sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Capítulo 1 - A dúvida do renegado

A floresta em volta da vila de Hamaria se estendia alguns quilômetros até a base de um morro. Era noite e uma criatura espreitava por entre as árvores altas, um humanoide de pele vermelha pálida, tinha um corpo muito magro trajando trapos de couro. De rosto fino e cabelos marrom escuro desgrenhados, os olhos amarelos e de conjuntiva negra fitaram um cervo espiar a volta. A criatura arranhou a casca de uma árvore próxima com as unhas pontudas da mão, ansioso. Apontou dois dedos da outra mão para o animal e murmurou alguma coisa. Uma pequena bola de fogo surgiu da ponta de seus dedos e disparou na direção do animal, acertando o alvo, que guinchou de susto e correu para dentro da mata. O homem avermelhado praguejou e arrancou um pedaço da árvore que segurava, jogando as lascas para longe em seguida. Sentou no chão e encarou o céu estrelado, por entre as folhagens, por algum tempo. Arregalou os olhos ao perceber numa árvore próxima a silhueta de alguém acocorado entre os galhos. Ia se levantar de sobressalto, mas a explosão de dor que surgiu em seu ombro o fez sentar novamente. Uma aste de metal com uma argola na ponta pendia, cravada profundamente na pele entre o braço direito e o tronco. Tentar mexê-lo trazia muita dor, então segurou o braço e disparou numa fuga arfante e desesperada. Outra seta projetou-se nas costas de seu joelho esquerdo, fazendo-o gritar e cair no chão. Tentou puxá-la, mas isso piorava a dor. Observou, atônito, um homem encapuzado se aproximar calmamente, girando uma seta semelhante pela argola com o dedo médio direito.
- Um demônio caçando? - disse ele, o rosto escondido pela escuridão - Que piada.
- Por favor - o demônio choramingou - Não me mate, eu nunca ataquei um humano. Eu só tento sobreviver. Eu juro!
O encapuzado o encarou por alguns segundos, como que refletindo a situação, e o demônio tentou parecer tão pouco ameaçador quanto realmente se sentia. Cessou o giro da seta e guardou-a na manga do sobretudo, suspirando.
- Se eu não tivesse visto aquela sua evocação deplorável, você já estaria morto - virou as costas e andou para longe - Se eu pensar que você andou aprontando alguma, nem a floresta inteira pode te esconder de mim.