Os dois guardas adentraram no terreno da fazenda e avistaram um casal indo de encontro a eles. Fred tinha o rosto inchado e cheio de hematomas, havia levado uma surra e tanto. O guarda chamado Gary era grande e um pouco calvo, com um bigode denso branco, cumprimentou o homem com um aceno de cabeça. Trajava uma armadura de couro leve e carregava uma pedra de Aliir verde escura em sua manopla. Seu companheiro, Joe, era franzino e de cabelo crespo preto, usava um sobretudo cinza com detalhes laranjas e sua pedra era de um vermelho sangue. Faziam parte da milícia do exército de Tordek, que dava suporte aos territórios afastados da cidade-estado.
- Ele está lá dentro! - disse Fred quando se encontraram, indicando a casa de madeira no fim da trilha de pedra que cruzava a fazenda - Com as minhas filhas!
- Ele está armado? - perguntou Gary - É evocador?
- Uma espada e uns… pregos! - o homem torceu a boca, um dos olhos serrado pelo inchasso no rosto.
- Tem um colar com uma coisa dessas - disse a esposa, apontando para pedra de Gary - Mas ele não usou nada disso.
- Ele é muito forte! - completou Fred - E tem obrigado minhas filhas a fazer coisas horríveis!
- Mas ele não fez mal às meninas. Na verdade… - olhou o marido de soslaio - Ele é bem gentil. Diz ser Solomon Seward!
Chegaram na casa e Gary pediu aos dois que esperassem ali fora. Uma modesta mas arrumada casa de madeira, grande o bastante para ter uns três quartos e um sótão. Ele ficou em posição para abrir a porta enquanto Joe se colocou a frente da entrada, apontando dois dedos da mão direita. Antes que fizessem qualquer coisa, ouviram um grito de dor de dentro da casa, seguido do som abafado de algo sendo socado. A voz era claramente masculina e os guardas se entreolharam.
Gary escancarou a porta e puderam ver a fonte do barulho. Numa poltrona próxima a lareira estava sentado um homem de cabelos pretos, com o peito desnudo e o braço direito com o punho cerrado na guarda da cadeira. No pulso estava cravada uma seta de metal com ponta de argola. O homem estava curvado para frente, pressionando o olho esquerdo com a outra mão. Ao lado dele duas jovens garotas, uma de quinze e outra de dezoito anos, olhavam espantadas para os guardas, a mais velha segurava um martelo. Ao ver o sobrolho levantado de indagação de Gary, ela soltou a ferramenta no chão e ergueu as mãos em defesa.
- F-foi ele que mandou!
A atenção de todos voltou-se para a luz que surgiu da ponta do metal. O homem observava enquanto a luz brilhava e diminuía alternadamente. Ele suspirou e o brilho cessou por vez, passando a cutucar a argola com o dedo. Olhou para os guardas e torceu a boca.
- A luz só fere demônios, ao que parece… - contatou ele, parecendo desanimado. Franziu o cenho, curioso - Quem são vocês?
- Hum - fez Gary - Somos da milícia de Tordek. Você está sendo acusado de agressão, invasão e moléstia, entre outras coisas. Vai responder a esses crimes e estamos aqui para prendê-lo.
- Oh… - o homem assimilou a informação, sorrindo no final - Mas eu sou Solomon Seward!
- Hum - Gary sorriu - Se você é Solomon Seward, eu sou Verdan Midori.
- Verdan… - Solomon pensou novamente, abrindo o sorriso ainda mais - Por um segundo eu me preocupei, mas você nem sequer parece com ele! Eu o conheci quando entrei para Guilda do Leste - ele pensou um pouco mais - Ele serve a Tordek agora, não é?
- É - confirmou Gary, irritado - Seja quem você for, não está acima da lei e virá conosco, por bem ou por mal.
- Uh… - disse Solomon, animado - Vocês vieram brigar?
- Se você nã… - Gary teve a fala interrompida quando o homem agarrou seu rosto com velocidade espantosa.
- Aqui dentro não - disse ele, empurrando com força o guarda porta afora.
Joe correu para o lado de Gary, que fora atirado alguns metros através do pátio.
- Você está bem? - perguntou ele, ajudando-o a levantar.
Não havia se machucado, tinha a resistência de um viteomante. Empurrou Joe para o lado e socou a palma da mão esquerda, começando a canalizar sua evocação. Seu rosto estava vermelho de raiva e seus olhos estavam cravados no homem que sorria para ele.
- Você não devia lutar contra eles! - disse a garota mais velha para Solomon.
- Por que não? - questionou a mais nova em tom alegre - Ele vai limpar o chão com a cara deles!
- N-não! - a irmã a olhou apavorada - É errado!
- Ele não tem escolha! - retrucou a garota - Os guardas mesmo que disseram!
- Mas…! - a outra foi interrompida por Solomon.
- Emily tem razão! E se eles querem lutar, que lutemos!
O caçador observou sorridente Gary puxar o cabo de uma arma que surgiu de um círculo ornamentado luminoso em sua mão. O guarda levantou ao ar uma maça semi transparente cinza escura que produziu um som vibrante grave com o movimento. Segurou-a com as duas mãos e baixou a arma devagar, o som se tornou mais alto e a maça parecia emanar poder, levantando poeira ao tocar de leve o chão de terra batida. Gary respirou profundamente, com os olhos fechados, a cara voltando a tonalidade habitual. Encarou Solomon, agora mais calmo, erguendo a maça para o lado do corpo, pronto para rebater.
- Ninguém - disse Gary devagar - toca no meu bigode.
- Hoho - disse o caçador com um sorriso torto - Sinto pena da sua esposa, então. Se ela estiver incluída no “ninguém”.
Solomon viu a boca do homem se torcer e o cenho se franzir, mas fora isso a calma dele parecia inabalável. Olhou para o outro guarda, se perguntando que tipo de magias ele poderia evocar. Não tinha uma armadura, portanto não devia ser do tipo que lutava de perto. Aquilo o fez pensar, por que ele mesmo não possuía armadura? Encontrou a resposta em seguida, era um assassino.
- Eu tenho que dizer - disse Solomon - Se tenho que enfrentar os dois, eu irei atacar aquele ali primeiro - apontou para Joe, que arregalou os olhos - Não que eu subestime você, velhote. Mas se ele me atacar de longe tenho que mudar a estratégia de combate, entende?
- Hunf - grunhiu Gary, dando uma olhada para seu companheiro e sorriu confiante - Uma luta justa. Um contra um. Joe não vai se meter. Eu serei seu oponente!
Joe franziu o cenho e deu de ombros, balançando a cabeça em reprovação.
- Como se eu já não estivesse acostumado - disse ele.
Solomon olhou para trás ao ser cutucado e lá estava Emily lhe alcançando a bainha da espada com um sorriso cheio de dentes. Ele pegou a arma, tirando um chapéu imaginário e lhe dando uma piscadela. Virou-se para o guarda e indicou Fred que estava afastado com os outros.
- Minha torcida é mais simpática.
Gary deu uma olhada no homem com a cara ferida e olhos de puro ódio para com o caçador e riu. O único na família que parecia realmente incomodado com a presença de Solomon.
- Posso saber por que bateu nele?
- Ah - Solomon fez um movimento de afastar inseto com a mão - A primeira vez foi auto defesa. A segunda porque eu peguei ele maltratando as mulheres por me darem alimento e abrigo - deu de ombros, desembainhando a espada - Nada demais.
Gary suspirou, perdendo um pouco a vontade de arrancar alguns dentes do homem, mas firmou sua posição de ataque. Ele havia resistido a prisão e agredido um homem da lei, ferindo seu ego na frente de muitas testemunhas.
- Vou te dar o primeiro movimento - declarou Gary, enfim.
Solomon sorriu. Uma ova. Duvidava que o guarda costumasse atacar primeiro, independente do oponente.
Se pôs em posição de investida e esperou as garotas se afastarem. Correu abertamente contra Gary que já esperava aquela velocidade absurda, mesmo assim, o golpe em arco do guarda foi instintivo, a arma produzindo o som vibrante. Viu o caçador sorrir e inclinar-se levemente, saindo do caminho da clava. Sentiu seu coração palpitar forte, com uma satisfação quase doentia. A maça mudou o movimento de curva para uma estocada, como se não tivesse peso, acertando a ponta no peito de Solomon, que tentou se proteger levando a mão à frente do corpo tarde demais. Ele arregalou os olhos e fez uma careta de dor ao ser impulsionado para trás pelo impacto potencializado pela arma mágica.
Gary observou o caçador rolar para trás e se ajoelhar, se apoiando numa mão e segurando o peito com a outra, tentando recuperar o fôlego. Solomon começou a contrair os ombros ritmadamente e o guarda sorriu com confiança, apoiando a maça no chão como um bastão. Ela fez um som de impacto surdo e pequenas de areia fina ondas se formaram onde a ponta tocara.
- Espero que isso ensine você a não mexer com a lei - disse ele.
Emily soltou um palavrão e Fred gargalhou, dando um soco amigável no braço de Joe, que deu um sorriso e massageou o local da batida. Gary percebeu o ar de Solomon voltando quando suas inspiradas sofridas se tornaram numa risada dolorida. O caçador levantou-se respirando profundamente, seus olhos brilhavam algo totalmente diferente de diversão. Algo agressivo, raivoso, perigoso. Sua mão tremia e Gary viu que não era o peito que segurava, e sim o amuleto dourado com a pedra de Aliir verde. Solomon tirou a franja da frente dos olhos com cuidado frio, um sorriso doentio nos lábios.
- Eu tinha gostado de você - disse ele, com a voz um pouco falhada - Mas você quase me matou.
- Hunf - fez Gary, retomando a posição de ataque - Não exagere, garoto. Eu sei como usar isso aqui... O que…?
O guarda observou horrorizado o braço esquerdo de seu oponente assumir uma tonalidade muito escura até o cotovelo, as pontas dos dedos tornando-se pontiagudas. Solomon golpeou o ar em arco de cima para baixo na direção de Gary, que sentiu o impacto de uma lufada de ar. Algo quente escorreu em seu rosto e ele percebeu um pequeno corte em sua bochecha. Ficou sem ação enquanto tentava associar aquilo simplesmente à aeromancia, mas um evocador do ar não conseguiria transmutar o braço daquela forma. Aquilo parecia…
- Magia das trevas! - Joe completou seu raciocínio, colocando-se ao lado de Gary com dois dedos de cada mão entrecruzados - Só pode ser um demônio!
Gary tentou ignorar a sensação de vazio em seu estômago e o medo que ameaçava forçar garganta acima.
- Oh - fez Solomon, seriamente - O que eu disse sobre você estar na luta?
Ergueu seu braço direito, escondendo o esquerdo nas costas. Uma luz intensa brilhou do objeto cravado em seu pulso, cegando-os momentaneamente. Joe tentou evocar uma proteção de fogo, mas parou ao lembrar que acabaria acertando Gary também. Em seguida ouviu um som retumbante que parecia vir de todo lado e uma forte dor repentina na têmpora, que o fez resvalar para a inconsciência.
Gary demorou alguns segundos para assimilar o que ocorrera. Solomon agarrara-o pelo pescoço, saltando por cima dele, desequilibrando-o e fazendo com que ele golpeasse Joe com a maça. Quando Gary se virou para acertá-lo, Solomon lhe socou o estômago o fazendo recuar um passo. O guarda conseguiu acertar uma maçada no braço negro quando o caçador tentou agarrar seu pescoço e mais outro quando Solomon tentou desferir um golpe raivoso, fazendo o inimigo girar com a força do impacto. Solomon rangeu os dentes para o braço que parecia haver se quebrado nos pontos onde a maça o tocara. Gary aproximou-se cauteloso enquanto recobrava a respiração.
- Tesluh nos ajude - murmurou Gary ao ver o braço produzir estalos surdos e voltar ao normal.
Sem pensar duas vezes, acertou a cabeça do homem com toda força, rompendo a pele num grande ferimento.
- Não! - gritaram as garotas.
O homem caiu de bruços e rangeu os dentes lutando com a dor.
- Tesluh afaste as trevas… - recitou o guarda, quase sem perceber - Tesluh ilumine esse demônio...
Solomon gemeu e linhas negras saíram da ferida, puxando a pele de volta para o lugar. O guarda girou a maça para acertá-lo novamente, mas a figura de Solomon se desfez ao toque, como que feita de fumaça se dispersando, e o que ele atingiu foi terra. Gary olhou em volta confuso e um punho negro surgiu para um soco poderoso em sua face.
- Desgraçado! - o guarda proferiu recuperando o equilíbrio, ao perceber que o oponente desaparecera - Covarde!
Solomon ressurgiu alguns metros a frente, sorrindo e com metade do rosto coberto de sangue.
- Vindo do cara que ataca um oponente caído - disse ele, afastando a franja ensanguentada da frente dos olhos.
- Demônio! - Gary cuspiu vermelho, pondo-se em posição de rebate.
Solomon deu de ombros e atacou usando tanto a mão negra quanto a espada, numa sucessão de estocadas precisas. Gary recuou, defendendo-se e procurando uma brecha para contra-atacar, mas o riso de Solomon o desconcentrava. Cortes superficiais começaram a surgir em seus braços e pernas e a barragem de ataques parecia estar acelerando cada vez mais. Quando percebeu, o caçador havia agarrado seu pulso. Gary tentou desvencilhar-se e acabou tendo o outro braço segurado. Solomon inclinou-se para trás com um sorriso enorme e o cabeceou pesadamente, produzindo um som surdo de impacto.
As garotas viram o guarda soltar um gemido e tentar debilmente se libertar. Solomon repetiu o golpe, dessa vez mais forte, fazendo Gary vacilar e cair sobre um joelho. Mais uma cabeçada que pareceu reverberar pelo ar e o guarda cedeu, sem mais forças para tentar resistir. Seu bigode antes branco, mostrava-se coberto do próprio sangue. Sua arma caiu no chão, vibrou até desaparecer e ele encarou o caçador mal conseguindo focar o olhar. Todos olhavam embasbacados Solomon inclinar-se para trás mais uma vez, o cabelo cobrindo parcialmente os olhos que brilhavam com ódio selvagem, a pele clara do peito cheia de respingos vermelhos e um sorriso quase rosnado, quando a voz da garota chamada Emily rompeu a tensão do ar.
- Já chega! Você já venceu!
A expressão de Solomon se abrandou e ele olhou para a garota como que espantado por vê-la ali. Voltou-se para o guarda que beirava a inconsciência, parecendo um pouco envergonhado e largou os braços do homem, segurando-o pelo colarinho da armadura de couro, antes que ele caísse para trás. Sorriu amavelmente, ajeitou a franja e apertou o olho com a mão esquerda, que voltava à aparência normal.
- Eu gosto que ter certeza... se quem eu derrotei sabe o meu nome - disse ele - Você me conhece, não é?
- Ugh - gemeu Gary, sorrindo dolorosamente - S… Solomon… Seward…
- Perfeito! - abriu mais o sorriso e o deixou cair no chão.
Ele virou-se para a família, encarando Fred com seriedade, fazendo o agricultor se encolher instintivamente. Solomon cutucou a argola da seta cravada em seu braço e em seguida a arrancou. O ferimento se fechou enquanto ele girava a seta pela argola.
- Eu agradeço a hospitalidade - disse Solomon calmamente, Fred engoliu em seco - Estou de partida - disse ele, cessando o giro da seta e embainhando sua espada.
***
Eddy observou emburrado o revoar da borboleta brilhante. Haviam partido em direção à Tordek e montaram acampamento próximos a uma grande rocha, numa boa distância da estrada. O sol estava quase se pondo e Erika terminava ajeitar o terreno onde colocaria seu saco de dormir. Haviam alimentado os cavalos e Eddy iniciava os preparativos para cozinhar o jantar. Estalou os dedos e uma língua de fogo saltou de sua mão para a fogueira que havia montado. Tirou sua frigideira da mochila e girou-a no ar, pensando no que poderia fazer.
- Tenho que pedir que pare com isso - disse Erika rindo.
- Com o quê? - Eddy sacou algumas cenouras e um embrulho com carne da grande mochila que trouxera de seu cavalo.
- Com esses olhares desconfiados! - ela sorriu - É como se você ficasse me cutucando toda vez que encara uma delas.
- Ah, desculpe - ele respondeu - Não estou acostumado com luminomantes. Me sinto vulnerável não deixando ninguém de vigia.
- Hum - ela observou alegremente ele catar um vidrinho com óleo e despejar habilmente um pouco na frigideira - Eu vou estar de vigia.
- Dormindo… - ele ergueu o sobrolho para ela com um meio sorriso - Que bela vigia você deve sair.
Ela olhou para as borboletas à volta do pequeno acampamento, cinco no total.
- Eu quase sempre viajo sozinha - declarou ela com confiança - Ninguém nunca me importunou com esses batedores de vigia. Nem mesmo bandidos!
- Hum - ele riu - São criaturas de Austera, não são?
- Sim!
- Eu sempre ouvi dizer que era Tesluh que olhava por vocês. Acho que isso influencia na suposta segurança. Ninguém importunaria alguém vigiado por Tesluh.
Ela deu de ombros.
- Mais um ponto para elas.
Eddy sacudiu a cabeça e voltou-se para o que cozinhava. Vigias mágicos atrapalhariam bastante qualquer tentativa de fuçar nas coisas dela a procura de algum relatório. Se bem que ela não havia sequer tocado em qualquer papel até ali. Se não planejava escrever nada até Tordek a situação tenderia a complicar. Tinha de pensar numa abordagem para fazê-la contar sua história por si só.
Os olhos de Erika acompanhavam o brilho suave da pedra de Aliir na luva de Eddy. Ele movia a panela de um lado para o outro acima da chama com a mão esquerda, enquanto fazia movimentos precisos com os dedos da mão enluvada por cima da comida. Ele jogou alguns temperos de potinhos que ele dispusera ao seu redor e passou a picar as cenouras em rodelas. Ela havia suposto que aquilo era para tentar impressioná-la, mas a suspeita se desfez ao perceber o quanto ele estava distraído. O olhar pousado em seu trabalho, mas a mente longe. Ele sorriu gentilmente ao ver que ela o encarava e Erika desviou o olhar novamente para a pedra vermelho claro.
- Pensei que piromantes só usavam pedras escuras - disse ela, para disfarçar o embaraço.
- Ah, é? - ele ergueu a mão como que para analisar a pedra - Usamos pedras claras durante o treinamento em Vale Rochoso - ele deu um sorriso brincalhão aos olhos estreitos que ela lhe direcionou - A maioria prefere força bruta depois, por isso você vê muitos com pedras escuras - mostrou a sua própria pedra de Aliir, cutucando-a com o dedo - Digamos que o meu estilo de luta exija precisão maior.
- Precisão? - ela deu um olhar de provocação - Precisão para atear fogo em tudo na volta?
- Também - ele riu - Posso queimar tudo e me manter são e salvo. Mas... bem, há diferença entre atear fogo a algo e fazer algo pegar fogo…
- Oh - ela revirou os olhos.
- Não! É sério! - riu ele - Olhe.
Pegou um galho comprido, partiu em dois e largou um dos pedaços.
- Disparar uma chama é uma coisa muito simples - ele estalou os dedos e uma chama saltou para o galho, se extinguindo em seguida - Mas nem tudo é tão inflamável, como por exemplo, esse galho úmido. Você pode aumentar a potência dessa chama para causar mais dano.
Ele levantou o galho para longe deles e apontou dois dedos para ele, emitindo uma lança de fogo que desfez a madeira em pedaços. Eddy jogou fora o pequeno toco de ponta fumegante que sobrou e pegou o outro pedaço.
- Isso é o que eu quis dizer com “atear fogo” - continuou, mostrando o galho à Erika, que assitia entretida a explicação - Mas há uma técnica de curto alcance que economiza a energia que se usaria para disparar uma chama.
Com dois dedos da mão direita ele deu uma batida leve no galho, afastando-os rapidamente. Um instante depois do cutucão, o ponto onde ele tocara irrompeu em chamas e o galho que ele segurava tornou-se como uma tocha em sua mão. Eddy passou a mão e as extinguiu, resultando num pedaço chamuscado de madeira que ele jogou fora.
Erika assimilava levemente impressionada o que tinha aprendido ali, enquanto Eddy servia dois pratos do que tinha cozinhado. Estava realmente delicioso e ela se perguntou se seria uma coisa inteligente descartar Eddy e voltar às habituais refeições de pão e carne seca.
- Desse jeito - disse ela terminando de mastigar uma rodela de cenoura com aquele estranho tempero - você vai fazer eu me apegar a você!
Eddy sorriu.
- Fico lisonjeado - ele pensou em perguntar como funcionava a vigília dos batedores, mas ela foi mais rápida.
- Você disse que é de Lianne, não é?
- Isso mesmo… - ele fez uma careta - Território do Rei Dragão - riu - Nasci lá quando ainda era domínio Bahamn, como isso me coloca em nacionalidade?
- Complicada - ela o olhou de um jeito que ele não soube classificar - Como veio parar tão longe? Não tem uma família pra voltar? - ela ficou embaraçada e olhou para o próprio prato - Desculpe, eu não quis… Não me diga que é um refugiado ou algo assim?
- Ah, não! - ele gargalhou - Eu sou natural de lá, mas meus pais eram comerciantes e eu praticamente cresci em Tordek - ele teve uma ideia, aquele assunto poderia vir a ser produtivo - Passava muito tempo na biblioteca da Ordem, aprendi muito sobre demônios por lá.
- Mesmo assim, decidiu ser piromante… - ela desviou o assunto.
- Derea é a única deusa que não força ninguém a serví-la - disse ele, dando de ombros.
- Quando se tem infernais sob o comando... - Erika provocou, mas mudou de ideia - Como são os níveis de Derea? Se é que chamam assim. Como você aprende magias mais poderosas?
- Como uma agente da Ordem, duvido que você vá gostar disso - ele fez uma pausa para deixá-la curiosa - Há treinadores infernais... Ah, você não parece impressionada.
- Eu já tinha ouvido falar - disse ela dando de ombros com um sorrisinho, ela imaginou se era por isso que John não havia se tornado piromante. E, se era, ele não teria aceitado a ideia de um professor demônio ou não teria sido aceito por um? - Mas devem haver humanos para ensinar, não é?
- Ah, eu tive um professor humano - riu ele - O queridinho da nossa amada Derea, ninguém menos que o próprio Rei Dragão - agora sim ela tinha ficado impressionada, ele sorriu à expressão dela - Claro que isso foi antes dele decidir que o “Rei” em seu apelido carinhoso podia se transformar num título real... literalmente.
- Hum - ela pareceu ligeiramente desanimada.
- O que... Qual o problema?
- Nada.
Ele ergueu o sobrolho, mas ela voltara a atenção para a comida. Eddy suspirou mentalmente para o incômodo silêncio que ela deixara. Ele o quebrou antes que se estendesse mais.
- Eu nunca fui a Venêria, mas ouvi dizer que é uma cidade incrível - ele cutucou seu bife, pensando em como prosseguir - Por que escolheu a Ordem?
Ela deu de ombros, ainda desanimada.
- Eu nasci em Platunia, a sexta cidade… - ela franzia o cenho a medida que Eddy abria um sorriso maldoso.
- Entendi! - ele disse - Uma nobre almofadinha! Cresceu brincando embaixo das saias de Tesluh.
- Ora, seu… - ela pareceu ofendida, mas riu mesmo assim - Nem todo herdeiro da luz vira luminomante, isso é esteriótipo!
- Nem todo ruivo é piromante - ele passou a mão nos cabelos - Mas você não está me vendo reclamar.
Ela revirou os olhos, mas sorriu pra ele. Seus grandes olhos cor de esmeralda brilhavam a luz da fogueira, o cabelo loiro claro emoldurando o rosto delicado e numa visão que lhe aqueceu o peito. Eddy atacou seu indefeso pedaço de bife vorazmente, desviando o olhar.
- Eh… - disse ele de boca cheia - Como… Como funcionam os batedores?
- Oh - ela observou uma das borboletas pousada no alto da rocha que os protegeria do vento noturno - Posso usar cada uma como um ponto de evocação. Atraindo a energia de Austera ou condicionando o deslocamento dela aqui… - ela balançou a cabeça, como que se desculpando - Isso é muito técnico… Basicamente, posso usá-las para evocar a distância. Além de poder ver o que elas veem.
- Mas como isso é possível? - ele insistiu - São mais de uma! Sua visão deve ficar um caos!
- Ah - ela riu - Eu controlo isso. Posso alternar minha visão individualmente e elas me avisam se virem… alguma coisa interessante.
- Certo… - ele que ela dissesse aquilo.
- Eu ainda estou em treinamento, de certa forma - bocejou - Planejo avançar na evocação de luz. No próximo nível, terei acesso à outra magia de evocação de criatura.
- Se eu quiser magias mais avançadas, tenho que comprar o treinamento - Eddy recolheu os pratos - Você compra o avanço servindo a Ordem, não é?
- Mais ou menos isso - ela lhe pareceu levemente desanimada, mas podia estar enganado.
Foram dormir logo em seguida. Eddy conseguiu arrancar um risinho de Erika, quando mostrou a língua para um batedor luminoso, mesmo que ela não estivesse olhando para ele. Ele deu uma última checada em seus cavalos e se deitou no saco de dormir, a mão cobrindo os olhos. Por entre os dedos ele espiou Erika, que parecia já ter dormido.
- Droga! - ele chiou baixinho para si mesmo, virando para o outro lado.
Ela era bonita demais.

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