadaria pela qual John passara seguia direto até ela. Esculpido na rocha, o palácio de Veh, a deusa da vida, encarava a cidade que o rodeava num semicírculo o máximo que o paredão da montanha permitia. Uma construção robusta com uma única torre grossa entalhada com uma grande espada alada, símbolo da deusa. Ao lado, um pouco menos imponente, ficava o castelo de gelo de Ágata, a deusa da água. Por entre suas torres pontudas corriam cascatas que brotavam da montanha, formando um lago a sua volta, onde nascia um rio largo que serpenteava pela cidade, indo cair do desfiladeiro a sudeste. Balsas subiam e desciam o rio, guiadas por aquamantes num transporte público gratuito. Pequenos barcos de propulsões diversas também iam e vinham, alguns oferecendo viagens mais rápidas por preços justos, ou não.
John esperou numa plataforma de pedra que servia de cais no ponto mais baixo de Venêria, teria que atravessar toda a cidade para chegar a Veh. Observou carroças sendo descarregadas em botes e comerciantes gritarem seus preços. Havia peixe fresco nas bancas e suvenires estranhos. Avistou em meio aos objetos uma luva com uma pedra vermelha presa as costas da mão e percebeu que aquilo era importante, uma vez que viu muitas pessoas usando aquele equipamento, de transeuntes a guardas e balseiros. Caminhou até a banca que expunha aquilo e examinou o artefato. Nunca tinha tido a chance de examinar uma pedra daquelas tão de perto, era o tipo de coisa que passava por uma cidadezinha como a que cresceu com pouco alarde. A pedra transparente como uma jóia, tinha forma oval com sete facetas lapidadas, sendo uma central, onde cinco delas convergiam e uma reta atrás, onde tocava a luva. Uma pedra de Aliir, a deusa do conhecimento. Tais pedras eram encontradas por todo o mundo e todos sabiam a quem pertenciam, mas ninguém sabia dizer como elas teriam vindo para o mundo dos homens ou seu processo de formação. A única com essa resposta seria a própria Aliir, mas a deusa vivia em Dagea e, juntamente com os deuses esquecidos e os inomináveis, não era acessível do plano físico.
- Ela combina com você - disse uma mulher troncuda e forte, de pele morena e cabelos lisos negros atados num coque, tinha uma manopla de couro na mão esquerda com uma pedra idêntica àquela que ele observava - E é a minha última também, o pessoal acha que os deuses vão distribuir pedras de Aliir de graça e depois voltam desesperados - ela gargalhou - Você tem cara de quem vai se devotar, eh? Normalmente eu cobraria dois mil, mas como você é bonitinho e eu estou de bom humor, faço por 1800.
A quantia lhe tirou o fôlego, não fazia ideia do quão caro podia ser se tornar um evocador. Depositou a luva de volta na bancada com cuidado, sob o olhar desapontado da vendedora.
- No momento - disse ele em tom de desculpas - isso vale uns três de mim.
Ela gargalhou, lhe dando um tapa solidário no ombro com a mão enorme.
- Você parecia um nobre riquinho, garoto - disse ela calorosamente - Se precisa de dinheiro procure a hospedaria da Tia Bete. Fica na parte oeste, atravesse a ponte - apontou para uma grande ponte de pedra, um quilômetro rio acima - e siga a terceira rua a direita. Fale que a Keyla te mandou - deu uma piscadinha - Se for lá até amanhã de tarde diga a ela que o ferreiro vai visitar na quarta por mim, que quando você for comprar a sua própria - cutucou a luva que ele devolvera a mesa - te dou um desconto generoso.
- Agradeço - disse ele com um sorriso bobo, sem saber ao certo como reagir - Mas vou passar na sede dos Seguidores de Veh. Ver o que é preciso para me juntar a eles.
A mulher pareceu ficar um pouco ressentida, como se ele a tivesse ofendido, mas deu de ombros. Quando já havia pego a embarcação pública e subido um bom trecho de rio, passando por baixo da ponte que ela mencionara, percebeu que havia soado como que não acreditando que eles não lhe cederiam uma pedra. No meio do aglomerado de pessoas de pé ele observou a estrutura colossal cobrir o céu, vinte metros acima de suas cabeças. O túnel era iluminado pelas luzes de barcos que passavam e de espécies de mercadinhos flutuantes atracados nas paredes de sua extensão. Passou por várias outras pontes iguais antes de pensar em contar. Duvidava que pudesse encontrar a tal hospedaria agora, o que fez se sentir um pouco culpado, mas não muito. Esse sentimento desapareceu completamente quando ele se viu finalmente em frente ao palácio de Veh.
Uma praça de pedra, enorme e movimentada, fora construída em frente às escadarias que levavam à entrada principal. Erguida em seu centro, uma estátua de granito de Galiar saldou o viajante. Galiar era o herói que ajudou a livrar o mundo de boa parte do mal, tornando a Ordem de Tesluh o que era hoje, mais de 300 anos antes. Ele parou para observá-la atentamente. A estátua tinha 5 metros de altura, mostrando Galiar em sua pose clássica: a expressão feroz, olhos poderosos e dentes a mostra através da barba como num rosnado sob um elmo simples, os braços abertos em desafio. A mão direita envolta em um enorme topázio amarelo - o que o levou a crer que a deusa da terra estava envolvida na fabricação, já que os dedos eram visíveis através da jóia - simbolizando uma evocação de luz, supos. A outra mão segurando uma arma que John sempre teve dificuldade de classificar e nunca havia pensado em descobrir o nome, uma espada-lança? Tinha a lâmina larga curva e o cabo comprido como o de uma lança. Segurava-a bem próximo a guarda, o que sempre o levava a questionar se o cabo longo ou as duas tiras esvoaçantes atadas a outra ponta serviam para o equilíbrio.
Notou uma coisa. Rodeou a base de pedra escura, que garantia à figura mais três metros de altura, até ficar abaixo da mão direita. Não havia pedra de Aliir. Nem mesmo uma luva ou manopla, o braço direito tinha apenas uma ombreira e mostrava-se desnudo. Prosseguiu a contornar. A capa de pedra que inflava com um vento congelado, na mesma direção em que as tiras da arma, erguia-se revelando detalhes minuciosos. Presos ao cindo estavam um facão, um pequeno livro e três pequeninos frascos. O braço esquerdo tinha armadura completa. Na hora, supôs que a pedra de Aliir poderia estar abaixo do metal, fazia sentido a proteção. Errado. Sim. Depois aprendeu que duas coisas prejudicavam a evocação: se metal de qualquer tipo isolasse a face de cima da pedra do ambiente ou a canalização no braço oposto. Quando voltou a frente da estátua pode ver um brilho familiar. Uma pedra de Aliir dourada estava presa a um colar. O amuleto estava meio escondido sobre o cachecol, visível apenas do ângulo que ele se encontrava naquele momento. Descobriu depois que o uso das pedras em colares e outros adereços era uma prática comum antigamente. Prática que fora aprimorada até as luvas com conexões inscritas, usadas mais tarde. Lembrou de ter pensado, depois, que tal pesquisa teria sido possível graças a relativa paz que se seguiu aos feitos do exemplo da Ordem.
Satisfeito, John tratou de descobrir aonde seria a sede dos Seguidores. Achou que não seria tão simples quanto virar-se para o imenso palácio e andar, mas descobriu que era exatamente isso. Subiu algumas escadarias até uma segunda praça, menor e com jardins, de frente à grandes portas de bronze abertas onde pessoas entravam e saiam. Uma fila se formava dentro do grande salão, esse que tinha cerca de 200 metros de largura e 100 de comprimento, serpenteando por entre pilastras entalhadas com guerreiros da antiguidade. Soldados em armaduras reluzentes carregavam grandes lanças com estandartes da espada alada de Veh, posicionados contra as paredes a intervalos de 10 metros e em frente a cada uma das pilastras, todos tinham uma pedra de Aliir em suas manoplas. Havia também quatro de armaduras douradas guardando o início de uma escada suntuosa. A fila terminava antes de um comprido balcão com atendentes e era composta de todo tipo de pessoa, de esfarrapados a finamente trajados, alguns estavam armados e alguns desses pareciam até mesmo perigosos.
Enquanto tentava decidir a finalidade daquilo tudo ouviu alguém gritar por sobre o murmurio da multidão.
- Você! - dois homens vieram em sua direção de um conjunto de mesas pequenas no centro do lugar, um deles apontando-lhe o indicador para mostrar que era a John que se referia - Não vai encontrar o que procura aqui.
- O que? - John piscou os olhos de forma idiota, sentindo-se confuso.
- Vai se juntar aos Seguidores, não é? - ele indicou a espada de John com o queixo. Tinha esquecido que a carregava, de repente o olhar mal encarado do guarda da balsa fez sentido - É um desperdício de tempo - indicou a fila - Veh não tem tempo nem pra coçar a… - ele olhou de soslaio para um guarda próximo e baixou o tom, sorrindo - cabeça.
John corou, olhando de relance para o guarda. Não queria complicação ofendendo um deus. O que esse maluco queria, afinal?
- Olha, eu não sei o que você…
- Gregg - interrompeu o homem estendendo a mão, que John apertou meio que em reflexo - Somos olheiros da Guilda do Leste, você conhece, não é?
- John - identificou-se - Sim. Conheço. Mercenários?
- Ora, ora, Ben - disse ele para o outro homem, com a sobrancelha levantada - Ele parece ter um problema com isso.
- Não! - defendeu-se John - Eu não quis…
- Bom, se você prefere moralismos furados, frescura e trabalho fácil, talvez esse seja mesmo o lugar pra você - disse ele, abrindo os braços para abarcar o salão. Depois pôs as mãos na cintura com um sorriso confiante - Mas se almeja uma vida desregrada, com fortuna e aventuras, a Guilda pode te oferecer isso e muito mais. Hoster é um patrono muito mais amigável e atencioso do que… - outra olhadela para o guarda, que mesmo com o rosto coberto pelo elmo, parecia empalá-lo com os olhos - alguns deuses esnobes por aí.
- Eu… - John não queria aquilo. Durante anos lera e ouvira histórias sobre os deuses e Veh fora a que mais o atraíra. De repente, ter lhe oferecido um caminho diferente do que sempre sonhara… - Eu preferiria servir Veh antes. Além do mais - mostrou as costas das mãos - não sou evocador e nem tenho dinheiro para me tornar um agora.
- Não tem, não é? - Gregg suspirou, dando a John um tapinha amistoso no braço e olhou em volta - Acontece, garoto. Desculpe, você parecia um nobre... Você! - ele correu com o dedo em riste em direção a uma garota que havia entrado no salão e parecia tão perdida quanto John, seguido por Ben.
John os fitou enquanto cumprimentavam a jovem que parecia bem mais animada com o que diziam. Parecia um nobre? Realmente era um nobre. Um nobre pobre, mas, ainda assim, um nobre.
***
Fred estava pregando arame farpado em sua cerca, quando viu um homem sair da estrada de terra e examinar o rolo que estava usando. Tinha olheiras profundas e o cabelo desgrenhado preto. Seu sobretudo esfarrapado tinha manchas escuras e as mangas estavam em frangalhos, deixando os braços expostos até o cotovelo. Não tinha nenhum ferimento. Presos pouco abaixo dos pulsos por uma tira de couro estavam alguma espécie de pregos com cabeça de argola. Em seu cinto haviam duas bainhas de espada, uma delas vazia. O homem não deu sinal de sequer ter notado o fazendeiro.
- Ei! - disse Fred com o martelo em mão, quando o homem se abaixou para pegar seu arame - Posso ajudar?
O andarilho olhou com frio desinteresse para ele.
- Preciso disso - constatou - Algum problema?
- Não - Fred era mais alto e mais largo que o homem, ele estralou os dedos de uma mão - Mas vai ter que pagar. Isso não é barato, sabe?
O homem o olhou, sem entender.
- Pagar - disse devagar, após um momento de reflexão - Uma troca de objetos com valor equivalente. Usa-se pedaços de metal para evitar a necessidade de uma dupla de objetos… É isso?
- Exato - talvez o homem não fosse certo da cabeça, ele pensou.
O andarilho se levantou e pegou uma de suas setas, mostrando-a a Fred.
- Não possuo tais pedaços de metal, mas isso aqui é feito de aço austeriano. Pelo que parece, é valioso.
Fred segurou uma risada. Se fosse mesmo verdade, aquele pequeno prego estranho valia pelo menos uma vaca leiteira. Com aquilo ele entregaria de bom grado todo o rolo de arame farpado que tinha. O estranho sorriu com malícia, segurando a seta como se fosse uma faca.
- Mas isso também é uma arma, sabe? - contou, no mesmo tom arrastado, o sorriso se abrindo - Me diga. Quanto custaria algo de um homem com uma dessas espetada na testa?

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